O CU EST CAINDO
Sidney Sheldon

***

Obras do autor publicadas pela Record
As areias do tempo
Um capricho dos deuses
Conte-me seus sonhos
Os doze mandamentos (infantojuvenil)
Escrito nas estrelas
O fantasma da meia-noite
Um estranho no espelho
A herdeir
A ira dos anjos
Juzo final
Lembranas da meia-noite
Manh, tarde e noite
Nada dura para sempre
A outra face
O outro lado da meia-noite
A perseguio (infanto-juvenil)
O plano perfeito
O reverso da medalha
Se houver amanh
SIDNEY SHELDON


Traduo de
ALDA PORTO
EDITORA RECORD
RIO DE JANEIRO  SO PAULO
2000
CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Sheldon, Sidney, 1917S548c O cu est caindo / Sidney Sheldon; traduo
de Alda Porto. - Rio de Janeiro: Record, 2000.
Traduo de: The sky is falling
 Romance norte-americano. I. Porto, Alda.
II. Tttulo. 'Ttulo original norte-americano
THE SKY IS FALLING
Copyright (c) 2000 by The Sidney Sheldon Family Limited Partnership
Todos os direitos reservados. Proibida a reproduo,
no todo ou em parte, atravs de quaisquer meios.
Direitos exclusivos de publicao em lngua portuguesa para o Brasil
adquiridos pela
DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S.A.
Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 585-2000
que se reserva a propriedade literria desta traduo
Impresso no Brasil
PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL
Caixa Postal 23.052
Rio de Janeiro, RJ - 20922-970 Eunnxm,rnne
Para Alexandra,
o anjo sobre meu ombro
"O cu est caindo!
Chicken Little
"Mostre-me um heri, que lhe escrevo uma tragdia."
F Scott Fitzgerald.


pRLOGO


ATA CONFIDENCIAL DA REUNIO: PARA SER
DESTRUDA LOGO APS O RECEBIMENTO.
LOCAO: CONFIDENCIAL
DATA: CONFIDENCIAL
Havia doze homens no gabinete subterrneo fortemente vigiado, representando doze pases bem variados. Sentavam-se em
poltronas confortveis, dispostas em seis fileiras e separadas
quase um metro umas das outras. Prestavam intensa ateno
quando o orador lhes dirigiu a palavra.
- Tenho a grata satisfao de informar a vocs que a ameaa com que todos andamos profundamente preocupados est
prestes a ser eliminada. No preciso entrar em detalhes, porque todo o mundo tomar conhecimento disso dentro das prximas 24 horas. Estejam certos de que nada nos 
deter. Os
portes continuaro abertos. Comearemos agora o leilo do
silncio. Algum d um primeiro lance? Sim. Um bilho de
dlares. Algum d dois? Dois bilhes. Algum d trs?

Um

Ela apertava o passo pela Pennsylvania Avenue, a um quarteiro da Casa Branca, tiritando sob o frio vento de dezembro,
quando ouviu o apavorante e ensurdecedor grito das sirenes de
ataque areo repentino, e logo depois o barulho de um bombardeiro acima, pronto para despejar sua carga mortal. Parou,
imvel, engolida por um intenso nevoeiro de terror
De repente, viu-se de volta a Sarajevo e ouvia o estridente
assobio de bombas caindo. Cerrou com fora os olhos, mas era
impossvel tapar a viso do que acontecia  sua volta. O cu
estava em chamas, e ela ensurdecida pelo barulho do tiroteio
de armas automticas, avies rugindo e letais granadas de morteiros. Os prdios prximos desmoronavam e cuspiam saraivadas de cimento, tijolos e poeira. Pessoas 
apavoradas corriam
disparadas para todos os lados, tentando vencer a morte.
De longe, muito longe, uma voz masculina perguntava:
- Est tudo bem com voc?
Devagar, cautelosa, ela abriu os olhos. Tinha voltado  Pennsylvania Avenue,  fria luz do sol de inverno, prestando ateno aos rudos que se extinguiam do jato 
e da sirene de ambulncia
que Lhe haviam desencadeado as lembranas.
- Senhorita... est tudo bem com voc?
Ela se esforou para voltar ao presente.
- Sim. Est... estou bem, obrigada.
Ele fitava-a.
- Espere um instante! Voc  Dana Evans. Sou um grande f seu. Vejo voc toda noite na WTN, e vi todas as suas transmisses da Iugoslvia - disse, a voz cheia de 
entusiasmo. Deve ter sido mesmo emocionante para voc cobrir aquela
guerra, hem? 
- , foi.
Dana Evans sentia a garganta seca. Emocionante ver pessoas
indo pelos ares estraalhadas, ver os corpos de bebs atirados dentro
de poos, pedaos de seres humanos flutuando corrente abaixo por
um rio de sangue.
De repente, sentiu nuseas.
- Com licena. - Virou-se e afastou-se apressada.
Dana Evans tinha retornado da Iugoslvia apenas trs meses
antes. As lembranas continuavam muito frescas. Parecia irreal andar sem medo pelas ruas em plena luz do dia, ouvir pssaros gorjeando e pessoas rindo. No havia 
risadas em Sarajevo,
s o barulho de morteiros a explodir e os angustiados gritos que
se seguiam.
John Donne tinha razo, pensou Dana. Nenhum homem  uma
ilha. O que acontece a um, acontece a todos ns, pois somos todos
feitos de barro e poeira de estrelas. Partilhamos os mesmos momentos do tempo. O segundo ponteiro universal comea seu imperdovel e inexorvel avano para o minuto 
seguinte:
Em Santiago, menina de dez anos vem sendo estuprada pelo
av...
Na cidade de Nova York, dois jovens apaixonados beijam-se  luz de velas...
Em Flandres, jovem de 12 anos d  luz um beb deficiente
fSiCO...
Em Chicago, um bombeiro arrisca a vida para salvar um gato
de um prdio em chamas...
Em So Paulo, centenas de torcedores so mortos pisoteados
numa partida de futebol quando a arquibancada desaba...
Em Pisa, me chora de alegria ao ver seu beb dar os primeiros passos...
Tudo isso e infinitamente mais no espao de sessenta segundos,
pensava Dana. E depois o tempo tiquetaqueia at acabar nos mergulhando na mesma eternidade desconhecida.
Dana Evans, aos 22 anos, era linda, o fsico esbelto, cabelos
negros como tio, olhos cinzentos grandes e inteligentes, o
rosto em forma de corao e uma risada simptica, contagiante.
Tinha sido criada como uma fedelha do exrcito, filha de um
coronel que viajava de uma base para outra como instrutor de
armamento, e esse tipo de vida tinha lhe dado um gostinho pela
aventura. Era vulnervel e ao mesmo tempo destemida, e a
combinao se fazia irresistvel. Durante o ano que cobriu a
guerra na Iugoslvia, pessoas de todas as partes do mundo haviam ficado fascinadas pela jovem linda, passional, que transmitia notcias em meio  guerra, arriscando 
a vida para informar
os fatos mortais que ocorriam  sua volta. Agora, aonde quer
que fosse, percebia sinais e sussurros de reconhecimento. Dana
Evans sentia-se constrangida por sua celebridade.
Apertando o passo pela avenida, ao passar pela Casa Branca, Dana conferiu as horas no relgio de pulso e pensou: Vou
chegar atrasada para a reunio.
A sede da Washington Tribune Enterprises ocupava todo o
quarteiro da rua Seis, com quatro prdios separados: a grfica
dos jornais, as salas da redao separadas por divisrias, uma
torre executiva e um complexo de transmisso de TV. Os estdios da televiso WTE ocupavam o sexto andar do Prdio
Quatro. O lugar vivia carregado de energia, as balas zumbindo
com pessoas trabalhando em computadores. Telegramas de cinco agncias lanavam o tempo todo notcias atualizadas de todo
o mundo. A imensido da operao jamais cessava, para assombro e emoo de Dana. 
Foi ali que ela conheceu Jeff Connors. Famoso jogador de
beisebol antes de ferir o brao num acidente de esqui, ele agora
era reprter esportivo da WTN e tambm escrevia uma coluna
diria para a agncia de notcias do Washington Tribune. Na faixa dos trinta anos, alto e magro, tinha uma aparncia de garoto
e um encanto natural, descontrado, que atraa as pessoas. Jeff
e Dana haviam-se apaixonado e falado de casamento.
Nos trs meses desde que ela retornara de Sarajevo, os acontecimentos em Washington mudaram rapidamente. Leslie
Stewart, ex-proprietria da Washington Tribune Enterprises,
vendeu a empresa e desapareceu, e o conglomerado foi comprado por um magnata da mdia internacional, Elliot Cromwell.
A reunio de produo da manh com Matt Baker e Elliot
Cromwell ia comear. Quando chegou, Dana foi recebida por
Abbe Lasmann, a ruiva sensual assistente de Matt.
- O pessoal est esperando voc - disse Abbe.
- Obrigada, Abbe. - Dana entrou no escritrio de quina. - Matt, Elliot...
- Est atrasada - grunhiu Matt Baker
Era um homem baixo, de seus cinqenta e poucos anos,
grisalho, com um jeito carrancudo, impaciente, alimentado por
uma mente brilhante e agitada. Usava ternos amarrotados que
davam a impresso de que dormia vestido neles, e Dana desconfiava que dormia mesmo. Dirigia a operao televisiva da
Washington Tribune Enterprises.
Elliot Cromwell tinha sessenta e poucos anos, uma atitude
amistosa, aberta, e um sorriso imediato. Era bilionrio, mas havia
dezenas de verses diferentes de como adquirira sua imensa
fortuna, algumas delas nada lisonjeiras. No ramo da mdia, onde
o objeto era disseminar informao, Elliot Cromwell era um
enigma.
Ele olhou para Dana e disse:
- Matt me disse que estamos mais uma vez derrotando a
concorrncia. Seus ndices continuam subindo.
- Fico feliz em saber, Elliot.
- Dana, assisto a meia dzia de noticirios toda noite, mas
o seu  diferente de todos os outros. No sei ao certo por que,
mas gosto dele.
Dana podia ter-lhe dito o motivo. Os outros reprteres falavam para - no com - audincias de milhes, anunciando
as notcias. Ela decidira fazer isso de maneira pessoal. Em sua
mente, falaria numa noite com uma viva solitria, na seguinte com um recluso sem esperanas deitado na cama, e na outra
com um vendedor afastado do lar e da famlia em algum lugar
muito distante. As notcias que transmitia pareciam pessoais e
ntimas, e os telespectadores as adoravam e davam retorno.
- Soube que vai ter um convidado empolgante para entrevistar esta noite - disse Matt Baker
Dana confirmou com a cabea.
- Gary Winthrop.
Gary Winthrop, o Prncipe Encantado dos Estados Unidos.
Membro de uma das faMlias mais ilustres do pas, era jovem,
bonito e carismtico.
- Ele no parece uma personalidade pblica - disse
Cromwell. - Como conseguiu convenc-lo a dar a entrevista?
- A gente tem um hobby comum - disse-lhe Dana.
Cromwell arqueou as sobrancelhas.
-  mesmo?
- - sorriu Dana. -Gosto de ver Monets e van Goghs,
e ele gosta de compr-los. Falando srio, j o entrevistei antes
e ficamos amigos. Vamos passar uma fita da coletiva de imprensa
dele que cobriremos esta tarde. Minha entrevista vai ser um
outro bloco.
- Maravilha - sorriu Cromwell, radiante.
Passaram a hora seguinte conversando sobre o novo programa que a rede planejava, Linha do Crime, uma hora de investigao que Dana ia produzir e apresentar. O objetivo 
era
duplo: corrigir injustias cometidas e estimular o interesse pela
soluo de crimes esquecidos.
- H muitos outros programas de realidade no ar - advertiu Matt -, por isso temos de ser melhores que eles. Quero
que comecemos com um arrebatador. Que capture a ateno
da audincia e...
A campainha do interfone tocou. Matt Baker apertou uma
tecla.
- Eu disse a vocs, nada de telefonemas. Por que...?
A voz de Abbe surgiu do interfone.
-  para a Srta. Evans. Um telefonema da escola de Kemal.
Parece urgente.
Matt Baker olhou para Dana.
- Linha Um.
Ela pegou o telefone, o corao martelando.
- Al... Kemal est bem? - Escutou por um momento.
- Entendo... Entendo... Sim, vou j para a. - Deps o receptor
- Qual o problema? - perguntou Matt.
- Eles gostariam que eu fosse  escola pegar Kemal.
Elliot Cromwell franziu o cenho.
-  o garoto que trouxe de Sarajevo?
- .
- Uma matria e tanto, aquela.
-  - disse Dana, relutante.
- No o encontrou num terreno baldio?
- Isso mesmo - disse Dana.
- Tinha alguma doena, ou coisa assim?
- No - disse ela com firmeza, no gostando sequer de
falar daquela poca. - Kemal perdeu um brao. Foi arrancado
por uma bomba.
- E voc o adotou?
- Ainda no oficialmente, Elliot. Mas vou adotar. Por
enquanto, ele  meu filho postio.
- Bem, v ento busc-lo. A gente discute o Linha do
Crime depois.
Quando Dana chegou  Escola Theodore Roosevelt, foi direto
para a sala da assistente do diretor, Vera Kostoff, uma mulher
de aparncia atormentada, prematuramente grisalha, de seus
cinqenta e poucos anos. Encontrou-a sentada  escrivaninha,
e Kemal do outro lado da mesa. Com doze anos, ele era pequeno para a idade. Magro, amarelado, tinha os cabelos louros
desgrenhados e um queixo obstinado. Via-se a manga vazia onde
deveria estar o brao direito. Seu corpo franzino parecia encolhido pelo espao em volta.
Quando Dana entrou, a atmosfera na sala era lgubre.
- Como vai, Sra. Kostoff? - disse Dana, sorrindo. Kemal.
Ele fitava os sapatos.
- Pelo que entendi, h algum problema - continuou
Dana.
- Sim, sem a menor dvida, Srta. Evans. - Vera estendeu a Dana uma folha de papel.
Dana fitou-a, intrigada. Liam-se Vodja, pizda, zbosti, fukai
nezakonski otrok, umreti, tepec. Ela ergueu os olhos.
- Eu... Eu no entendo. So palavras srvias, no?
A Sra. Kostoff disse, enftica:
- Na verdade, so.  uma infelicidade de Kemal o fato de
eu por acaso ser srvia. So palavras que ele tem usado na escola. - O rosto enrubesceu. - Nem motoristas de caminho
srvios falam desse jeito, Srta. Evans, e no vou tolerar isso vindo
da boca desse garoto. Kemal me chamou de pizda.
Dana perguntou:
- Pi...?
- Entendo que Kemal acabou de chegar ao nosso pas,
tentei fazer concesses, mas o... o comportamento dele  pssimo, vive se metendo em brigas. E quando o repreendi esta
manh, ele... ele me insultou. J passou dos limites.
Dana disse, com tato:
- Tenho certeza que entende como deve ser difcil para
ele, Sra. Kostoff, e...
- Como Lhe disse antes, tenho feito concesses, mas el
est abusando de minha pacincia.
- Compreendo. - Dana olhou para Kemal. Ele continuava cabisbaixo, os olhos fixos no cho, a fisionomia carrancuda.
- Espero que este seja realmente o ltimo incidente - disse a Sra. Kostoff.
- Eu tambm. - Dana levantou-se.
- Tenho o boletim de Kemal para lhe dar. - A Sra. Kostof
abriu uma gaveta, tirou um carto e entregou-o a Dana.
- Obrigada - disse ela.
A caminho de casa, Kemal ficou calado.
- Que vou fazer com voc? - perguntou Dana. - Por que est sempre se metendo em brigas, e por que usa palavras
como aquelas?
- Eu no sabia que ela falava srvio.
Quando chegaram ao apartamento de Dana, ela disse:
- Tenho de voltar para o estdio, Kemal. Voc vai ficar
bem aqui sozinho?
- Isso a.
A primeira vez em que Kemal lhe disse isso, Dana achou
que o garoto no entendera a pergunta, mas logo aprendeu que
a palavra era parte do idioma misterioso falado pelos jovens.
"Isso ai' queria dizer "sim". "Boquete" descrevia membros do sexo
oposto; bonita, quente e tentadora. Tudo era maneiro, sinistro
ou legal. Quando no gostavam de alguma coisa, era um "saco".
Dana pegou o boletim que a Sra. Kostoff lhe dera. Examinou-o e franziu os lbios. Histria, D. Ingls, D. Cincias, D.
Estudos Sociais, F Matemtica, A.
Olhando o boletim, Dana pensava: Ai, meu Deus, que vou
fazer?
- A gente conversa sobre isso depois, Kemal - disse. Estou atrasada.
Kemal era um enigma para Dana. Quando estavam juntos, ele
se comportava s mil maravilhas. Era amoroso, solcito e carinhoso. Nos fins de semana, ela e Jeff transformavam Washington num playground para ele. Iam ao Zoolgico 
Nacional, com
sua espetacular variedade de animais selvagens, estrelada por
dois gigantescos e exticos pandas. Visitaram o Museu Nacional Aeroespacial, onde Kemal viu o primeiro avio dos irmos
Wright pendendo do teto, depois percorreram a Estao Espacial e tocaram em pedras lunares. Foram ao Kennedy Center e
ao Arena Stage. Apresentaram Kemal  pia do Tom Tom, aos
tacos do Mextec e ao frango frito  moda do Sul do Georgia
Brown's. Ele adorou cada momento. Adorava ficar com Dana E
Jeff.
Mas... quando Dana tinha de sair para o trabalho, ele se
transformava. Ficava hostil e belicoso. Era impossvel Dana
conservar uma governanta, e as babs contavam histrias terrveis sobre uma noite passada com Kemal.
Jeff e Dana tentavam argumentar com ele e convenc-lo,
mas isso no exercia influncia alguma. Talvez Kemal precisasse de
ajuda profissional, pensou Dana, sem a mnima idia dos terrveis medos que o atormentavam. 
O noticirio da noite da rede WTN entrou no ar Sentados ao
lado de Dana, seu bonito e atraente co-ncora, Richard Melton,
e Jeff Connors.
Dana Evans dizia:
- ... e no noticirio internacional, Frana e Inglaterra continuam batendo de frente sobre a doena da vaca louca. Com
vocs, Ren Linaud, falando de Rheims.
Na cabine de controle, a diretora, Anastasia Mann, ordenou:
- Passem para o telecomando...
Uma paisagem no campo francs surgiu nas telas de televiso.
A porta do estdio abriu-se, um grupo de homens entrou e
aproximou-se da mesa dos ncoras.
Todos ergueram os olhos. Tom Hawkins, o jovem e ambicioso produtor do noticirio da noite, disse:
- Dana, voc conhece Gary Winthrop.
- Claro.
Em pessoa, Gary Winthrop era ainda mais bonito que nas
fotos. Quarenta e poucos anos, olhos azuis-claros, um sorriso
cativante e um enorme encanto.
- Mais uma vez nos encontramos, Dana. Obrigado por me
convidar
- Eu que Lhe agradeo por ter vindo.
Ela olhou em volta. Meia dzia de secretrias haviam de
repente arranjado motivos urgentes para ficar no estdio. Gary
Winthrop deve estar acostumado a isso, pensou Dana, achando
divertido.
- Seu bloco vai ser dentro de alguns minutos. Por que no
se senta aqui a meu lado? Este  Richard Melton. - Os dois se
cumprimentaram com um aperto de mos. - Conhece Jeff
Connors, no?
- Pode apostar que sim. Devia estar l arremessando, Jeff,
em vez de comentando o jogo.
- Quem dera que eu pudesse - disse Jeff, pesaroso.
Enquanto o telecomando da Frana chegava ao fim e eles
passavam para um comercial, Gary Winthrop sentou-se e assistiu ao fim do intervalo.
Da cabine de controle, Anastasia Mann avisou:
- Fiquem a postos. Vamos gravar. - Silenciosa, contou
com. o indicador apontado. - Trs... dois... um...
A cena no monitor reluziu e exps o exterior do Museu de
Arte de Georgetown. Um comentarista, o microfone na mo,
enfrentava o vento frio.
- Estamos diante da fachada do Museu de Arte de Georgetown, no interior do qual se encontra o Sr Gary Winthrop,
numa cerimnia que assinala sua doao de cinqenta milhes
de dlares ao museu. Agora, vamos at l dentro...
A cena na tela mudou para o espaoso interior do museu
de arte. Vrias autoridades municipais, dignitrios e equipes de
televiso reunidos em volta de Gary Winthrop. O diretor,
Morgan Ormond, entregava-lhe uma grande placa.
- Sr Winthrop, em nome do museu, dos muitos visitantes que o freqentam, e dos curadores, queremos agradecer-lhe
por essa generosssima contribuio.
As luzes das cmeras se acenderam.
Gary Winthrop disse:
- Espero que isso d aos jovens pintores americanos uma
oportunidade melhor no apenas de se expressarem, mas dE
terem seu talento reconhecido em todo o mundo.
O grupo aplaudiu.
O reprter na fita dizia:
- Aqui, Bill Toland, no Museu de Arte de Georgetown
De volta ao estdio. Dana...
A luz vermelha da cmera acendeu-se.
- Obrigada, Bill. Somos muito afortunados por ter o Sr
Gary Winthrop conosco para discutir o propsito de sua grande doao.
A cmera recuou, abriu um ngulo maior, revelando Gary
Winthrop no estdio.
Dana perguntou:
- Essa doao de cinqenta milhes de dlares, Sr Winthrop, ser usada para comprar pinturas para o museu?
- No.  para uma nova ala que ser dedicada a jovens
artistas plsticos americanos, que talvez de outro modo nunca
teriam uma oportunidade de mostrar o que sabem fazer. Parte
do fundo ser usada em bolsas de estudo para crianas talentosas
em cidades do interior Numerosos jovens crescem sem saber
nada de arte. Podem ouvir falar dos grandes impressionistas franceses, mas quero que conheam sua prpria herana. Pintores
americanos como Sargent, Homer e Remington. esse dinheiro
ser usado para incentivar jovens artistas plsticos a realizarem
seu potencial artstico e fazer com que todos os jovens adquiram um interesse pela arte.
- H um rumor de que o senhor planeja candidatar-se ao
Senado, Sr Winthrop. Isso tem algum fundo de verdade? perguntou Dana.
Gary Winthrop sorriu.
- Estou testando as guas.
- Elas so muito convidativas. Nas votaes experimentais, vimos que o senhor saiu na frente.
Gary Winthrop fez que sim com a cabea.
- Minha famlia tem um longo histrico de servio governamental. Se eu puder ser til a este pas, farei tudo o que for
convocado a fazer
- Obrigada por sua presena aqui conosco, Sr Winthrop.
- Eu  que agradeo a vocs.
No intervalo comercial, Gary Winthrop despediu-se e saiu
do estdio.
Jeff Connors, sentado ao lado de Dana, comentou:
- Precisamos de mais gente como ele no Congresso.
- Amm.
- Talvez pudssemos clon-lo. Por falar nisso, como vai
Kemal?
Dana contraiu-se.
- Jeff, por favor, no mencione Kemal e clonagem numa
mesma frase. No sei mais como lidar com a coisa.
- O problema na escola esta manh foi resolvido?
- Sim, mas isso foi hoje. Amanh ...
- De volta ao ar. Trs... dois... um... - avisou Anastasia
Mann.
A luz vermelha piscou. Dana olhou para o teleprompter.
- Agora  hora dos esportes, com Jeff Connors.
Jeff olhou dentro da cmera.
- O Mago Merlin fez falta esta noite nos Wizards de Washington. Reggie Jordan tentou sua magia e Mitch Raymond e
Ishdi White ajudaram a mexer a poo no caldeiro, mas ela
ficou amarga, e eles acabaram tendo de engoli-la junto com seu
orgulho...
s duas da manh, na casa de campo de Gary Winthrop, na
seo noroeste da elite de Washington, dois homens retiravan
quadros das paredes da sala de visitas. Um deles usava a mscara do Zorro, o outro a do Capto Mea-noite. Trabalhavan
num ritmo sem pressa, arrancando as pinturas das molduras 
pondo a pilhagem em grandes sacos de aniagem grossa.
- A que horas a patrulha vai passar de novo? - perguntou o Zorro.
O Capito Mea-noite respondeu:
- s quatro da manh.
- Simptico da parte deles cumprir um horrio que nos
d tempo, no?
- isso a.
O Capito Meia-noite retirou um quadro da parede e jogou-o com fora no cho de mrmore, fazendo um grande barulho. Os dois pararam o que faziam e prestaram ateno
Silncio.
O Zorro dsse:
- Tente de novo. Mais alto.
O Capito Meia-noite pegou outro quadro e atirou-o pesadamente no cho.
- Agora vamos ver o que acontece.
Em seu quarto no andar de cima, Gary Wnthrop foi acordado pelo barulho. Sentou-se na cama. Ouvira um rudo, oL
sonhara? Prestou ateno por um momento mais longo. Silncio. Sem saber ao certo, levantou-se, fo at o corredor e apertou o interruptor da luz. O corredor continuou 
escuro.
- Ei! Tem algum a embaixo?
No houve resposta. No andar de baixo, ele atravessou o
longo corredor at chegar  porta da sala de visitas. Parou e fitou incrdulo os dois mascarados.
- Que diabo esto fazendo?
O Zorro voltou-se para ele e disse:
- Oi, Gary. Desculpe por termos acordado voc. Volte para
a cama e v dormir -Uma Beretta com um silenciador apareceu em sua mo.
Ele apertou o gatilho duas vezes e viu o peito de Gary
Winthrop explodir numa chuvarada vermelha. O Zorro e o
Capito Meia-noite viram-no cair no cho. Satisfeitos, viraram-se e continuaram a retirar as pinturas.

DOIS

Dana Evans foi acordada pela incessante campainha do telefone. Esforou-se para sentar-se na cama e olhou para o relgio
na mesinha-de-cabeceira, os olhos injetados. Eram cinco da
manh. Ela atendeu.
- Al?
- Dana...
- Matt?
- Veja se d um jeito de chegar o mais rpido possvel ao
estdio.
- Que foi que houve?
- Passo tudo para voc quando chegar aqui.
- J estou indo.
Quinze minutos depois, vestida s pressas, Dana batia na
porta do apartamento dos Whartons, os vizinhos do lado.
Dorothy Wharton abriu a porta vestindo um robe. Olhou
assustada para Dana.
- Dana, qual  o problema?
- Detesto fazer isso com voc, Dorothy, mas fui chamada
ao estdio numa emergncia. Se incomodaria de levar Kemal 
escola?
- Ora, claro que no. Ser um prazer.
- Muitssimo obrigada. Ele tem de estar l s quinze para
as oito e vai precisar de caf da manh.
- No se preocupe. Cuido de tudo. Pode ir correndo.
- Obrigada - disse Dana, agradecida.
Abbe Lasmann j estava em seu escritrio, parecendo sonolenta.
- Ele est a sua espera.
Dana entrou na sala de Matt.
- Tenho algumas notcias terrveis - disse ele. - Gary
Winthrop foi assassinado no incio da madrugada.
Dana afundou numa poltrona, aturdida.
- Como? Quem...?
- Aparentemente, a casa estava sendo roubada. Quando
enfrentou os ladres, eles o assassinaram.
- Oh, no! Ele era to maravilhoso! - Dana lembrou-se
da amizade e do calor humano do atraente filantropo e sentiu-se muito mal.
Matt balanava a cabea, incrdulo.
- Com essa... meu Deus...  a quinta tragdia.
- O que quer dizer .. a quinta tragdia?
Matt olhou para ela surpreso, a, de repente, compreendeu.
- Claro... voc estava em Sarajevo. Imagino que l, com
a guerra comendo feio, o que aconteceu com os Winthrops no
ano passado no devia ser notcia de primeira linha. Ouviu falar de Taylor Winthrop, o pai de Gary?
- Sim. Era senador. Ele e a mulher no morreram num
incndio no ano passado?
- Isso mesmo. Dois meses depois, o filho mais velho deles
morreu num acidente de automvel. E um ms e meio depois
foi a filha Julie, num acidente de esqui. - Matt fez uma pausa.
- E agora, nesta madrugada, Gary, o ltimo da famlia.
Dana calou-se, aturdida.
- Dana, os Winthrops so uma lenda. Se este pas tivesse
uma famlia real, eles  que usariam a coroa. Inventaram o
carisma. Ficaram famosos em mbito mundial por sua filantropia
e servios prestados ao governo. Gary planejava seguir os passos do pai e concorrer ao Senado, e era encarado como o vencedor certo. Agora, ele se foi. Em menos 
de um ano, uma das
mais ilustres famlias do mundo foi totalmente dizimada.
- Eu... eu no sei o que dizer
-  melhor pensar em alguma coisa - disse Matt, rspido. - Voc entra no ar em vinte minutos.
A notcia da morte de Gary Winthrop transmitiu ondas de choque a todo o mundo. Comentrios de lderes governamentais
lampejaram nas telas de televiso em todo o planeta.
-  como uma tragdia grega...
- Inacreditvel...
- Uma irnica reviravolta do destino...
- O mundo sofreu uma grande perda...
- Os mais brilhantes e os melhores, e agora se foram todos...
Parecia que todo mundo no falava de outro assunto seno
do assassinato de Gary Winthrop. Uma onda de tristeza inundou o pas. A morte de Gary Winthrop trouxera de volta a lembrana das outras mortes trgicas na famlia.
-  to irreal - disse Dana a Jeff. - Toda a famlia devia
ser to maravilhosa.
- E eram. Gary era um verdadeiro f de esportes, e um
grande patrocinador - Jeff balanou a cabea de um lado para
outro. -  difcil acreditar que dois ladrezinhos liquidaram
uma pessoa to maravilhosa.
Ao volante, a caminho do estdio na manh seguinte, Jeff disse:
- Ah, a propsito, Rachel est aqui na cidade.
A propsito? Mas como ele  natural. Natural demais, pensou
Dana.
Jeff tinha sido casado com Rachel Stevens, uma top model.
Dana vira o retrato dela em anncios de televiso e capas de
revistas. Era difcil acreditar que uma mulher pudesse ser to
linda. Mas na certa no tem uma clula cerebral funcionando na
cabea, decidiu Dana. Em compensao, com aquele rosto e corpo, no precisa de crebro.
Dana conversara sobre Rachel com Jeff.
- Que aconteceu com o casamento?
- No incio foi fantstico - disse-lhe Jeff: - Rachel me
dava um grande apoio, era muito compreensiva. Embora odiasse beisebol, ia aos jogos me ver jogar. Alm disso, tnhamos
muita coisa em comum.
Aposto que tinham.
- Ela  mesmo uma mulher maravilhosa, completamente
autntica. Adorava cozinhar Quando estava numa filmagem,
cozinhava para as outras modelos.
Grande jogada para livrar se da competio. Na certa, elas
caam como moscas.
- Como?
- Eu no disse nada.
- Em todo caso, ficamos casados cinco anos.
- E a?
- Rachel fazia o maior sucesso. Era sempre requisitada, e
seu trabalho a levou ao mundo inteiro. Itlia... Inglaterra...
Jamaica... Tailndia... Japo... Diga qualquer lugar que queira.
Enquanto isso, eu jogava bola em todos os cantos do pas. No
nos encontrvamos, nem ficvamos juntos com muita freqncia. Aos poucos, a magia foi desaparecendo.
A pergunta seguinte parecia lgica, pois Jeff adorava crianas.
- Por que vocs no tiveram filhos?
Ele deu um sorriso forado.
- No  bom para a forma fsica de uma modelo. A, um
dia, Roderick Marshall, um dos diretores bambas de Hollywood,
mandou cham-la. Rachel foi para Hollywood. - Jeff hesitou.
- Ela me ligou uma semana depois para dizer que queria o divrcio. Achava que tnhamos ficado muito afastados um do
outro. Tive de concordar. Dei o divrcio. Logo depois, quebrei
o brao.
- E se tornou um comentarista esportivo. E Rachel? No
estourou no cinema?
Jeff fez que no com a cabea.
- No, ela no se interessava a srio. Mas est se saindo
simplesmente muito bem.
- Vocs continuam amigos? - Uma pergunta carregada.
- Sim. Para falar a verdade, quando ela me telefonou contei sobre ns. Ela quer conhec-la.
Dana franziu a testa.
- Jeff, no acho que...
- Ela  muito simptica mesmo, querida. Vamos almoar
todos juntos amanh. Voc vai gostar de Rachel.
- Com certeza que vou - concordou Dana.
Como uma bola de neve no inferno, pensou Dana. Mas afinal
no tenho hbito de falar com muitas cabeas ocas.
A cabea oca acabou sendo ainda muito mais linda que Dana
temia. Rachel Stevens era alta e esguia, com longos e luminosos cabelos louros, a ctis bronzeada, perfeita, e traos faciais
impressionantes. Dana detestou-a  primeira vista.
- Dana Evans, esta  Rachel Stevens.
No devia ser: Rachel Stevens, esta  Dana Evans?, pensou
Dana.
A supermodelo dizia:
- ...suas transmisses de Sarajevo sempre que eu podia.
Eram incrveis. Dava pra todos ns sentirmos seu corao partido e partilhar de sua dor
Como a gente responde a um elogio sincero?
- Obrigada - disse Dana, sem muita entonao.
- Onde gostariam de almoar? - perguntou Jeff.
Rachel sugeriu:
- Tem um restaurante maravilhoso chamado Estreitos da
Malsia. Fica a dois quarteires de Dupont Circle. - Virou-se
para Dana e perguntou: - Voc gosta de comida tailandesa?
Como se ela realmente se importasse.
- Gosto.
Jeff sorriu.
- timo. Vamos experimentar
- Fica s a alguns quarteires daqui. Vamos a p?
Nesse frio enregelante?
- Claro - disse Dana, disposta a enfrentar qualquer parada. Ela na certa anda nua na neve.
Os trs dirigiram-se para Dupont Circle. Dana sentia-se
medonha em segundo plano. Arrependia-se amargamente de
ter aceitado o convite.
O restaurante acabou se revelando lotado, com uma dezena de pessoas no bar,  espera de mesas. O maitre apressou-se a
receb-los.
- Uma mesa para trs - disse Jeff.
- Vocs fizeram reserva?
- No, mas...
- Lamento, mas... - Reconheceu Jeff. - Sr Connors, 
um prazer v-lo. - Olhou para Dana. - Srta. Evans,  uma
honra. - Fez um muxoxo. - Receio que haja um pequeno
atraso. - Desviou o olhar para Rachel, e a expresso no rosto
iluminou-se. - Srta. Stevens! Li que ia fazer um trabalho na
China.
- Fiz, em Somchai. J voltei.
- Maravilha. - Voltou-se para Dana e Jeff. - Claro que
temos uma mesa pra vocs. - Levou-os a uma no centro do
restaurante.
Odeio ela, pensou Dana. Odeio mesmo.
J sentados, Jeff disse:
- Voc est fantstica, Rachel. Seja l o que anda fazendo, tem-lhe feito bem.
E podemos todos adivinhar o qu.'
- Tenho viajado muito. Acho que vou moderar um pouco o ritmo por algum tempo. - Olhou fundo nos olhos de Jeff.
- Lembra aquela noite em que eu e voc...
Dana ergueu os olhos do cardpio.
- Que  udang goreng?
Rachel olhou para Dana.
-  camaro com leite de coco. Muito bem feito aqui. Voltou-se para Jeff. -A noite em que eu e voc decidimos que
queramos...
- Que  iaksa?
Rachel respondeu, paciente:
- Sopa apimentada com talharim. - Voltou-se mais uma
vez para Jeff. - Voc disse que queria...
- E poh pia?
Rachel desviou o olhar para Dana e disse, com calma.
-  refogado de jicama frita com legumes.
-  mesmo? - Dana decidiu no perguntar o que queria
dizer jicama.
Mas no decorrer da refeio ela surpreendeu-se, porque, embora a contragosto, comeava a gostar de Rachel Stevens. A
ex mulher de Jeff tinha uma personalidade atraente e encantadora. Ao contrrio das maiores beldades de categoria mundial,
Rachel parecia inteiramente desligada de sua linda aparncia,
alm de no exibir ego inflado algum. Inteligente e articulada,
quando fez o pedido do almoo ao garom em tailands, no
deixou transparecer nenhuma insinuao de superioridade.
Dana se perguntava: Como Jeff deixou esta mulher escapar?
- Quanto tempo vai ficar em Washington? - perguntou
Dana.
- Tenho de ir embora amanh.
- Para onde, desta vez? - Jeff quis saber.
Rachel hesitou.
- Hava. Mas estou me sentindo muito cansada mesmo,
Jeff. Cheguei at a pensar em cancelar a viagem.
- Mas no vai - disse Jeff, sabedor das coisas.
Rachel deu um suspiro.
- No, no vou.
- Quando vai voltar? - perguntou Dana.
Rachel olhou-a por um longo momento e disse, calma.
- Acho que no vou voltar para Washington, Dana. Desejo que voc e Jeff sejam muito felizes. -Transpareceu de suas
palavras uma mensagem no dita.
Fora do restaurante, aps o almoo, Dana disse:
- Tenho algumas coisas para fazer. Vo na frente vocs
dois.
Rachel pegou a mo de Dana com as suas.
- Fiquei muito feliz por nos conhecermos.
- Eu tambm - disse Dana e, para sua surpresa, dissera
isso com sinceridade.
Dana olhou Jeff e Rachel seguirem pela rua. Um casal impressionante, pensou.
Como era incio de dezembro, Washington preparava-se
para a temporada das festividades natalinas. As ruas do distrito
federal estavam decoradas com luzes de Natal e guirlandas de
azevinho; em quase toda esquina, viam-se Papais Noel do Exrcito da Salvao a repicar seus sinos, pedindo moedas para
caridade. As caladas apinhavam-se de compradores que enfrentavam com destemor o vento glacial.
Chegou a hora, pensou Dana. Preciso comear a fazer minhas
compras. Fez uma lista mental das pessoas a quem ia dar presentes. Sua me, Kemal, Matt, seu patro e, claro, o maravilhoso
Jef. Entrou num txi e rumou para a Hetcht's, uma das maiores
lojas de departamentos de Washington. O lugar estava abarrotado de pessoas que celebravam o esprito natalino dando rudes
encontres em outros compradores para tir-los do caminho.
Quando terminou as compras, Dana voltou para o apartamento a fim de deixar os presentes. O prdio ficava na Calvert Street
num tranqilo bairro residencial. Com uma decorao atraente, consistia em um quarto, uma sala de estar, cozinha e um escritrio adaptado para quarto, onde dormia 
Kemal.
Dana ps os presentes num armrio, olhou o apartamento
em volta e pensou, satisfeita: Vamos terde arranjarum lugar maior
quando Jeff e eu nos casarmos. Ao dirigir-se  porta para voltar
ao estdio, o telefone tocou. Lei de Murphy. Dana pegou-o.
- Al.
- Dana, querida.
Era sua me.
- Oi, me. Eu j estava sain...
- Eu e meus amigos assistimos ao seu programa ontem 
noite. Voc estava tima.
- Obrigada.
- Embora a gente tivesse achado que voc podia transmitir notcias um pouco mais animadoras.
Dana suspirou.
- Notcias um pouco mais animadoras?
- . Todos os assuntos de que voc fala so to deprimentes. No pode arranjar alguma coisa mais alegre para discutir?
- Sem dvida, me, vou ver o que posso fazer.
- Seria muito simptico. Alis, estou meio sem dinheiro
este ms. Ser que d para voc me ajudar mais uma vez?
Desde que a me de Dana se divorciara do pai e mudara-se
para Las Vegas, parecia sempre estar sem dinheiro. A mesada
que Dana lhe dava nunca bastava.
- Voc joga, me?
- Claro que no - disse a Sra. Evans, com indignao.
- Las Vegas  uma cidade muito cara. Por falar nisso, voc no
vai aparecer? Gostaria de conhecer Kimbal. Devia traz-lo aqui.
- O nome dele  Kemal, me. No momento no tenho
como sair daqui.
Houve uma ligeira hesitao na outra ponta da linha.
- No tem? Meus amigos vivem dizendo que voc  uma
grande felizarda por ter um emprego em que s precisa trabalhar uma ou duas horas por dia.
- , acho que sou mesmo uma grande felizarda.
Como ncora de dois jornais, Dana chegava ao estdio da
televiso s nove todas as manhs, passava a maior parte do dia
em telefonemas para coletivas de imprensa internacionais, pegando as ltimas notcias de Londres, Paris, Itlia e outras localidades estrangeiras. O resto do dia 
era dedicado a reunies
de produo,  pauta,  compilao das notcias, decidindo em
que ordem seriam editadas e transmitidas as matrias quando
ela entrasse no ar. Dana apresentava dois noticirios noturnos.
-  timo que tenha um emprego to fcil, querida.
- Obrigada, me.
- Voc vem me visitar logo, no vem?
- Vou, sim.
- Estou louca pra conhecer esse menino lindo.
Seria bom tambm para Kemal conhec-la, pensou Dana.
Assim, ter uma av. E quando eu e Jeff nos casarmos, ele mais
uma vez ter uma famlia de verdade.
Quando Dana pisou no corredor, saindo do prdio de seu apartamento, surgiu a Sra. Wharton.
- Quero lhe agradecer por ter tomado conta de Kemal
ontem de manh, Dorothy. Fico realmente muito grata.
- Foi um prazer
Dorothy Wharton e o marido, Howard, haviam-se mudado para o prdio um ano antes. Eram canadenses, um encantador casal de meia-idade. Howard Wharton era engenheiro
especializado em restaurao de monumentos.
Como certa noite explicou a Dana no jantar:
- No h cidade melhor no mundo que Washington para
o meu tipo de trabalho. Onde mais eu ia encontrar oportunidades assim? - perguntou Howard Wharton. E ele mesmo
respondeu: - Em lugar nenhum.
- Howard e eu adoramos Washington - confidenciou a
Sra. Wharton. - Nunca mais vamos sair daqui.
Ao voltar para seu escritrio, Dana encontrou a ltima edio
do Washington Tribune na mesa. A primeira pgina continuava
cheia de matrias e fotos da famlia Winthrop. Dana olhou atenta as fotos durante um longo tempo, a mente disparada. Cinco
deles mortos em menos de um ano. Incrvel.
O telefonema foi dado para um aparelho privado na torre executiva da Washington Tribune Enterprises.
- Acabei de receber o telefonema.
- Bom. Eles estavam  espera. Que quer que faam com
as pinturas?
- Queime-as.
- Todas? So valiosas...
- Tudo saiu s mil maravilhas. No podemos deixar pontas soltas. Queime todas agora.
A secretria de Dana, Olivia Watkins, avisou-a pelo interfone.
- Telefonema para voc na linha trs. Ele j ligou duas
vezes.
- Quem , Olivia?
- O Sr Henry
Thomas Henry, diretor da Escola Intermediria Theodore
Roosevelt.
Dana levou a mo  testa e comprimiu-a para expulsar a
dor de cabea que ia comear. Pegou o telefone.
- Boa tarde, Sr Henry.
- Boa tarde, Srta. Evans. Ser que poderia dar uma passada aqui para me ver?
- Sem dvida. Daqui a uma ou duas horas, estar...
- Eu gostaria de sugerir j, se for possvel.
- J estou indo.

TrS

A escola era uma provao insuportvel para Kemal. Ele era
menor que os outros garotos da sala e, para sua profunda vergonha, isso inclua as meninas. Apelidaram-no de "nanico"
"camaro" e "peixinho". No que se referia aos estudos, o nico
interesse de Kemal era por matemtica e computadores, onde
invariavelmente tirava as melhores notas de toda a turma. Uma
das sucursais secundrias da escola era o clube de xadrez, e
Kemal dominava-o. Antes do acidente, gostava de futebol, mas
quando foi inscrever-se para o time da escola, o treinador olhou
para a manga vazia de Kemal e disse: "Lamento, no podemos
aproveitar voc." Disse isso com delicadeza, embora para o garoto tivesse sido um golpe arrasador
O inimigo nmero um de Kemal era Ricky Underwood. Na
hora do almoo, alguns dos alunos comiam no ptio coberto
em vez de na lanchonete. Ricky Underwood esperou para ver
onde Kemal ia almoar e juntou-se ento a ele.
- Escute, aqui, seu rfo. Quando  que sua madrasta m
vai mandar voc de volta ao lugar de onde veio?
Kemal ignorou-o.
- Estou falando com voc, sua aberrao. No acha mesmo que ela vai ficar com voc, acha? Todo mundo sabe por que
ela trouxe voc pra c, seu cara de camelo. Porque era uma famosa correspondente de guerra, e salvar um aleijado ia faz-la
parecer uma pessoa boazinha.
- Fukat! -gritou Kemal. Ilevantou-se e saltou para cima
de Underwood.
O primeiro golpe de Underwood atingiu a barriga de Kemal
e depois, com fora, o rosto. Kemal caiu, contorcendo-se de dor
Underwood disse:
- Toda vez que quiser mais  s me avisar E  melhor fazer isso rpido porque, pelo que eu soube, voc j  histria.
Kemal vivia em agonia de dvidas. No acreditou nas coisas que Ricky Underwood lhe dissera, no entanto... E se fossem
verdade? E se Dana me mandar mesmo de volta? Underwood tem
razo, pensou Kemal. Eu sou uma aberrao. Por que uma pessoa
to maravilhosa como Dana ia me querer?
Kemal achou que sua vida chegara ao fim quando os pais e as
irms foram mortos em Sarajevo. Fora mandado para a Instituio dos rfos nos arredores de Paris, o que passou a ser um
pesadelo.
s duas da tarde de todas as sextas-feiras, os meninos e
meninas faziam fila no orfanato, quando chegavam possveis pais
adotivos para avali-los e escolher um que levariam para casa.
Com a aproximao de toda sexta-feira, a excitao e a tenso
entre as crianas intensificavam-se a um nvel quase insuportvel. Tomavam banho, vestiam-se com aprumo e, enquanto
os adultos percorriam a fila, cada criana rezava intimamente
para ser escolhida.
Invariavelmente, quando os pais em potencial viam Kemal,
sussurravam:
- Veja, ele s tem um brao - e seguiam adiante.
Todas as sextas-feiras era a mesma coisa, mas Kemal continuava esperando, esperanoso, enquanto os adultos examinavam a fila de candidatos. Mas sempre escolhiam 
outras crianas.
Parado ali, ignorado, Kemal sentia-se tomado de humilhao.
Sempre ser outro, pensava, afligindo-se. Ningum me quer.
Desejava desesperadamente fazer parte de uma famlia.
Tentava tudo em que conseguia pensar para fazer com que isso
acontecesse. Numa sexta-feira, sorria com muita alegria para
os adultos, a fim de faz-los sentir que era um menino simptico e amistoso. Na seguinte, fingia-se ocupado com alguma coisa, mostrando-lhes que no ligava a mnima 
se fosse ou no
escolhido, eles  que seriam os felizardos se o tivessem. De outras vezes, olhava intensamente para eles, suplicando-lhes em
silncio que o levassem para casa. Mas, semana aps semana,
era sempre outra criana a escolhida e levada para lares maravilhosos e famlias felizes.
Como por milagre, Dana mudou tudo isso. Ela o encontrou
vivendo sem teto nas ruas de Sarajevo. Depois que foi embarcado de avio pela Cruz Vermelha para um orfanato nos arredores de Paris, ele lhe escreveu uma carta. 
Para seu espanto,
Dana telefonou para o orfanato e disse que queria que Kemal
fosse morar com ela nos Estados Unidos. Foi o momento mais
feliz da vida do garoto. Um sonho impossvel que se tornou realidade e que acabou sendo uma alegria ainda muito maior do
que at ento imaginara.
Sua vida mudou por completo. Ele agora agradecia que ningum o tivesse escolhido antes. No se sentia mais sozinho no
mundo. Algum se interessava por ele. Kemal amava Dana de
todo o corao e alma, mas no ntimo atligia-o o terrvel medo
que Ricky Underwood lhe infundira, de que algum dia ela
mudasse de idia e o mandasse de volta para o orfanato, para a
vida no inferno de que escapara. Ele tinha um sonho recorrente: via-se mais uma vez no asilo de rfos, e era sexta-feira. Uma
fila de adultos inspecionava as crianas, entre eles Dana. Ela
olhava para Kemal e dizia: Esse garoto medonho s tem um brao,
passava adiante e escolhia o menino a seu lado; Kemal acordava aos prantos.
Ele sabia que Dana detestava que se metesse em brigas na
escola e fazia tudo para evit-las, mas no podia suportar que
Ricky Underwood e seus amigos a insultassem. Assim que perceberam isso, passaram a intensificar os insultos a Dana e, em
conseqncia, tambm as brigas.
Underwood cumprimentava Kemal assim:
- E a, j arrumou a mala, camaro? No noticirio desta
manh, disseram que a megera da sua madrasta vai mandar voc
de volta para a Iugoslvia.
- Zbosti! - berrava Kemal.
E a luta comeava. Ele voltava para casa de olho roxo e com
hematomas, mas, quando Dana Lhe perguntava o que acontecera, no lhe dizia a verdade, pois o apavorava o que poderia
acontecer se exprimisse em palavras o que Ricky Underwood
dissera.
Agora,  espera de Dana no gabinete do diretor, Kemal pensava: Quando ela souber o que fiz desta vez, vai me mandar embora. Ficou ali sentado, o corao disparado.
Quando Dana entrou no gabinete de Thomas Fienry, viu o diretor andando de um lado para o outro na sala, com a fisionomia
sinistra. Kemal estava sentado numa cadeira do outro lado do
escritrio.
- Bom dia, Srta. Evans. Por favor, sente-se - disse ele.
Pegou ento uma grande faca de aougueiro na escrivaninha.
- Um dos professores tirou isto dele.
Dana girou e olhou para Kemal, furiosa.
- Por qu? - perguntou, zangada. - Por que trouxe isso
para a escola?
Kemal olhou para ela e disse, carrancudo:
- Porque eu no tinha um revlver
- Kemal!
Dana virou-se para o diretor
- Posso conversar com o senhor a ss, Sr Henry?
- Sim. - Ele olhou para Kemal, o queixo endurecido. Espere no corredor.
Kemal levantou-se, deu uma ltima olhada na faca e saiu.
Dana comeou:
- Sr. Henry, Kemal tem doze anos. Viveu a maior parte
desses anos adormecendo com o som de bombas explodindo nos
ouvidos, as mesmas bombas que mataram a me, o pai e a irm
dele. Uma delas lhe arrancou o brao. Quando o encontrei em
Sarajevo, ele morava numa caixa de papelo num terreno baldio. Com centenas de outros meninos e meninas sem lar, vivendo ali como animais. - Lembrava-se Dana, tentando
manter a voz firme. - As bombas pararam, mas os meninos e
meninas continuaram sem lar e sem esperana. A nica maneira que tm para se defender dos inimigos  uma faca, uma
pedra ou uma arma, se tiverem muita sorte de pr as mos numa.
- Cerrou os olhos por um instante e respirou fundo. - Essas
crianas vivem apavoradas. Kemal vive apavorado, mas  um
garoto decente. S precisa aprender que est seguro aqui. Que
nenhum de ns  seu inimigo. Prometo-lhe que isso no se repetir.
Houve um longo silncio. Thomas Henry ento disse:
- Se algum dia eu precisar de advogado, Srta. Evans, gostaria que me defendesse.
Ela conseguiu dar um sorriso de alvio.
- Prometo.
Thomas Henry exavou um suspiro.
- Est bem. Converse com Kemal. Se ele fizer mais uma
vez alguma coisa semelhante, receio que terei de...
- Vou falar com ele. Obrigada, Sr Henry
Kemal esperava no corredor
- Vamos para casa - disse Dana, rspida.
- Eles vo ficar com a minha faca?
Ela no se deu o trabalho de responder.
No trajeto para casa, Kemal disse:
- Me desculpe por ter-Lhe causado esse problema, Dana.
- Oh, por nada, bobagem. S porque eles decidiram no
o expulsar da escola? Escute, Kemal...
- Tudo bem. Nada mais de facas.
Quando chegaram ao apartamento, ela disse:
- Tenho de voltar ao estdio, Kemal, mas esta noite vamos ter uma longa conversa.
Ao terminar a transmisso do noticirio da noite, Jeff virou-se
para Dana:
- Voc parece preocupada, meu bem.
- E estou.  o Kemal. No sei o que fazer com ele, Jeff.
Tive de ir  escola conversar com o diretor esta manh, e mais
duas governantas se despediram por causa dele.
- Ele  um garoto maravilhoso - disse Jeff. - S precisa
de um perodo de aquecimento.
- Talvez. Jeff?
- Sim?
- Espero no ter cometido um terrvel erro trazendo Kemal
pra c.
Quando Dana retornou ao apartamento, encontrou Kemal 
espera.
- Sente-se - ordenou. - Precisamos conversar. Voc
precisa comear a obedecer s ordens, e essas brigas na escola
tm de acabar. Sei que os outros garotos esto tornando as coisas difceis para voc, Kemal, mas precisa chegar a um entendimento com eles. Se continuar se metendo 
em brigas, o Sr Henry
vai expuls-lo da escola.
- No me importa.
- Tem de se importar. Quero que voc tenha um futuro
maravilhoso, e isso no pode acontecer sem uma boa formao
escolar. O Sr Henry est lhe dando uma nova oportunidade,
mas...
- Ele que se foda.
- Kemal! - Sem pensar, Dana deu-lhe um tapa no rosto.
Arrependeu-se no mesmo instante.
Ele olhou fixo para ela, uma expresso de descrena no rosto, correu para o escritrio e bateu a porta.
O telefone tocou. Dana atendeu. Era Jeff.
- Dana...
- Querido, eu... eu no posso falar no momento. Estou
muito perturbada.
- Que foi que houve?
- Kemal. Ele  impossvel!
- Dana...
- Sim?
- Ponha-se no lugar dele.
- Como?
- Pense nisso. Lamento, estou entrando no ar. Falamos
depois. - Desligou.
Ponha-se no lugar dele? Isso no faz o menor sentido, pensou
Dana. Como posso saber o que Kemal sente? No sou rf de guerra de doze anos com um s brao, nem sofri o que ele sofreu. Dana
ficou ali sentada, durante um longo tempo, pensando. Ponha-se no lugar dele. Levantou-se, foi para o quarto de dormir, fechou a porta e abriu a do armrio. Antes 
da chegada de Kemal,
Jeff passava vrias noites por semana no apartamento dela e
tinha deixado algumas roupas ali. No armrio havia calas,
camisas, gravatas, um suter e um palet.
Ela pegou algumas roupas e ps na cama. Foi at a gaveta
da cmoda e escolheu um calo e um par de meias de Jeff.
Depois despiu-se completamente. Pegou o calo de Jeff com a
mo esquerda e comeou a vesti-lo. Desequilibrou-se e caiu.
Foram necessrias mais duas tentativas at conseguir vesti-lo.
Em seguida, pegou uma das camisas. S com a mo esquerda,
levou trs frustrantes minutos para p-la e aboto-la. Precisou
sentar-se na cama para enfiar a cala, e foi difcil puxar o zper
Levou mais dois minutos para vestir o suter de Jeff.
Quando acabou afinal de vestir-se, sentou-se para recuperar o flego. Era aquilo que Kemal tinha de agentar todas as
manhs. E era s o comeo. Ainda precisava tomar banho, escovar os dentes e pentear os cabelos. E isso agora. E antes? Vivendo no horror da guerra, vendo a me, 
o pai, a irm e os
amigos assassinados.
Jeff tem razo, ela pensou. Estou esperando muito dele e cedo
demais. Kemal precisa de tempo para se ajustar. Jamais o abandonarei. Minha me abandonou meu pai e nunca a perdoarei por isso.
Devia existir um oitavo pecado mortal: No abandonareis aqueles
que vos amam.
Devagar, enquanto tirava as roupas de Jeff e punha as suas,
Dana pensou nos ttulos das msicas que Kemal ouvia repetidas vezes no aparelho de CD. "No quero perd-la", "Preciso de
voc esta noite", "Contanto que me ame", "Eu s quero ficar com
voc", "Preciso de amor".
Todas as letras falavam de solido e carncia.
Dana pegou o boletim de Kemal. Era verdade que ele ia mal
na maioria das matrias, mas tinha um "A" em matemtica. O
"A" que  importante, pensou Dana.  onde ele se supera. A  que
tem um futuro. vamos trabalhar nos outros conceitos.
Quando ela abriu a porta do escritrio, Kemal estava deitado na cama, os olhos muito cerrados, o rosto plido coberto de
lgrimas. Ela olhou-o por um momento, depois curvou-se e
beijou-lhe a face.
- Lamento tanto, Kemal - sussurrou ela. - Me perdoe.
Amanh ser um dia melhor.
Cedo na manh seguinte, Dana levou Kemal a um famoso cirurgio-ortopedista, o Dr William Wilcox. Aps examin-lo, o
Dr Wilcox conversou com Dana a ss.
- Srta. Evans, muni-lo de uma prtese custaria vinte mil
dlares e...
Mal houve uma pausa.
- Estou disposta a pagar
- Bem, h um problema em relao a isso - continuou o
Dr Wilcox. - Kemal s tem doze anos. Seu corpo no vai parar de crescer at os dezessete ou dezoito. O brao poderia crescer mais que a prtese no espao de poucos 
meses. Receio que
no seja prtico.
Dana teve a sensao de que afundava.
- Entendo. Obrigada, doutor
J na rua, tranqilizou Kemal.
- No se preocupe, querido. A gente vai encontrar um
meio de resolver isso.
Deixou Kemal na escola e foi para o estdio. A uns cinco
quarteires, o celular tocou. Ela pegou-o.
- Al?
-  Matt. Vai haver uma coletiva sobre o assassinato de
Winthrop ao meio-dia na sede da polcia. Quero que a cubra.
Estou mandando uma equipe de cmera. A polcia est com o
rabo preso na ratoeira. A matria est crescendo a cada minuto e os policiais no tm a mnima pista.
- Estarei l, Matt.

O chefe de polcia, Dan Burnett, falava ao telefone em seu escritrio quando a secretria lhe avisou:
- O prefeito est na linha dois.
Burnett respondeu, irritado:
- Diga a ele que estou falando com o governador na linha
um. - E voltou para o telefone. - Sim, governador. Sei disso...
Sim, senhor Acho que... Tenho certeza de que podemos... Logo
que tivermos... Certo. At logo, senhor - Bateu o telefone.
- A secretria da assessoria de imprensa da Casa Branca
na linha quatro - avisou-lhe a secretria.
Toda a manh transcorreu assim.
Ao meio-dia, na sala de conferncia do Centro Municipal,
na Indiana Avenue, 300, centro de Washington, apinhava-se
o pessoal da mdia. O chefe de polcia Burnett entrou e dirigiu-se para a frente da sala.
- Vamos fazer silncio, por favor - Esperou at que todos
se calassem. -Antes de ouvir suas perguntas, tenho uma declarao a fazer O brutal assassinato de Gary Winthrop  uma grande
perda, no apenas para esta comunidade, mas para o mundo, e
nossa investigao continuar at prendermos os responsveis por
esse crime hediondo. Podem fazer suas perguntas.
Um reprter levantou-se.
- Chefe Bumett, a polcia tem alguma pista?
- Por volta das trs da manh, uma testemunha viu dois
homens carregando uma caminhonete branca na entrada da
garagem da casa de Gary Winthrop. Os movimentos deles lhe
pareceram suspeitos, e a testemunha anotou o nmero da placa. Era de um caminho roubado.
- A polcia sabe o que foi tirado da casa?
- Desapareceu uma dezena de quadros valiosos.
- Alm dos quadros, mais alguma coisa foi roubada?
- No.
- E dinheiro, jias?
- As jias e o dinheiro ficaram intocados. Os ladres s
estavam atrs das pinturas.
- Chefe Burnett, a casa no tinha um sistema de alarme?
E se tinha, estava ligado?
- Tinha. Segundo o mordomo, ficava sempre ligado 
noite. Os assaltantes descobriram um meio de desativ-lo. Ainda no sabemos ao certo como.
- Como os assaltantes entraram na casa?
O chefe Burnett hesitou.
-  uma pergunta interessante. No h sinais de arrombamento. Ainda no temos a resposta.
- Poderia ter sido um trabalho de gente da casa?
- Achamos que no. Os empregados de Gary Winthrop
trabalhavam para ele h muitos anos.
- Gary Winthrop estava sozinho em casa?
- Pelo que sabemos, sim. Os empregados estavam fora.
Dana perguntou:
- O senhor tem uma relao das pinturas roubadas?
- Temos, sim. So todas famosas. J mandamos circular
uma relao das obras entre os museus, negociantes de arte e
colecionadores. No instante em que aparecer uma dessas pinturas, o caso ser resolvido.
Dana sentou-se, aturdida. Os assassinos tambm devem saber disso, portanto no ousariam vender os quadros. Ento, qual o
sentido de roub-los? E de cometer um assassinato? E por que no
levaram o dinheiro, nem as jias? Alguma coisa no est se encaixando bem nessa histria.
Os servios religiosos fnebres para Gary Winthrop realizaram-se na Catedral Nacional, a sexta maior do mundo. As Wisconsin
e Massachusetts Avenues foram fechadas ao trfego. Homens
do Servio Secreto e da polcia de Washington espalhavam-se
em peso pelo exterior da igreja. Dentro,  espera do incio do
servio, achavam-se o vice-presidente dos Estados Unidos, uns
dez senadores e membros do Congresso, um juiz do Supremo
Tribunal, dois oficiais de gabinete e uma hoste de dignitrios
do mundo inteiro. O barulho dos helicpteros da polcia e da
imprensa enchia o cu. Na rua, centenas de espectadores chegavam para oferecer seus respeitos ou dar uma olhada nas celebridades presentes. Pessoas prestavam homenagem 
no apenas
a Gary, mas a toda a malfadada dinastia Winthrop.
Dana cobria o funeral com duas equipes de cmera. Dentro, a catedral silenciou.
- Deus se move por caminhos misteriosos - entoou o
sacerdote. - Os Winthrops passaram suas vidas construindo
esperanas. Doaram bilhes de dlares a escolas, igrejas e aos
destitudos e famintos. Mas, igualmente importante, deram com
desprendimento seu tempo e talento. Gary Winthrop continuou
a grande tradio da famlia. O motivo desta famlia, com todas as suas realizaes e generosidade, ter-nos sido arrancada
to cruelmente est alm do nosso conhecimento. Em certo aspecto, eles no se foram de fato, pois seu legado viver para sempre. E o que fizeram para ns sempre 
nos orgulhar...
Deus no devia deixar pessoas assim terem esses tipos de mortes
horrveis, pensou Dana com tristeza.
Era a me de Dana ao telefone:
- Meus amigos e eu assistimos  sua cobertura do funeral,
Dana. Por um momento ali, quando falava da famlia Winthrop,
achei que voc ia chorar
- Eu tambm, me. Eu tambm.
Dana teve dificuldade para pegar no sono naquela noite. Quando acabou adormecendo, seus sonhos foram um furioso caleidoscpio de incndios, acidentes de carro e 
disparos de arma
de fogo. No meio da noite, acordou de repente e sentou-se.
Cinco membros da mesma famlia mortos em menos de um ano?
Quais as possibilidades?

QuaTRO

- Que est tentando me dizer, Dana?
- Matt, estou dizendo que cinco mortes violentas numa
mesma famlia, em menos de um ano,  coincidncia demais.
- Dana, se no a conhecesse melhor, eu chamaria um psiquiatra e lhe diria que Chicken Little se encontra no meu escritrio dizendo que o cu est caindo. Acha que 
estamos tratando
de algum tipo de conspirao? Quem est por tras dela? Fidel Castro? A CIA? Oliver Stone? Pelo amor de Deus, no sabe que toda
vez que algum importante  assassinado h uma centena de teorias
da conspirao? Um cara veio aqui na semana passada e disse que
podia provar que Lyndon Johnson assassinou Abraham Lincoln.
Washington est sempre se afogando em teorias da conspirao.
- Matt, estamos nos preparando para fazer Linha do Crime. Quer comear com um assunto arrebatador? Bem, se eu
estiver certa, podia ser esse.
Matt Baker ficou ali sentado por um momento, examinando-a.
Chicken Little - um grande pessimista, especialmente aquele que alerta sobre um
desastre iminente (personagem de uma histria infantil que, ao ser acertado por uma
noz que cai da rvore, acredita que o cu est caindo) -The American Hericage Diccionary.
(N. do E.)
- Est perdendo seu tempo, Dana.
- Obrigada, Matt.
O arquivo das Washington Tribune Enterprises ficava no poro do prdio, cheio de milhares de fitas de programas de notcias anteriores, todas catalogadas com muito 
capricho.
Sentada atrs de sua mesa, Laura Lee Hill, uma atraente
loura de seus quarenta anos, catalogava fitas. Ergueu os olhos
quando Dana entrou.
- Oi, Dana. Vi sua apresentao do funeral. Acho que fez
um belo trabalho.
- Obrigada.
- Mas que tragdia terrvel, no?
- Terrvel - concordou Dana.
- A gente simplesmente nunca sabe - disse Laura LeeHill, sombria. -O... que posso fazer por voc?
- Quero ver algumas fitas da famlia Winthrop.
- Alguma coisa em particular?
- No. S quero ter uma sensao, sentir como era a famlia.
- Posso Lhe dizer como eles eram. Eram santos.
-  isso o que no paro de ouvir - disse Dana.
Laura Lee Hill levantou-se.
- Espero que tenha muito tempo, meu bem. Pois h toneladas de material sobre eles.
- timo. No estou com nenhuma pressa.
Laura Lee Hill levou Dana a uma mesa com um monitor de
televiso.
- Volto j - disse. Retornou cinco minutos depois com
os braos cheios de fitas. - Pode comear com estas. H mais
vindo a.
Dana olhou a imensa pilha de fitas e pensou: Talvez eu seja
Chicken Little. Mas se estiver certa...
Introduziu uma fita, e a imagem de um homem de beleza
estonteante iluminou-se de repente na tela. Suas feies eram
fortes e esculpidas. Tinha uma juba de cabelos negros, olhos
azuis cndidos e um queixo protuberante. A seu lado, um garoto. O locutor disse:
- Taylor Winthrop acrescentou mais um campo de esportes aos que j criou para crianas carentes. Seu filho Paul est
aqui com o pai, pronto para juntar-se  diverso. Este  o dcimo
de uma srie de campos semelhantes que Taylor Winthrop tem
construdo. Planeja construir no mnimo mais uma dezena.
Dana apertou um boto e a cena mudou. Um Taylor Winthrop com aparncia mais velha e fios grisalhos nos cabelos cumprimentava um grupo de dignitrios.
- ...acabou de confirmar sua nomeao como consultor
da OTAN, Organizao do Tratado do Atlntico Norte. Taylor
Winthrop partir para Bruxelas nas prximas semanas com a
misso de...
Dana mudou a fita. A cena era o jardim da Casa Branca.
Taylor Winthrop ao lado do presidente, que dizia:
- ...e eu o nomeei para chefiar a FRA, Agncia Federal de
Pesquisa. A agncia dedica-se a ajudar pases em desenvolvimento
em todo o mundo, e no consigo pensar em ningum mais bem
qualificado que Taylor Winthrop para presidir a organizao...
O monitor tremeluziu e passou para a cena seguinte, o
Aeroporto Leonardo Da Vinci em Roma, onde Taylor Winthrop
desembarcava de um avio.
- Vrios chefes de Estado aqui se encontram para saudar
Taylor Winthrop, que acaba de chegar, com a incumbncia de
negociar acordos comerciais entre a Itlia e os Estados Unidos.
O fato de o Sr Winthrop ter sido escolhido pelo presidente para
conduzir essas negociaes mostra o quanto so importantes...
O homem tinha feito de tudo, pensou Dana.
Ela mudou as fitas. Taylor Winthrop no palcio presidencial em Paris, trocando um aperto de mo com o presidente da
Frana.
- Um acordo comercial com a Frana que marcar poca
acabou de ser concludo por Taylor Winthrop.
Outra fita. A mulher de Taylor Winthrop, Madeline, diante de um conglomerado de prdios, com um grupo de meninos
e meninas.
- Hoje, Madeline Winthrop naugurou um novo centro
de assistncia infantil a crianas vtimas de abuso e...
Havia uma fita dos prprios filhos dos Winthrops brincando na fazenda da famlia, em Manchester, Vermont.
Dana ps a fita seguinte. Taylor Winthrop na Casa Branca.
Ao fundo, a mulher, os dois belos filhos, Gary e Paul, e a linda
filha, Julie. O presidente condecorava Taylor Winthrop com
uma Medalha da Liberdade.
- ...e por sua abnegada devoo a este pas e suas maravilhosas realizaes, tenho o prazer de condecorar Taylor Winthrop com o mais alto prmio civil que podemos 
conceder .. a
Medalha da Liberdade.
Uma fita de Julie esquiando...
Gary inaugurando uma fundao para ajudar jovens artistas plsticos...
Mais uma vez o Salo Oval. Do lado de fora, a imprensa em
peso. Ao lado do presidente, Taylor Winthrop, grisalho, e a
mulher.
- Acabei de nomear Taylor Winthrop nosso novo embaixador na Rssia. Sei que todos vocs j conhecem os inmeros
servios prestados ao pas por Winthrop e muito me alegra que
ele tenha aceitado esse cargo em vez de passar seus dias jogando golfe. - A imprensa riu.
Taylor Winthrop retrucou com uma piada.
- Porque ainda no me viu jogando golfe, Sr Presidente.
Mais risos...
E depois vinha a srie de desastres.
Dana introduziu uma nova fita. A cena externa mostrava
uma casa incendiada em Aspen, no Colorado. Uma reprter
apontava para a casa destruda.
- O chefe da polcia de Aspen confirmou que o embaixador Winthrop e sua mulher Madeline morreram nesse terrvel
incndio. O corpo de bombeiros foi avisado nas primeiras horas da manh e chegou em quinze minutos, embora tarde demais para salv-los. Segundo o chefe Nagel, o 
incndio foi
causado por um problema eltrico. O embaixador e a Sra.
Winthrop eram conhecidos mundialmente por sua filantropia
e dedicao a servio do governo.
Dana ps outra fita. A cena era a Grand Corniche, na
Riviera Francesa. Uma reprter disse:
- Aqui fica a curva onde o carro de Paul Winthrop derrapou, saiu da estrada e despencou pela encosta da montanha.
Segundo o gabinete do prefeito, ele foi morto instantaneamente
pelo impacto. No havia passageiros. A polcia est investigando a causa do acidente. A terrvel ironia  que, apenas dois meses
atrs, a me e o pai de Paul Winthrop morreram num incndio
no chal da famlia, em Aspen, no Colorado.
Dana pegou outra fita. Uma pista de esqui numa montanha em Juneau, no Alasca. Um reprter coberto de agasalhos:
- ...e esta  a cena do trgico acidente de esqui que ocorreu ontem  noite. As autoridades no sabem ao certo por que
Julie Winthrop, uma esquiadora campe, esquiava sozinha 
noite nessa pista em particular que estava fechada, mas esto
investigando. Em setembro, apenas seis meses atrs, Paul, irmo de Julie, morreu num acidente de carro na Frana e, em
julho do mesmo ano, seus pais, o embaixador Taylor Winthrop
e a mulher morreram num incndio. O presidente enviou condolncias.
A fita seguinte. A casa de Gary Winthrop na seo noroeste de Washington, D. C. Reprteres enxameavam em volta da
propriedade. Diante da fachada, uma reprter dizia:
- Numa trgica e inacreditvel reviravolta de acontecimentos, Gary Winthrop, o ltimo remanescente da amada famlia Winthrop, foi baleado e morto por ladres. Hoje 
de manh
cedo, um guarda de segurana percebeu que a luz do alarme
estava desligada, entrou na casa e encontrou o corpo do Sr.
Winthrop. Ele foi atingido por dois disparos. Aparentemente
os ladres procuravam pinturas valiosas e foram interrompidos.
Gary Winthrop foi o quinto e ltimo membro da famlia a sofrer morte violenta em um ano.
Dana desligou o monitor de televiso e ficou ali sentada por
um longo tempo. Quem ia querer eliminar uma famlia maravilhosa como aquela? Quem? E seria dinheiro o motivo?
Dana marcou uma entrevista com o senador Perry Leff, no novo
prdio de escritrios do Senado. Leff era um homem srio e
entusiasta, de cinqenta e poucos anos.
Levantou-se, quando Dana foi conduzida ao seu escritrio.
- Que posso fazer por voc, Srta. Evans?
- Senador, pelo que sei, o senhor trabalhou intimamente
com Taylor Winthrop, no?
- Sim. Fomos nomeados pelo presidente para servir juntos em vrios comits.
- Conheo a imagem pblica dele, senador Leff; mas como
ele era como pessoa?
O senador Leff examinou Dana por um momento.
- Muito me alegra lhe dizer. Taylor Winthrop foi um dos
melhores homens que j conheci na vida. O mais admirvel nele
era a maneira como se relacionava com as pessoas. Importava-se
mesmo com elas. Desviou-se de seu caminho para tornar este um
mundo melhor. Sempre sentirei sua falta, e o que aconteceu com
sua famlia  simplesmente terrvel demais. s em pensar
Dana conversava com Nancy Patchin, uma das secretrias de
Taylor Winthrop, de seus sessenta anos, com um rosto enrugado e olhos tristes.
- Trabalhou muito tempo para o Sr Winthrop?
- Quinze anos.
- Nesse perodo, imagino que passou a conhecer bem o
Sr Winthrop.
- Sim, claro.
- Estou tentando obter uma imagem do tipo de homem
que ele era na convivncia diria. Era...
Nancy Patchin interrompeu-a.
- Posso lhe dizer exatamente que tipo de homem ele era, Srta.
Evans. Quando descobrimos que meu filho tinha a doena de Iou
Gehrig, Taylor Winthrop levou-o aos seus prprios mdicos e pagou todas as contas. Quando meu filho morreu, o Sr Winthrop
arcou com as despesas do enterro e me mandou  Europa para
me recuperar - Os olhos encheram-se de lgrimas. - Ele foi o
cavalheiro mais maravilhoso, mais generoso, que j conheci.
Dana conseguiu marcar uma entrevista com o general Victor
Booster, diretor da FRA, a Agncia Federal de Pesquisa que
Taylor presidira. A princpio, Booster se recusara a falar com
ela, mas quando lhe disse sobre quem queria conversar concordou em receb-la.
No meio da manh, Dana pegou o carro e foi dirigindo para
a Agncia Federal de Pesquisa, perto de Fort Mead, Maryland.
Os prdios da sede da agncia ocupavam 32 hectares fortemente
guardados. No se via sinal algum da floresta de discos de satlite ocultos atrs da rea densamente arborizada.
Dana seguiu por uma cerca anticiclone de 2,50m de altura,
encimada por arame farpado. Deu seu nome ao chegar, mostrou
a carteira de motorista a um guarda armado na guarita e recebeu
permisso para entrar. Um minuto depois, aproximou-se de um
porto eletrificado fechado, com uma cmera de vigilncia. Disse mais uma vez seu nome e o porto abriu-se automaticamente.
Seguiu pela entrada de carros at o enorme prdio branco da diretoria.
Um homem  paisana recebeu-a do lado de fora.
- Eu a levarei ao escritrio do general Booster, Srta. Evans.
Eles tomaram um elevador, subiram cinco andares e atravessaram um longo corredor at um conjunto de escritrios no
fim do pavimento.
Entraram num grande escritrio de recepo com duas escrivaninhas de secretrias. Uma delas disse:
- O general est  espera, Srta. Evans. Queira entrar, por
favor -Apertou um boto e, com um estalido, a porta de acesso
ao escritrio interno abriu-se.
Dana viu-se num escritrio espaoso, os tetos e as paredes
com pesado revestimento  prova de som. Foi recebida por um
homem alto, magro, atraente, de seus quarenta anos. Ele estendeu a mo para Dana e disse, cordial:
- Sou o major Jack Stone, ajudante-de-ordens do general Booster - Indicou o homem sentado atrs de uma escrivaninha. - Este  o general Booster
Victor Booster era um negro com um rosto talhado a cinzel
e olhos duros de obsidiana. A cabea raspada brilhava sob as
luzes do teto.
- Sente-se - disse ele. Tinha a voz grossa e grave.
Dana sentou-se.
- Obrigada por me receber, general.
- Voc disse que era sobre Taylor Winthrop?
- Sim. Eu queria...
- Vai fazer uma matria sobre ele, Srta. Evans?
- Bem, eu...
Booster endureceu a voz.
- Vocs, porras de jornalistas, no podem deixar os mortos em paz? So todos um bando de coiotes, que vivem investigando e denunciando corrupo poltica e administrativa,
roendo cadveres...
Dana ficou sentada ali, absorvendo o choque.
Jack Stone parecia sem graa.
Dana controvou seu temperamento.
- General Booster, garanto-Lhe que no estou interessada em investigar, nem denunciar alguma corrupo. Conheo
a lenda de Taylor Winthrop. Estou tentando obter uma imagem do homem. Ficarei muito grata por qualquer coisa que possa
me dizer
O general Booster curvou-se  frente.
- No sei de que diabo voc est atrs, mas posso lhe dizer uma coisa. A lenda era o homem. Quando Taylor Winthrop
presidiu a FRA, trabalhei sob sua chefia. Foi o melhor diretor
que essa organizao j teve. Todo mundo o admirava. O que
aconteceu a ele e  sua famlia  uma tragdia que no consigo
nem sequer compreender - A fisionomia ficou carregada. Com toda franqueza, no gosto da imprensa, Srta. Evans. Acho
que seu pessoal passou a perder o controle. Assisti  cobertura
que fez em Sarajevo. Suas transmisses lacrimosas e floreadas
no nos ajudaram em nada.
Dana tentava com esforo controlar a raiva.
- Eu no estava l para ajud-lo, general. Estava l para
noticiar o que acontecia com a populao civil inocente...
- Seja o que for Para sua informao, Taylor Winthrop
foi o melhor e maior estadista que este pas j teve. - Cravou
os olhos nos dela. - Se pretende esfrangalhar a memria dele,
vai arranjar um monte de inimigos. Estou Lhe avisando para ficar longe disso. At logo, Srta. Evans.
Dana fitou-o por um momento e levantou-se em seguida.
- Muito obrigada, general. - Ela saiu do escritrio.
Jack Stone apressou-se atrs dela.
- Vou acompanh-la para mostrar a sada.
No corredor, Dana respirou fundo e perguntou, furiosa:
- Ele  sempre assim?
Jack Stone deu um suspiro.
- Peo desculpas por ele. s vezes,  um pouco bruto. Ele
fala por falar, no sente nada daquilo.
-  mesmo? - perguntou Dana, firme. - Tive a sensao de que sentia.
- De qualquer modo, do fundo do corao, me desculpe
- disse Jack Stone. Virou-se, comeando a afastar-se.
Dana tocou-lhe a manga.
- Espere. Eu gostaria de conversar com voc.  meio-dia.
Poderamos almoar em algum lugar?
Jack Stone deu uma olhada na porta do general.
- Est bem. No restaurante Sholl's Colonial, na rua K, em
uma hora? 
- timo. Obrigada.
- No me agradea cedo demais, Srta. Evans.
Dana esperava-o quando ele entrou no self service semideserto.
Jack Stone parou na porta por um momento, certificando-se
de que no havia ningum conhecido dentro, depois juntou-se
a Dana na mesa.
- O general Booster me esfolaria vivo se soubesse que
estou conversando com voc. Ele  um excelente homem. Seu
trabalho  duro, sensvel, e ele  muito, muito bom mesmo no
que faz. - Hesitou. - Receio, porm, que no goste muito da
imprensa.
- Deu para perceber - disse Dana, forando um sorriso.
- Tenho de deixar uma coisa bem clara, Srta. Evans. Esta
conversa  completamente em carter no oficial.
- Entendo.
Eles pegaram bandejas, escolheram a comida e serviram-se.
Quando voltaram a se sentar, Jack Stone explicou:
- No quero que tenha uma impresso errada da nossa
organizao. Ns somos os mocinhos. Por isso  que entramos
nela. para comear Estamos trabalhando para ajudar os pases
subdesenvolvidos.
- Aprecio isso - disse Dana.
- Que posso lhe dizer sobre Taylor Winthrop?
- Tudo que consegui at agora so histrias de santidade.
O homem devia ter alguns defeitos.
- E tinha - admitiu Jack Stone. - Deixe-me Lhe contar primeiro as coisas boas. Mais que qualquer outro homem
que conheci, Taylor Winthrop se preocupava com as pessoas.
- Fez uma pausa. - Quer dizer, se preocupava mesmo. Prestava ateno nos nascimentos e casamentos, e todo mundo
que trabalhava para ele o adorava. Tinha uma mente perspicaz, incisiva, e era um solucionador de problemas. E embora
se envolvesse muito em tudo que fazia, no ntimo era um homem de famlia. Adorava a mulher e os filhos. - Interrompeu-se.
- Qual a parte ruim? - perguntou Dana.
Jack Stone disse, relutante:
- Taylor Winthrop era um m pra mulheres. Tambm
carismtico, bonito, rico e poderoso. As mulheres achavam
difcil resistir - Continuou: - Por isso, de vez em quando,
Taylor .. dava um escorrego. Tinha alguns casos amorosos, mas
posso lhe garantir que nenhum deles era srio, e ele os mantinha com muita discrio. Jamais faria nada que pudesse magoar a famlia.
- Major Stone, pode imaginar se algum teria tido um
motivo para matar Taylor Winthrop e sua famlia?
Jack Stone largou o garfo.
- Como?
- Algum com esse perfil to elevado deve ter feito alguns
inimigos ao longo da trajetria.
- Srta. Evans... est insinuando que os Winthrops foram
assassinados?
- S estou perguntando - disse Dana.
Jack Stone pensou por um momento. Depois balanou a
cabea.
- No -disse. - No faz sentido. Taylor Winthrop nunca feriu ningum na vida. E se voc falasse com qualquer um
de seus amigos ou scios, no faria sequer essa pergunta.
- Deixe-me lhe dizer o que soube at agora - disse Dana.
- Taylor Winthrop era...
Jack Stone ergueu a mo.
- Srta. Evans, quanto menos eu souber, melhor. Estou
tentando ficar fora do circuito. Posso ajud-la melhor assim, se
entende o que quero dizer
Dana fitou-o, aturdida.
- Acho que no, para falar a verdade.
- Honestamente, pelo seu bem, espero que abandone toda
essa matria. Se no o fizer, seja cuidadosa. - Levantou-se e
desapareceu do restaurante.
Ela ficou ali sentada, pensando no que acabara de ouvir.
Ento Taylor Winthrop no tinha inimigos. Talvez eu esteja cercando o assunto pelo ngulo errado. E se no foi ele quem fez um inimigo mortal? E se foi um dos filhos? 
Ou a mulher?
Dana contou a Jeff sobre o almoo com o major Stone.
- Interessante. E agora?
- Quero falar com algumas das pessoas que conheceram
os filhos. Paul Winthrop era noivo de uma moa chamada
Harriet Berk. Estavam juntos h quase um ano.
- Lembro-me de ter lido sobre os dois - disse Jeff: Hesitou. - Querida, voc sabe que lhe dou cem por cento de apoio...
- Claro, Jeff.
- Mas e se estiver enganada? Acidentes s vezes acontecem. Quanto tempo mais vai levar nisso?
- No muito mais - prometeu Dana. - Vou fazer s mais
algumas sondagens.
Harriet Berk morava num elegante apartamento duplex na parte
noroeste de Washington. Era uma loura magra de trinta e poucos anos, com um sorriso nervoso e cativante.
- Obrigada por me receber - disse Dana.
- Ainda no sei exatamente por que a recebo, Srta. Evans.
Disse que era alguma coisa relacionada a Paul.
- Sim. - Dana escolheu as palavras com cuidado. No quero me intrometer em sua vida pessoal, mas quando
voc e Paul eram noivos e iam se casar, tenho certeza que,
talvez mais que ningum, voc fosse a pessoa que o conhecia
melhor.
- Gosto de imaginar que sim.
- Eu adoraria saber um pouco mais sobre ele, como Paul
era realmente.
Harriet Berk ficou calada por um momento. Quando falou,
a voz saiu tranqila.
- Paul era diferente de todos os outros homens que j
conheci. Tinha um grande entusiasmo pela vida. Era gentil e
pensava muito nos outros. s vezes, era muito engraado. No
se levava muito a srio. Era uma grande diverso t-lo por perto. Planejvamos nos casar em outubro. - Ela parou. - Quando Paul morreu no acidente, eu... eu senti 
que minha vida tinha
acabado. - Olhou para Dana e disse, em voz baixa: - Continuo me sentindo assim.
- Lamento muitssimo - disse Dana. - Detesto ter de
pression-la, mas sabe se ele tinha algum inimigo, algum que
tivesse um motivo para assassin-lo?
Harriet Berk olhou para ela e os olhos encheram-se de lgrimas.
- Assassinar Paul? - perguntou com a voz chocada. Se voc o tivesse conhecido, no teria sequer feito esta pergunta.
A conversa seguinte de Dana foi com Steve Rexford, o mordomo
que trabalhara para Julie Winthrop. Era um ingls de meia-idade
com aparncia elegante.
- Como posso ajud-la, Srta. Evans?
- Eu queria lhe perguntar sobre Julie Winthrop.
- Pois no, senhorita.
- Quanto tempo trabalhou para ela?
- Quatro anos e nove meses.
- Como era trabalhar para ela, como patroa?
Ele sorriu, lembrando-se.
- Ela era uma dama extremamente agradvel, linda, em
todos os sentidos. Eu... no pude acreditar quando ouvi a notcia do seu acidente.
- Julie Winthrop tinha algum inimigo?
Ele franziu as sobrancelhas.
- Como? No entendi.
- A Srta. Winthrop estava envolvida com algum a quem
pudesse ter .. dado um fora? Ou algum que pudesse querer ferila, ou  sua famlia?
Steve Rexford balanou a cabea, devagar
- A Srta. Julie no era esse tipo de pessoa. Jamais poderia
magoar algum. No. Era muito generosa com seu tempo e sua
sade. Todo mundo a adorava.
Dana examinou-o por um momento. Ele parecia sincero.
Todos pareciam sinceros. Que diabo estou fazendo? Sinto-me como
Dana Quixote. Sei que no h moinhos de vento.
O encontro seguinte de Dana foi com Morgan Ormond, diretor do Museu de Arte de Georgetown.
- Queria me perguntar sobre Gary Winthrop?
- Sim. Imaginei...
- A morte dele foi uma terrvel perda. Nosso pas perdeu
seu maior patrono das artes.
- Sr Ormond, h muita competio no mundo das artes?
- Competio?
- Acontece s vezes, quando vrias pessoas esto interessadas na mesma obra de arte e entram em...
- Claro. Mas nunca com o Sr. Winthrop. Ele tinha uma
coleo particular fabulosa, mas ao mesmo tempo era muito
generoso com os museus. No com este, em especial, mas com
outros em todo o mundo. Sua ambio era tornar a arte acessvel a todos.
- Conheceu algum inimigo que ele...
- Gary Winthrop? Nunca, nunca, nunca.
A ltima entrevista de Dana foi com Rosalind Lopez, que trabalhara quinze anos como criada pessoal de Madeline Winthrop.
Agora ajudava na administrao de uma empresa dela e do
marido que fornecia refeies congeladas.
- Obrigada por me receber, Srta. Lopez - disse Dana. Gostaria de conversar sobre Madeline Winthrop.
- Aquela pobre senhora. Ela... ela foi a pessoa mais bondosa que j conheci.
Est comeando a parecer um disco arranhado, pensou
Dana.
- Foi simplesmente terrvel o modo como ela morreu.
- Foi, sim - concordou Dana. - Estava com ela h um
longo tempo, no?
- Oh, sim, senhora.
- Sabe de alguma coisa que ela poderia ter feito que
talvez tivesse ofendido algum ou criado algum inimigo da
famlia?
Rosalind Lopez olhou para Dana, surpresa.
- Inimigos? No, senhora. Todo mundo a adorava.
 um disco arranhado mesmo, decidiu Dana.
Voltando para o escritrio, Dana pensava: Acho que estou errada. Apesar das probabilidades, as mortes devem ter sido coincidncias.
Dana entrou para falar com Matt Baker. Foi recebida por
Abbe Lasmann.
- Oi, Dana.
- Matt est pronto pra mim?
- Sim. Pode entrar
Matt Baker ergueu os olhos quando Dana entrou no escritrio.
- Como vai Sherlock Holmes hoje?
-  elementar, meu caro Watson. Eu estava errada. No
h matria alguma ali.

CINCO

O telefonema de Eileen, me de Dana, chegou de modo muito
inesperado.
- Dana, querida, tenho a notcia mais emocionante para
lhe dar.
- , me?
- Vou me casar
Dana ficou aturdida.
- O qu?!
- . Fui a Westport, em Connecticut, visitar uma amiga e
ela me apresentou a esse homem lindo, adorvel.
- Eu... eu estou encantada por voc, me.  maravilhoso.
- Ele ... ele  to... - Deu risadinhas. - No d para
descrev-lo, mas  um amor e voc vai gostar dele.
Dana perguntou, cautelosa:
- H quanto tempo o conhece?
- O suficiente, querida. Somos perfeitos um para o outro.
Tenho tanta sorte.
- Ele tem um emprego? - perguntou Dana.
- Pare de agir como seu pai. Claro que tem um emprego.  um corretor de seguros muito bem-sucedido. Chama-se
Peter Tomkins. Tem uma linda casa em Westport, e estou louca para que voc e Kimbal venham aqui conhec-lo. Vocs
vm?
- Claro que vamos.
- Peter est to ansioso por conhecer voc. Contou a todo
mundo que minha filha  muito famosa. Tem certeza que vai
poder vir?
- Claro que sim. - Dana no ia ao ar nos fins de semana,
portanto no haveria problema algum. - Kemal e eu aguardamos com impacincia a hora de chegar a.
Quando pegou Kemal na escola, Dana disse-lhe:
- Voc vai conhecer sua av. Agora vamos ser uma familia de verdade, querido.
- Maneiro.
Dana sorriu.
- Maneiro  legal.
Bem cedo, na manh de sbado, Dana e Kemal pegaram o carro e foram para Connecticut. Aguardavam a viagem para
Westport com grande impacincia e expectativa.
- Vai ser maravilhoso para todo mundo - ela tranqilizou Kemal. - Todos os avs precisam de netos para mimar. Esta
 a melhor parte de ter filhos. E voc poder passar algum tempo com eles.
Kemal perguntou, nervoso.
- Voc tambm vai ficar l?
Dana apertou-lhe a mo.
- Vou, sim.
A casa de Peter Tomkins era um encantador chal antigo na
Blind Brook Road, com um pequeno riacho correndo ao lado.
- Ei,  maneira - disse Kemal.
Dana assanhou-lhe os cabelos.
- Que bom que voc gostou. Vamos vir aqui muitas vezes.
A porta da frente do chal abriu-se e Eileen Evans parou
diante dela. Ainda restavam vagos traos de beleza em seu rosto, como indicaes do que fora outrora, mas a amargura sobrepusera-se ao passado com speras pinceladas. 
Era Dorian
Gray. A beleza da me desaparecera e passara para Dana. Ao
lado de Eileen, via-se um homem de meia-idade, com uma aparncia bonachona e um largo sorriso.
Eileen avanou s pressas e tomou Dana nos braos.
- Dana, querida! E este  Kimbal!
- Me...
- Ento esta  a famosa Dana Evans, hem? - exclamou
Peter Tomkins. - Falei de voc a todos os meus clientes. Virou-se para Kemal. - E este  o garoto. - Percebeu o brao
que faltava em Kemal. - Ei, voc no me disse que ele era aleijado.
Dana sentiu o sangue congelar. Viu o choque na expresso
de Kemal.
Peter Tomkins balanou a cabea, pesaroso.
- Se ele tivesse feito um seguro com a nossa companhia antes disso acontecer, hoje seria um garoto rico. Virou-se em direo  porta. - Entrem. Vocs devem estar
com fome.
- No mais - disse Dana, categrica. Virou-se para
Eileen. - Desculpe, me. Kemal e eu vamos voltar para Washington.
- Lamento, Dana. Eu...
- Eu tambm. Espero que no esteja cometendo um grande erro. Tenha um timo casamento.
A me de Dana, consternada, observou a filha e Kemal
entrarem no carro e afastarem-se.
Peter Tomkins procurou-os com o olhar, espantado.
- Ei, que foi que eu disse?
Eileen Evans respondeu, com um suspiro.
- Nada, Peter. Nada.
Kemal ficou calado no trajeto de volta para casa. Dana lanava-lhe um olhar de vez em quando.
- Sinto muito, querido. Algumas pessoas so simplesmente ignorantes.
- Ele tem razo - disse Kemal, ressentido. - Eu sou um
aleijado.
- voc no  um aleijado - disse Dana, com ferocidade
na voz. - voc no julga as pessoas por quantos braos ou
pernas tm. voc as julga pelo que so.
- Ah, ? E ento o que sou?
-  um sobrevivente. E sinto orgulho de voc. Sabe, o Sr
Encantador tinha razo numa coisa... estou morrendo de fome.
Acho que no vai lhe interessar, mas estou vendo um McDonald's
logo ali adiante.
Kemal sorriu.
- Assombroso.
Depois que Kemal foi para a cama, Dana entrou na sala de estar e sentou-se para pensar. Ligou a televiso e ps-se a surfar
pelos canais de notcias. Todos apresentavam matrias sobre o
assassinato de Gary Winthrop.
- ...esperando que a caminhonete roubada pudesse oferecer algumas pistas para a identidade dos assassinos...
- ...duas balas de uma Beretta. A polcia est investigando todas as lojas de armas para...
- ...e o brutal assassinato de Gary Winthrop na exclusiva rea noroeste provou que ningum est...
Alguma coisa no fundo da mente de Dana a inquietava, sem
Parar. Levou horas para adormecer. De manh, quando acordou, compreendeu o que andara Lhe tirando o sossego. Dinheiro e jias guardados em lugar acessvel, no trancado. 
Por que os
ladres no os levaram?
Dana levantou-se e fez um bule de caf enquanto repassava o que o chefe Bumett dissera.
Tm uma relao das pinturas roubadas?
Temos, sim. So todas famosas. J mandamos circular uma relao das obras entre os museus, negociantes de arte e colecionadores. No instante em que aparecer uma 
dessas pinturas, o caso ser
resolvido.
Os ladres deviam saber que os quadros no podiam ser vendidos com facilidade, pensou Dana, o que talvez signifique que o roubo
tenha sido arquitetado por um rico colecionador que pretende guard-los para si. Mas por que um homem assim se entregaria nas mos de
dois marginais assassinos?
Na segunda-feira de manh, quando Kemal se levantou, Dana
fez o caf e deixou o filho adotivo na escola.
- Tenha um bom dia, querido.
- At mais, Dana.
Ela esperou Kemal entrar no porto da frente da escola e
ento seguiu para a delegaca de polcia na Indiana Avenue.
Nevava mais uma vez, e um vento sdico arrancava tudo
por onde passava.
O detetive Phoenix Wilson, encarregado do assassinato de
Gary Winthrop, era um misantropo cheio de malandragem,
com algumas cicatrizes para mostrar como tinha ficado daquele jeito. Ergueu os olhos quando Dana entrou em seu
gabinete.
- Nada de entrevistas - grunhiu Wilson. - Quando
houver alguma informao nova sobre o assassinato de Winthrop, voc saber na coletiva, junto com todos os demais.
- No vim falar disso - respondeu Dana.
Ele lanou-lhe um olhar ctico.
- Oh, verdade?
- Verdade. Estou interessada nas pinturas roubadas. Imagino que tenha uma relao delas, no?
- E da?
- Poderia me dar uma cpia?
O detetive Wilson perguntou, desconfiado.
- Para qu? O que tem em mente?
- Gostaria de saber que obras os assassinos levaram. Poderia fazer um segmento ao vivo.
O detetive Wilson examinou Dana por um momento.
- No  m idia. Quanto mais publicidade tiverem esses
quadros, menos chance os assassinos tero de vend-los. Levantou-se. - Eles levaram cerca da metade dos quadros e
deixaram a outra metade. Acho que eram preguiosos demais
para transportar todos. Boa ajuda  coisa rara atualmente. Vou
pegar uma cpia daquele relatrio para voc.
Voltou em poucos minutos com duas fotocpias. Entregouas a Dana.
- Aqui est a relao das obras roubadas. E aqui, a outra.
Dana olhou-o, sem entender
- Que outra?
- Todas as obras de arte que Gary Winthrop possua, inclusive as que os assassinos deixaram.
- Oh. Obrigada. Fico muito grata mesmo.
J no corredor, Dana examinou as duas listas. O que via era
confuso. Saiu para o ar frgido e dirigiu-se  Christie's, a famosa
casa de leiles. Nevava ainda mais pesado, e as multides apressavam-se para terminar as compras de Natal e voltar logo aos
lares e escritrios aquecidos.
Quando Dana chegou  Christie's, a gerente logo a reconheceu.
- Vejam s!  uma honra, Srta. Evans. Que podemos fazer por voc?
Dana explicou:
- Tenho duas relaes de quadros aqui. Ficaria grata se
algum pudesse me dizer quais das pinturas so valiosas.
- Mas  claro. Teremos o mair prazer. Venha por aqui,
por favor ..
Duas horas depois, Dana achava-se no escritrio de Matt Baker
- Alguma coisa muito estranha est acontecendo - comeou Dana.
- No voltamos mais uma vez  teoria da conspirao,
voltamos?
- Me diga voc. - Entregou a relao mais longa dos
quadros. - Esta tem todas as obras de arte que Gary Winthrop
possua. Acabei de mandar avaliar os quadros na Christie's.
Matt Baker passou os olhos pela lista.
- Espere a, vejo alguns medalhes de peso aqui. Vincent
van Gogh, Hals, Matisse, Monet, Picasso, Manet. - Ergueu
os olhos. - E a?
- Agora olhe esta lista - disse Dana. Entregou a Matt a
relao mais curta das obras, com os quadros roubados.
Matt leu-as em voz alta.
- Camille Pissaro, Marie Laurencin, Paul Klee, Maurice
Utrillo, Henry Leebasque. Ento, aonde quer chegar?
Dana explicou devagar:
- Muitas das pinturas da relao completa valem mais de
dez milhes de dlares, cada uma. - Fez uma pausa. - A
maioria das constantes na lista menor, as roubadas, valem duzentos mil ou menos, cada.
Matt Baker piscou os olhos.
- Os arrombadores levaram as pinturas menos valiosas?
- Isso mesmo. - Dana curvou-se  frente. - Matt, se
fossem ladres profissionais tambm teriam levado o dinheiro
vivo e as jias logo ali,  mo. Devemos supor que algum os
contratou para roubar apenas as pinturas mais valiosas. Mas,
segundo essas relaes, eles no entendiam patavina de arte.
Ento, para que foram contratados realmente? Gary Winthrop
no estava armado. Por que o assassinaram?
- Est dizendo que o roubo foi um encobrimento, e o assassinato o verdadeiro motivo da invaso da casa?
- Essa  a nica explicao em que posso pensar
Matt engoliu em seco.
- Vamos examinar o seguinte. Suponha que Taylor
Winthrop tivesse de fato arranjado um inimigo e sido assassinado... Por que algum ia querer aniquilar toda a famlia dele?
- No sei - disse Dana. -  isso que quero descobrir
O Dr Armand Deutsch era um dos mais respeitados psiquiatras de Washington, um homem com uma imponente aparncia, de seus setenta anos, testa larga e olhos inquisidoramente
azuis. Deu uma olhada em Dana quando ela entrou.
- Srta. Evans?
- Sim. Agradeo-lhe por me receber, doutor. Eu precisava v-lo por um motivo muito importante mesmo.
- E que motivo to importante  esse?
- O senhor leu sobre as mortes na famlia Winthrop?
- Claro. Tragdias terrveis. Tantos acidentes.
- E se no foram acidentes? - perguntou Dana.
- Como? Que est dizendo?
- Que h uma possibilidade de que todos tenham sido
assassinados.
- Os Winthrops assassinados? Isso parece uma grande
apelao, Srta. Evans. - Forado demais.
- Mas possvel.
- Por que acha que talvez tenham sido assassinados?
- ...  s um palpite - reconheceu Dana.
- Entendo. Um palpite. - O Dr Deutsch ficou ali, examinando-a. - Assisti s suas transmisses de Sarajevo.  uma
excelente reprter
- Obrigada.
O Dr Deutsch curvou-se  frente, apoiado nos ombros, os
olhos azuis fixos nos dela.
- Portanto, no faz muito tempo, voc estava em meio a
uma terrvel guerra. Correto?
- Sim.
- Fazendo reportagens sobre pessoas sendo estupradas,
mortas, bebs assassinados...
Dana ouvia, cautelosa.
- Achava-se,  bvio, sob grande estresse.
- Sim - concordou Dana.
- H quanto tempo voltou... cinco, seis meses?
- H trs meses - disse Dana.
Ele fez que sim com a cabea, satisfeito.
- No muito tempo para se ajustar mais uma vez  vida
civil, no ? Deve ter pesadelos com os terrveis assassinatos
que testemunhou, e agora sua mente inconsciente imagina...
Dana interrompeu-o.
- Doutor, no sou paranica. No tenho prova alguma,
mas tenho motivo para acreditar que as mortes dos Winthrops
no foram acidentais. Vim v-lo porque esperava que pudesse
me ajudar
- Ajud-la? De que maneira?
- Preciso de uma motivao. Que motivao algum poderia ter para aniquilar uma famlia inteira?
O Dr Deutsch olhou para Dana e cruzou os dedos.
- H precedentes, claro, de agresso violenta como essa.
Uma vendetta... vingana. Na Itlia, a Mfia ficou famosa por
matar famlias inteiras. Ou  possvel o envolvimento de drogas. Poderia ser vingana por alguma tragdia terrvel causada
pela famlia. Ou talvez um manaco que poderia no ter motivao racional alguma para...
- No creio que seja esse o caso aqui - disse Dana.
- E tambm, claro, h sempre uma das mais antigas motivaes do mundo... dinheiro.
Dinheiro. Dana j tinha pensado nisso.
Chefe do escritrio de advocacia de Calkin, Taylor be Anderson,
Walter Calkin foi o advogado da famlia Winthrop por mais de
25 anos. Embora fosse um homem muito idoso, com o corpo
frgil e paralisado por artrite, continuava com a mente aguada.
Examinou Dana por um momento.
- Disse para minha secretria que queria conversar comigo sobre os bens da famlia Winthrop?
- Sim.
Ele deu um suspiro.
- Para mim,  incrvel o que aconteceu com aquela famlia maravilhosa. Incrvel.
- Soube que o senhor cuidava das questes jurdicas e financeiras deles - disse Dana.
- Sim.
- Sr Calkin, no ano passado, ocorreu alguma coisa fora
do comum com essas questes?
Ele olhava para Dana, curioso.
- Fora do comum em que sentido? - perguntou.
Dana respondeu, com cuidado:
-  meio embaraoso, mas... o senhor ficaria sabendo se
algum membro da famlia estava... sendo chantageado?
Houve um silncio momentneo.
- Quer dizer, se eu saberia se estavam pagando regularmente grandes somas a algum?
- .
- Acho que saberia, sim.
- E houve alguma coisa semelhante? - continuou
Dana.
- Nada. Suponho que esteja insinuando algum tipo de
jogo sujo. Devo lhe dizer que considero isso totalmente ridculo.
- Mas esto todos mortos - insistiu Dana. - Os bens
devem valer muitos bilhes de dlares. Eu ficaria muito grata
se o senhor pudesse me dizer quem se candidata para receber
todo esse dinheiro.
Ela viu o advogado abrir um frasco de plulas, tirar uma e
engoli-la com um gole d'gua.
- Srta. Evans, nunca discutimos as questes dos nossos clientes. - Hesitou. - Nesse caso, contudo, no vejo
mal algum, pois amanh ser distribudo um comunicado 
imprensa.
E tambm, claro, h sempre uma das mais antigas motivaes
do mundo... dinheiro.
Walter Calkin fitou Dana.
- Com a morte de Gary Winthrop, o ltimo sobrevivente
da famlia...
- Sim - Dana prendia a respirao.
- Todos os bens da famlia Winthrop vo para instituies
de caridade.


SEIS

A equipe aprontava-se para o noticirio da noite.
Dana estava no Estdio A,  mesa do ncora, terminando
as mudanas de ltima hora para a transmisso. Os boletins de
notcias que haviam chegado durante todo o dia dos servios
de telgrafo e canais policiais eram examinados, selecionados
ou rejeitados.
Sentados  mesa do ncora junto a Dana, Jeff Connors e
Richard Melton. Anastasia Mann comeou a contagem regressiva e terminou: Trs... dois... um... com o dedo indicador estendido. A luz vermelha da cmera piscou.
Ouviu-se a estrondosa voz do locutor:
- Este  o jornal das onze horas ao vivo na WTN com
Dana Evans... - Dana sorriu para a cmera. - ...e Richard
Melton. - Melton olhou pela cmera e acenou com a cabea.
- Jeff Connors com os esportes e Marvin Greer com a meteorologia. Comea nesse instante o jornal das onze horas.
Dana olhou dentro da cmera.
- Boa noite. Dana Evans.
Richard Melton sorriu.
- Richard Melton.
Dana leu do teleprompter.
- Temos uma matria exclusiva. Uma caada policial terminou mais cedo esta noite, aps um assalto  mo armada numa
loja de bebidas no centro.
- Rode a fita um.
A tela abriu-se para o interior de um helicptero. Nos controles do helicptero da WTN estava Norman Bronson, um exfuzileiro piloto da marinha. A seu lado, Alyce 
Barker. O ngulo
da cmera mudou. Em terra, abaixo, viam-se trs carros da
polcia cercando um sed que tinha batido numa rvore.
Alyce Barker entrou:
- A perseguio teve incio quando dois homens entraram
na loja de bebidas Haley, na Pennsylvania Avenue, e tentaram
render o balconista. Ele resistiu e apertou o boto de alarme para
chamar a polcia. Os ladres fugiram, mas a polcia os perseguiu
por quase oito quilmetros at o carro dos suspeitos chocar-se con- ''tra uma rvore. Os dois foram detidos e levados para a delegacia.
Seguiram-se mais trs reportagens, e o diretor deu o sinal
para um intervalo.
- Voltaremos logo aps os comerciais - disse Dana.
Rodaram um comercial.
Richard Melton virou-se para Dana.
- J deu uma olhada l fora? O tempo est uma merda.
- Eu sei - riu Dana. - Nosso pobre homem da meteorologia vai receber um monte de cartas odiosas.
A luz vermelha piscou e acendeu. O teleprompter ficou vazio por um momento e ps-se mais uma vez a deslizar. Dana
iniciou a leitura:
- Na vspera do Ano-Novo, eu gostaria de... - Parou de
chofre, aturdida, ao ler o resto das palavras. Diziam: ...que nos
casssemos. Temos um duplo motivo para comemorar toda vspera
do Ano-Novo.
Parado junto ao teleprompter, Jeff dava-lhe um sorriso escancarado.
Dana olhou para a cmera e disse, sem graa:
- Faremos uma pausa para um breve comercial. - A luz
vermelha apagou-se.
Dana levantou-se.
- Jeffi
Os dois aproximaram-se um do outro e se abraaram.
- Que  que voc diz?
- Digo... aceito.
Os aplausos da equipe ecoaram-no estdio.
Quando terminou a transmisso e os dois ficaram sozinhos, Jeff
perguntou:
- De que voc gostaria, meu bem? Um casamento grande, pequeno ou mdio?
Dana pensava em seu casamento desde menininha. Visualizava-se em um lindo vestido comprido de renda branca, com uma
longa, longussima, cauda. Nos filmes a que assistira, sempre
havia a excitao frentica de aprontar-se para a cerimnia...
preparar a lista de convidados... escolher o buf... as damas de
honra... a igreja... Todos os amigos estariam l, e a me. Ia ser o
dia mais lindo de sua vida. E agora era uma realidade.
- Dana? - perguntou mais uma vez Jeff,  espera da resposta.
Se eu fizer um grande casamento, pensou Dana, terei de convidar mame e seu marido. No posso fazer isso com Kemal.
- Vamos fugir para nos casar - disse ela.
Jeff concordou com a cabea, surpreso.
- Se  isso o que quer, ento  o que eu quero.
Kemal ficou entusiasmado ao saber da notcia.
- Quer dizer que Jeff vai morar com a gente?
- Isso mesmo. Vamos ficar todos juntos. Voc vai ter uma
famlia de verdade, querido.
Sentada ao lado de Kemal na cama durante a hora seguinte, Dana discutia, excitada, o futuro deles. Os trs iam viver
juntos, passar frias juntos, simplesmente ficar juntos. Esta palavra mgica.
Quando Kemal adormeceu, Dana entrou no quarto e ligou o
Computador. Apartamentos. Apartamentos. Vamos precisar de dois
quartos, dois banheiros, uma sala de visitas, cozinha, rea de jantar
e talvez um escritrio e um estdio. Isso no deve ser difcil demais.
Dana pensou na casa vazia de Gary Winthrop, na cidade, e sua
mente ps-se a divagar Que realmente tinha acontecido naquela
noite? E quem desligou o alarme? Se no havia quaisquer sinais de
um arrombamento, ento como os ladres entraram? Quase sem
querer, seus dedos digitaram "Winthrop" no teclado. Que diabo
de problema est acontecendo comigo? Dana percebeu a mesma
informao conhecida que vira antes.
Regional > Estados Unidos > Washington, Capital > Governo > Poltica > Agncia Federal de Pesquisa
Winthrop, Taylor - serviu como embaixador da Rssia e
negociou um importante acordo comercial com a Itlia...
Winthrop, Taylor - bilionrio que se fez por si mesmo,
Taylor Winthrop, dedicou-se a servir seu pas...
Winthrop, Taylor - a famlia Winthrop criou fundaes filantrpicas para ajudar escolas, bibliotecas e programas internos da cidade...
Havia 54 websites para a famlia Winthrop. Dana ia mudar
a busca para Apartamentos, quando uma entrada ao acaso captou-lhe o olhar.
Winthrop, Taylor - Processo judicial. Joan Sinisi, ex-secretria de Taylor Winthrop, entrou com uma ao judicial e
depois a abandonou.
Dana leu mais uma vez. Que tipo de processo judicial?, perguntou-se.
Mudou para vrios outros websites Winthrop, mas no encontrou nenhuma outra meno a ao judicial. Digitou ento
o nome Joan Sinisi. Nada apareceu.
- Esta  uma linha segura?
- Sim.,
- Quero um relatrio sobre os websites que o alvo tem
verificado.
- Cuidaremos imediatamente disso.
Na manh seguinte, ao chegar ao seu escritrio na redao, aps
deixar Kemal na escola, Dana procurou no catlogo de telefones de Washington. Nenhuma Joan Sinisi. Tentou o de Maryland... Virgnia... Sem sorte. Ela na certa se 
mudou, decidiu Dana.
Tom Hawkins, o produtor do programa, entrou no escritrio de Dana.
- Derrotamos mais uma vez a concorrnca ontem  noite.
- Maravilha. - Dana ficou pensativa por um momento.
- Tom, conhece algum na companhia telefnica?
- Claro. Voc precisa de um telefone?
- No. Quero saber se algum tem um nmero no listado.
Acha que poderia verificar isso?
- Qual  o nome?
- Sinisi. Joan Sinisi. Ele franziu as sobrancelhas.
- Por que este nome me parece conhecido?
- Ela se envolveu num processo judicial com Taylor Winthrop.
- Ah, . Agora me lembro. Foi mais ou menos um ano
atrs. Voc estava na Iugoslvia. Achei que ia ser uma matria
suculenta l, mas silenciou muito rpido. Ela na certa est
morando em algum lugar na Europa, mas vou tentar descobrir
Quinze minutos depois, Olivia Watkins comunicou:
- Tom na linha para voc.
- Tom?
- Joan Sinisi continua morando em Washington. Tenho
um nmero que no consta da lista telefnica para voc, se
quiser
- Fantstico - exclamou Dana e pegou uma caneta. Desembuche.
- 555-2690.
- Obrigada.
- Esquea os agradecimentos. Transforme-os num almoo.
- Combinado.
A porta do escritrio abriu-se e Dean Ulrich, Robert Fenwick e Maria Toboso, trs redatores que trabalhavam no jornal
da televiso, entraram.
Robert Fenwick disse:
- Vai ser um noticirio sangrento esta noite. Temos duas
colises de trem, um desastre areo e um grande deslizamento.
Os quatro puseram-se a ler os boletins informativos que
chegavam. Terminada a reunio, duas horas depois, Dana pegou o pedao de papel com o nmero de Joan Sinisi e telefonou.
Uma mulher respondeu:
- Residncia da Srta. Sinisi.
- Eu poderia falar com a Srta. Sinisi, por favor? Aqui 
Dana Evans.
- Vou ver se ela pode atender. S um minuto - respondeu a mulher
Dana esperou. Outra voz de mulher chegou ao telefone,
baixa e hesitante.
- Al...
- Srta. Sinisi?
- Sim.
- Aqui  Dana Evans. Eu gostaria de saber se...
- A Dana Evans?
-Ah... sim.
- Oh! Vejo seu programa toda noite. Sou uma tremenda
f sua.
- Obrigada - disse Dana. - Isso  muito lisonjeiro. Eu
queria saber se tem algum tempo de sobra para mim, Srta. Sinisi.
Eu gostaria de conversar com voc.
- Voc gostaria? - Transpareceu um tom de alegre surpresa na sua voz.
- Sim. Podemos nos encontrar em algum lugar?
- Heim, sem dvida. Gostaria de vir aqui?
- Seria timo. Quando  conveniente para voc?
Houve uma breve hesitao.
- A qualquer hora. Fico em casa o dia todo.
- Que tal amanh  tarde, digamos s duas horas?
- Tudo bem. - Deu o endereo.
- Vejo-a amanh - disse Dana e desligou o telefone. Por
que continuo nisso? Bem, o encontro com Joan Sinisi ir desvendar
tudo.
s duas horas da tarde seguinte, Dana parou o carro diante do
arranha-cu de apartamentos de Joan Sinisi, na Prince Street.
Um porteiro uniformizado aguardava na fachada do prdio.
Dana olhou a imponente construo e pensou: Como uma secretria tem meios para morar aqui? No vestbulo, uma recepcionista  mesa.
- Posso ajud-la?
- Combinei um encontro com a Srta. Sinisi. Sou Dana
Evans.
- Sim, Srta. Evans. Ela est  espera.  s tomar o elevador para a cobertura.  o apartamento A.
A cobertura?
Quando Dana chegou ao ltimo andar, saiu do elevador e
tocou a campainha do apartamento A. A porta foi aberta por
uma empregada uniformizada.
- Srta. Evans?
- Sim.
- Entre, por favor.
Joan Sinisi morava num apartamento de doze cmodos com
um imenso terrao dominando de cima a cidade. A empregada
levou Dana por um longo corredor at uma sala de visitas toda
em branco e belamente decorada. Sentada no sof, uma mulher pequena e magra levantou-se ao ver Dana.
Joan Sinisi foi uma surpresa. Dana no soubera o que prever, mas a mulher que se levantara para cumpriment-la era a
ltima coisa que esperaria ver. Alm de baixa, Joan Sinisi tinha
um rosto comum, os olhos castanhos ocultos sob grossos culos. A voz era tmida e quase inaudvel.
-  um verdadeiro prazer conhec-la em pessoa, Srta.
Evans.
- Obrigada por me receber - disse Dana. Juntou-se a
Joan Sinisi num grande sof branco perto do terrao.
- Eu ia tomar um pouco de ch. Aceitaria um pouco?
- Obrigada.
Joan Sinisi voltou-se para a empregada e disse, quase com
acanhamento:
- Greta, poderia fazer o favor de nos trazer um pouco de
ch?
- Sim, senhora.
- Obrigada, Greta.
Pairava uma sensao de irrealidade naquilo. Joan Sinisi e a
cobertura no se encaixavam de modo algum. Como ela poderia ter
meios para morar aqui? Que tipo de acordo fizera TaylorWinthrop?
E de que se tratara a ao judicial?
- ...e nunca perco suas apresentaes-diza Joan Sinis,
em voz baixa. - Acho voc maravilhosa.
- Obrigada.
- Lembro quando voc transmita as notcias de Sarajevo,
com todas aquelas bombas e armas explodindo. Sempre temia
que alguma coisa pudesse Lhe acontecer
- Para ser sincera, eu tambm.
- Deve ter sido uma experincia terrivel.
- Sim, em certo aspecto foi.
Greta chegou com uma bandeja de ch e bolos. Arrumoua na mesa de centro, diante das duas.
- Eu sirvo - disse Joan Sinisi.
Dana ficou vendo-a servir o ch.
- Aceita um bolo?
- No, obrigada.
Joan Sinisi passou a Dana a xcara de ch e serviu outra
para si.
- Como disse, fico realmente muito feliz por conhec-la,
mas eu... eu no posso imaginar sobre o que quer conversar
comigo.
- Eu queria falar de Taylor Winthrop.
Joan Sinisi teve um sobressalto e derramou um pouco de
ch no colo.
O rosto empalideceu.
- Est tudo bem com voc?
- Sim, estou... estou tima. - Fez umas leves aplicaes
na saia com o guardanapo. - Eu... eu no sabia que voc queria... - A voz extinguiu-se.
A atmosfera mudara de repente. Dana disse:
- Voc foi secretria de Taylor Winthrop, no foi?
Joan Sinisi respondeu, cuidadosa.
- Fui. Mas deixei o emprego do Sr Winthrop um ano
atrs. Lamento no poder ajud-la. - A mulher quase tremia.
Dana disse, tranqilizando-a:
- Ouvi tantas coisas boas sobre Taylor Winthrop. Simplesmente imaginei que talvez pudesse acrescentar mais alguma
informao.
Joan Sinisi pareceu aliviada.
- Oh, sim, claro que posso. O Sr Winthrop era um grande homem.
- Quanto tempo trabalhou pra ele?
- Quase trs anos.
Dana sorriu.
- Deve ter sido uma experincia maravilhosa.
- Sim, sim, foi, Srta. Evans. - Parecia muito mais relaxada.
- Mas voc moveu um processo judicial contra ele.
O medo voltara aos olhos de Joan Sinisi.
- No... quer dizer, sim. Mas foi um erro, entende? Cometi um erro.
- Que tipo de erro?
Joan Sinisi engoliu em seco.
- Eu... eu entendi errado uma coisa que o Sr Winthrop
disse a uma pessoa. Comportei-me muito tolamente. Sinto vergonha de mim mesma.
- Voc entrou com o processo, mas no o levou ao tribunal?
- No. Ele... ns resolvemos o processo em comum acordo. No foi nada.
Dana olhou o apartamento em volta.
- Entendo. Pode me dizer que acordo foi?
- No, receio que no - disse Joan Sinisi. - Tudo 
': muito confidencial.
Dana se perguntava o que teria feito aquela mulher tmida
mover um processo judicial contra um tit como Taylor Winthrop, e por que se mostrava to apavorada ao falar daquilo.
De que tinha medo?
Houve um longo silncio. Joan Sinisi observava Dana, que
tinha a sensao de que ela queria Lhe dizer alguma coisa.
- Srta. Sinisi...
Joan Sinisi levantou-se.
- Se no h mais nada de que precise, Srta. Evans... lamento, no posso ficar mais.
- Entendo - disse Dana.
Quisera que sim.
Ele ps a fita na mquina e apertou o boto start.
Eu... eu entendi errado uma coisa que o Sr. Winthrop disse a uma
pessoa. Comportei-me muito tolamentte. Sinto vergonha de mim
mesma.
Voc entrou com o processo, mas no o levou ao tribunal?
No. Ele... ns resolvemos o processo em comum acordo. No
foi nada.
Entendo. Pode me dizer que acordo foi?
No, receio que no. Tudo  muito confidencial.
Fim da fita.
Tinha comeado.
Dana tomou providncias para um corretor de imveis mostrarlhe apartamentos, mas foi uma manh desperdiada. Os dois
cobriram Georgetown, Dupont Circle e o bairro de AdamsMorgan. Os apartamentos eram pequenos, grandes ou caros
demais. Ao meio-dia, resolveu desistir
- No se preocupe - disse o corretor, tranqilizando-a.
- Encontraremos exatamente o que est procurando.
- Espero - disse ela. E logo.
Dana no conseguia tirar Joan Sinisi da cabea. Que informao tinha ela sobre Taylor Winthrop que faria com que ele lhe
pagasse uma cobertura e Deus sabe mais o qu? Ela queria me
dizer alguma coisa, pensou Dana. Tenho certeza disso. Preciso falar de novo com ela.
Telefonou para o apartamento de Joan Sinisi.
- Boa tarde - respondeu Greta.
- Greta, aqui  Dana Evans. Por favor, eu gostaria de falar com a Srta. Sinisi.
- Lamento. A Srta. Sinisi no est atendendo a telefonemas.
- Bem, poderia lhe dizer que  Dana Evans, e que preciso...
- Lamento, Srta. Evans. A Srta. Sinisi no est disponvel. - A linha interrompeu-se.
Na manh seguinte, Dana deixou Kemal na escola. No cu
congelado, um plido sol tentava sair Nas esquinas das ruas em
toda a cidade, os mesmos Papais Noel falsos tocavam seus sinos
pedindo doaes para obras de caridade.
Preciso encontrar um apartamento para ns trs antes da vspera do Ano-Novo, pensou.
Aps chegar ao estdio, Dana passou a manh em reunio
com o pessoal do noticirio, discutindo as matrias que iam
entrar e as locaes que ela precisava ter gravadas. Uma notcia era sobre um assassinato particularmente brutal, no desvendado, e Dana pensou nos Winthrops.
Telefonou mais uma vez para o nmero de Joan Sinisi.
- Boa tarde.
- Greta,  muito importante que eu fale com a Srta. Sinisi.
Diga a ela que Dana Evans...
- Ela no vai falar com voc, Srta. Evans. - A linha interrompeu-se.
        Que est acontecendo?, perguntou-se Dana e foi at a sala
        de Matt Baker. Abbe Lasmann cumprimentou-a.
        - Parabns! Soube que a data do casamento foi marcada.
        Dana sorriu.
        - .
                Abbe deu um suspiro.
                - Que pedido romntico.
                -  o estilo do meu companheiro.
        - Dana, nossa colunista da Conselho aos Perdidos de
        Amor disse que aps as bodas voc devia ir ao supermercado,
        comprar duas sacolas de enlatados e esconder na mala do seu
        carro.
                - Por que diabos...?
                - Ela disse que um dia, pela estrada afora, voc poderia
        decidir ter uma pequena diverso extracurricular e chegar tarde em casa. Quando Jeff perguntar onde esteve, voc simplesmente lhe mostra as sacolas e diz: 
"Fazendo compras." Ele vai...
                - Obrigada, Abbe querida. Matt pode me receber?
                - vou avis-lo de que est aqui.
                Momentos depois, Dana entrava no escritrio de Matt
        Baker.
- Sente-se, Dana. Boas notcias. Acabamos de receber os
resultados das pesquisas de audincia. Arrasamos mais uma vez
com a concorrncia ontem  noite.
- timo. Matt, conversei com uma ex-secretria de Taylor
Winthrop e ela...
Ele deu-lhe um largo sorriso.
- Vocs, nativas de Virgem, no desistem, no ? No me
disse que...
- Eu sei, mas escute isto. Quando ela trabalhava para
Taylor Winthrop, moveu uma ao judicial contra ele. Nunca
foi a julgamento, porque Taylor fez um acordo com ela. Hoje
ela mora numa enorme cobertura que por certo no poderia
pagar com o salrio de secretria, por isso o acordo deve ter sido
realmente polpudo. Quando falei no nome Winthrop, a mulher ficou apavorada, absolutamente apavorada. Agia como se
temesse pela prpria vida.
Matt Baker perguntou, paciente:
- Ela temia perder a prpria vida?
- No.
- Temia Taylor Winthrop?
- No, mas...
- Ento, por tudo que voc sabe, ela poderia estar com
medo de um namorado que a espanca ou de arrombadores debaixo da cama. Voc no tem absolutamente nada com que
continuar, tem?
- Bem, eu... - Dana viu a expresso no rosto dele. Nada concreto.
- Certo. Quanto s pesquisas de audincia...
Joan Sinisi assistia ao noticirio da noite na WTN. Dana dizia:
- E nas notcias locais, segundo o ltimo relatrio, o ndice de crime nos Estados Unidos caiu vinte e sete por cento nos
ltimos doZe meses. As maiores baixas na criminalidade foran
em Los Angeles, So Francisco e Detroit...
Joan Sinisi examinava o rosto de Dana, com os olhos fixos
nos dela, tentando chegar a uma deciso. Viu todo o noticirio
e, quando este terminou, tinha tomado sua deciso.

SETE

Quando Dana entrou em seu escritrio na manh seguinte,
Olivia disse:
- Bom dia. Voc recebeu trs telefonemas de uma mulher
que no quis deixar o nome.
- Mas ela deixou algum nmero?
- No. Disse que ligaria de novo.
Trinta minutos depois, Olivia avisou.
-  aquela mulher mais uma vez na linha. Quer falar com
ela?
- Pode ligar. - Dana pegou o telefone. - Al, aqui 
Dana Evans. Quem fala?
- Aqui  Joan Sinisi.
Dana sentiu o corao acelerar
- Sim, Srta. Sinisi... '
- Ainda quer conversar comigo? - Parecia nervosa.
- Quero. Muitssimo.
- Tudo bem.
- Posso estar no seu apartamento em...
- No! -Transparecia pnico em sua voz. - Precisamos
nos encontrar em outro lugar. Acho que estou sendo vigiada.
- Como quiser. Onde...?
- Na seo de aves do Zoolgico no parque. Pode estar l
em uma hora?
- Estarei l.
O parque achava-se praticamente deserto. Os glidos ventos
de dezembro que varriam a cidade mantinham longe os freqentadores habituais. Tiritando de frio, Dana parou defronte do
avirio  espera de Joan Sinisi. Conferiu as horas no relgio de
pulso. J havia passado mais de uma hora. vou dar mais quinze
minutos.
Quinze minutos depois, disse a si mesma: Mais meia hora e
chega. Trinta minutos depois, pensou: Droga! Ela mudou de idia.
Voltou para o escritrio, congelada e molhada.
- Algum telefonema?
- Meia dzia. Esto na sua mesa.
Dana olhou a lsta. No constava o nome de Joan Sinisi.
Discou ento o nmero dela. Ouviu o telefone tocar uma
dezena de vezes antes de desligar. Talvez tenha mais uma vez
mudado de idia. Tentou mais duas vezes, sem resposta. Debatia-se, perguntando-se se devia voltar ao apartamento de
Joan Sinisi, mas decidiu contra. Tenho de esperar que ela me
procure.
No se ouviu mais falar de Joan Sinisi.
s seis horas da manh seguinte, Dana assistia ao jornal, enquanto se vestia.
- ...e a situao na Chechnia piorou. Foram encontrados mais doze corpos e, apesar da garantia do governo russo de
que os rebeldes haviam sido derrotados, a luta continua... No
noticirio local, uma mulher jogou-se para a morte de seu apartamento de cobertura no trigsimo andar. A vtima, Joan Sinisi,
era uma ex-secretria do embaixador Taylor Winthrop. A polcia est investigando o acidente.
Dana ficou ali parada, imvel.
- Matt, lembra a mulher que eu lhe disse que ia me encontrar, Joan Sinisi, a ex-secretria de Taylor Winthrop?
- Sim. Que tem ela?
- Apareceu no noticiro esta manh. Est morta.
- Qu?!
- Ontem de manh, ela me telefonou e combinou um
encontro urgente comigo. Disse que tinha alguma coisa muito
importante para me dizer. Esperei por ela no Zoolgico mais de
uma hora. Ela no apareceu.
Matt fitava-a.
- Quando falei com ela ao telefone, ela me disse que achava que estava sendo vigiada.
Sentado ali, Matt acariciava o queixo.
- Deus do cu! Que diabo temos a?
- No sei. Quero falar com a empregada de Joan Sinisi.
- Dana...
- Que foi?
- Tenha cuidado. Muito cuidado.
Quando Dana entrou no saguo do prdio de apartamentos,
encontrou um outro porteiro de servio.
- Posso ajud-la?
- Sou Dana Evans. Vim por causa da morte da Srta. Sinisi.
Foi uma terrvel tragdia.
A expresso do porteiro entristeceu-se.
- Foi, sim. Ela era uma senhora adorvel. Sempre calada
e contida.
- Ela recebia muitos visitantes? - perguntou Dana, casualmente.
- No, na verdade, no. Era muito discreta.
- Estava de servio quando o... - A lngua de Dana tropeou na palavra - ...o acidente aconteceu?
- No, senhora.
- Ento no sabe se tinha algum com ela?
- No, senhora.
- Mas tinha algum de servio aqui?
- Ah, sim. Dennis. A polcia j o interrogou. Ele tinha
sado para dar um recado quando a Srta. Sinisi caiu.
- Eu gostaria de falar com Greta, a empregada da Srta.
Sinisi.
        - Receio que seja impossvel.
        - Impossvel? Por qu?
        - Ela foi embora.
        - Para onde?
        - Disse que ia para casa. Ficou terrivelmente consternada.
        - Onde ela mora?
        O porteiro balanou a cabea.
        - No fao a mnima idia.
        - Tem algum no apartamento agora?
        - No, senhora.
Dana pensou rpido.
- Meu chefe gostara que eu fizesse uma matria para a
WTN sobre a morte da Srta. Sinisi. Ser que dava para eu ver
mais uma vez o apartamento? Estive aqui faz poucos dias.
Ele pensou por um momento e encolheu os ombros.
- No vejo problema algum. S que vou ter de subir com
voc.
- timo - disse Dana.
Subiram at a cobertura em silncio. Quando chegaram ao
trigsimo andar, o porteiro pegou uma chave mestra e abriu a
porta da Sute A.
Dana entrou. O apartamento estava exatamente como vira
a ltima vez. S que sem a Srta. Sinisi.
- Quer ver alguma coisa em particular, Srta. Evans?
- No - mentiu Dana. - S quero refrescar minha
memria.
Ela atravessou o corredor at a sala de visitas e dirigiu-se ao
terrao.
- Foi dali que a pobre senhora caiu - disse o porteiro.
Dana saiu para o terrao e aproximou-se da borda. Um muro
de 1,20m percorria todo o contorno do terrao. Era de todo
impossvel algum ter cado acidentalmente por cima dele.
Dana olhou a rua embaixo, movimentada com o trfego de
Natal e pensou. Quem poderia ser implacvel o bastante para uma
coisa dessas? Sentiu calafrios.
O porteiro viera ficar a seu lado.
- Est tudo bem com voc?
Dana respirou fundo.
- Sim, tudo bem. Obrigada.
- Quer ver mais alguma coisa?
- J vi o bastante.
O vestbulo das dependncias da polcia central apinhava-se
de delinqentes, prostitutas e turistas desesperados, cujas carteiras haviam misteriosamente desaparecido.
- Vim ver o detetive Abrams - disse Dana ao sargento
da recepo.
- Terceira porta  direita.
- Obrigada. - Dana atravessou o corredor
A porta do detetive Abrams estava aberta.
- Detetive Abrams?
Ele estava em p diante do armrio de arquivos, um homen
grandalho com uma enorme pana e cansados olhos castanhos
Voltou-se e viu Dana.
- Sim? - Reconheceu-a. - Dana Evans. Que posso fazer por voc?
- Soube que  o encarregado do... -mais uma vez aquela palavra - ...acidente da Srta. Sinisi.
- Isso mesmo.
- Pode me dizer alguma coisa sobre o caso?
Ele aproximou-se de sua escrivaninha com um punhado de
papis e sentou-se.
- No h muito o que dizer. Foi um acidente ou um suicdio. Sente-se.
Dana pegou uma cadeira.
- Tinha algum com ela quando aconteceu?
- S a empregada. Estava na cozinha na hora. Disse que no havia mais ningum l.
- Tem alguma idia de onde posso encontrar a emprega' da? - perguntou Dana.
Ele pensou por um momento.
- Ela vai aparecer no jornal esta noite, hem?
Dana sorriu-lhe.
- Certo.
O detetive Abrams levantou-se e voltou ao armrio do arquivo. Procurou por algumas pastas. Retirou um carto.
- Aqui vamos ns. Greta Miller. Connecticut Avenue
1.180. Isso resolve?
- Resolve. Obrigada, detetive Abrams.
Vinte minutos depois, Dana seguia ao volante pela Connecticut, verificando os nmeros das casas. 1.120... 1.122.
1.174... 1.176... 1.178...
O 1.180 era um estacionamento.
- Acredita mesmo que a tal Sinisi foi atirada do terrao? perguntou Jeff.
- Jeff, a gente no d um telefonema para marcar um
encontro importante e depois se suicida.  frustrante.  como
o co dos Baskervilles. Ningum ouviu o co latir. Ningum sabe
de nada.
Jeff disse:
- Isso est ficando assustador. Acho que voc no devia
levar a coisa adiante.
- No posso parar agora. Tenho de descobrir
- Se estiver certa, Dana, seis pessoas foram assassinadas.
Dana engoliu em seco.
- Eu sei.
- ...e a empregada deu  polcia um endereo falso e desapareceu - dizia Dana a Matt Baker. - Quando falei com Joan
Sinisi, ela parecia nervosa, mas certamente no me pareceu
suicida. Algum a ajudou a pular daquela varanda.
- Mas no temos prova alguma.
- No. Mas sei que estou certa. Quando a conheci, Joan
Sinisi estava tima at o momento em que mencionei o nome
de Taylor Winthrop. Foi a que ela entrou em pnico. Essa  a
primeira vez em que vi uma fenda na deslumbrante lenda que
Taylor Winthrop construiu. Um homem como ele no ajustaria contas to altas com uma secretria, a no ser que ela soubesse alguma coisa realmente grande sobre ele. 
Matt, conhece
algum que trabalhou com Taylor Winthrop que poderia ter tido
um problema com ele, algum que no tenha medo de abrir o
bico?
Matt Baker ficou pensativo por um momento.
- Voc poderia procurar Roger Hudson.
Era um nome familiar, mas ela no soube situ-lo.
- Hudson foi o lder da maioria no Senado antes de se 
aposentar e trabalhou com Taylor Winthrop em um ou dc
comits. Talvez saiba de alguma coisa.  um homem que no
tem medo de ningum.
- Poderia conseguir um encontro para mim, Matt?
- Verei o que posso fazer
Uma hora depois, Matt Baker ligava para ela.
- Marquei um encontro para voc conversar com Roger
Hudson na quarta-feira ao meio-dia, na casa dele em Georgetown.
- Obrigada, Matt. Valeu.
- Devo Lhe avisar uma coisa, Dana...
- O qu?
- Hudson pode ser muito espinhoso.
- Vou tentar no chegar perto demais.
        Matt Baker ia saindo do escritrio, quando Elliot Cromwel
        entrou.
                - Quero conversar com voc sobre Dana.
        - Algum problema?
                - No, e no quero que haja, Matt. Esse negcio de Taylo
        Winthrop que ela anda investigando...
                - Sim.
                - Ela anda levantando muita poeira, e acho que est perdendo tempo  toa. Conheci Taylor Winthrop e sua famlia
        Eram todos pessoas maravilhosas.
                - timo - disse Matt Baker. - Ento no tem problema se ela continuar.
                Elliot Cromwell olhou Matt por um momento e encolheu
        os ombros.
- Mantenha-me informado.
- Esta  uma linha segura?
- Sim, senhor.
- Bom. Estamos dependendo muitssimo da informao
que vem da WTN. Tem certeza que sua informao  confivel?
- Absoluta. Est vindo direto da torre executiva.

OITO

Preparando o caf, na manh de segunda-feira, Dana ouviu
fortes ruidos do lado de fora. Olhou pela janela e surpreendeu-se ao ver um caminho de mudana diante do prdio de apartamentos, com homens transportando mveis.
Quem poderia estar se mudando?, perguntou-se. Todos os
apartamentos estavam ocupados, e todos eram aluguis de longo
prazo.
Dana punha o cereal na mesa, quando ouviu uma batida
na porta. Era Dorothy Wharton.
- Dana, tenho uma notcia para lhe dar - disse ela, ecitada. - Howard e eu estamos nos mudando hoje para Roma.
Dana olhou para ela, atnita.
- Roma? Hoje?
- No  incrvel? Semana passada um homem veio ver
Howard. Tudo muito em segredo. Howard me pediu que eu no
dissesse nada a ningum. Bem, ontem  noite, o homem telefonou
e ofereceu a Howard um emprego na empresa dele, na Itlia, pagando trs vezes o salro atual de Howard. - Dorothy
sorria, radiante.
- Bem, isso ... isso  maravilhoso - disse Dana. - Vamos sentir sua falta.
- Ns tambm vamos sentir sua falta.
Howard aproximou-se da porta.
- Imagino que Dorothy j lhe contou a novidade, no?
- Contou. Estou felicssima por vocs. Mas no iam ficar
aqui pelo resto da vida?
Howard continuou falando.
- No d para acreditar nisso. Assim, sado do nada. E
tambm  uma grande empresa. Italiano Ripristino. Um dos
maiores conglomerados da Itlia. Eles tm uma subsidiria que
se dedica  restaurao de runas. No sei como souberam de
mim, mas mandaram um homem de avio at aqui s para me
fazer uma proposta. H muitos monumentos em Roma que precisam de restaurao. Vo at pagar o resto do nosso aluguel
aqui at o fim do ano, e recebemos de volta nosso depsito. A
nica coisa  que temos de estar em Roma amanh. Ou seja,
precisamos sair do apartamento hoje.
Dana perguntou, hesitante.
-  uma coisa muito fora do comum, no acha?
- Acho que esto com muita pressa.
- Precisam de ajuda para fazer as malas?
Dorothy balanou a cabea.
- No. Ficamos acordados a noite toda. A maior parte das
coisas vai para uma instituio de caridade. Com o novo salrio de Howard, podemos comprar coisas muito melhores.
Dana riu.
- D notcias, Dorothy.
Uma hora depois, os Whartons haviam deixado o apartamento e seguiam a caminho de Roma.
Quando Dana chegou ao escritrio, pediu a Olivia:
- Por favor, d para voc verificar uma empresa para mim?
- Claro.
- Italiano Ripristino. Acho que sua sede fica em Roma
- Certo.
Mea hora depois, Olivia entregava-Lhe um papel.
- Aqu est.  uma das maiores empresas da Europa.
Dana teve uma sensao de profundo alvio.
- timo. Fico feliz em ouvir
- Alis - disse Olivia -, no  uma empresa privada.
- No?
- No.  uma estatal do governo taliano.
Quando Dana chegou com Kemal da escola naquela tarde, un
homem de meia-idade, usando culos, mudava-se para o apartamento dos Whartons.
Quinta-feira, o dia do encontro de Dana com Roger Hudsor
comeou infernal.
Na primeira reunio do jornal da televiso, Robert Fenwicl
disse:
- Parece que temos problemas para a transmisso do programa desta noite.
- Desembuche - disse Dana.
- Sabe aquela equipe que mandamos para a Irlanda? Da
que amos usar o filme esta noite?
- Sim?
- Eles foram presos. E todo o equipamento confiscado.
- Fala srio?
- Nunca brinco com irlandeses. - Estendeu uma foLha de papel a Dana. - E aqui est nossa matria principal.
sobre o banqueiro de Washington que est sendo acusado
de fraude.
-  uma boa matria - disse Dana. -  a nossa exclusiva.
- Nosso departamento jurdico simplesmente acabou com
ela.
- Qu?!
- Tm medo de ser processados.
- Maravilha - disse Dana, com amargura.
- Ainda no terminei. A testemunha do caso de assassinato que marcamos para uma entrevista ao vivo esta noite...
- Sim...
- Ele mudou de idia.  avesso a aparecer na televiso.
Dana gemeu. Ainda no eram nem dez da manh. A nica
coisa que aguardava com impacincia naquele dia era seu encontro com Roger Hudson.
Quando Dana voltou da reunio, Olivia disse:
- So onze horas, Srta. Evans. Com este tempo, talvez
fosse melhor sair agora para seu encontro com o Sr Hudson.
- Obrigada, Olivia. Devo estar de volta daqui a umas duas
ou trs horas.
Dana olhou pela janela. Recomeara a nevar. Ela vestiu o
casaco, ps o cachecol e dirigiu-se para a porta. O telefone tocou.
- Srta. Evans...
Dana voltou-se.
- Telefonema para voc na linha trs.
- Agora no - disse Dana. - Tenho de sair
-  algum da escola de Kemal.
- Qu?! - Dana voltou correndo para sua mesa. -Al...
- Srta. Evans?
- Sim.
- Aqui  Thomas Henry
- Ol, Sr Henry. Est tudo bem com Kemal?
- Realmente no sei como responder a essa pergunta.
Lamento muito ter de lhe dizer isso, mas Kemal est sendo expulso.
Dana imobilizou-se, chocada.
- Expulso. Por qu? Que foi que ele fez?
- Talvez seja melhor discutirmos pessoalmente. Eu lhe
agradeceria se viesse peg-lo.
- Sr Henry ..
- Eu explico quando chegar aqui, Srta. Evans. Obrigado,
Dana reps o receptor no lugar, aturdida. Que poderia ter
acontecido?
- Est tudo bem? - perguntou Olivia.
- Fantstico - gemeu Dana. - S faltava essa para
a manh ficar simplesmente perfeta.
- Posso fazer alguma coisa?
- Reze uma orao extra para mim.
Mais cedo naquela manh, quando Dana deixou Kemal na escola, acenou-lhe adeus com a mo e o carro se afastou, Ricky
Underwood observava a cena.
Quando Kemal passou por ele, Underwood dsse:
- Ei, seu heri de guerra. Sua me deve estar realmente
frustrada. voc s tem um brao, portanto quando brinca de
sacanagem com ela...
Os movimentos de Kemal foram quase rpidos demais para
ser vistos. Lanou a perna  frente e o p atingiu em cheo e
com muita fora a virilha de Underwood; quando ele gritou e
comeou a curvar-se, Kemal disparou o joelho acima e quebrou-lhe o nariz. Sangue esguichou no ar
Kemal curvou-se sobre o garoto gemendo no cho.
- Da prxima vez, eu acabo com voc.
Ao volante, Dana dirigiu-se o mais rpido que pde para a Escola Intermediria Theodore Roosevelt, imaginando o que teria acontecido. Seja o que for, tenho de convencer 
Henry a manter
Kemal na escola.
Thomas Henry esperava Dana em seu gabinete com Kemal
sentado na cadeira defronte. Ao entrar, ela teve uma sensao
de dj vu.
- Srta. Evans.
- Que aconteceu? - perguntou Dana.
- Seu filho quebrou o nariz e o malar de um garoto. Ele
teve de ser levado de ambulncia para o pronto-socorro.
Dana olhou para ele, descrente.
- Como... como pde acontecer isso? Kemal s tem um
brao.
- Sim - disse Thomas Henry, sisudo. - Mas tem duas
pernas. Ele quebrou o nariz do garoto com o joelho.
Kemal examinava o teto.
Dana voltou-se para ele.
- Voc conseguiu fazer isso?
Ela baixou o rosto.
- Foi fcil.
- V o que digo, Srta. Evans? - perguntou Thomas
Henry - Toda a atitude de Kemal ... eu... eu no sei como
descrev-la. Receio que no podemos mais suportar o comportamento de Kemal. Sugiro que encontre uma escola mais adequada para ele.
Dana disse, sria.
- Sr Henry, Kemal no provoca brigas. Tenho certeza que
se entrou numa teve um bom motivo para isso. O senhor no
pode...
O Sr Henry interrompeu-a, com firmeza.
- J tomamos nossa deciso, Srta. Evans - disse, com um
tom irrevogvel.
Dana respirou fundo.
- Est bem. Vamos procurar uma escola que seja mais
compreensiva. Vamos, Kemal.
Kemal levantou-se, lanou um olhar furioso ao Sr Henry e
saiu do gabinete atrs de Dana. Dirigiram-se para o ptio em
silncio. Dana conferiu as horas no relgio de pulso. J estava
atrasada para o encontro e no tinha onde deixar Kemal. Vou
ter de lev-lo comigo.
Quando entraram no carro, ela disse:
- Tudo bem, Kemal. Que aconteceu?
Em hiptese alguma, ele lhe contaria o que Ricky Underwood disse.
- Peo muitas desculpas a voc, Dana. A culpa foi minha.
Legal.
        A propriedade de Hudson aninhava-se em dois mil hectares de
        terreno numa rea exclusiva de Georgetown. A casa era uma
        manso de estilo georgiano de trs andares, invisvel da rua.
        Tinha o exterior branco e uma longa e sinuosa entrada para
        carros levando at a fachada da frente.
                Dana parou o carro diante da casa. Olhou para Kemal.
                - Voc vem comigo.
                - Por qu?
                - Porque est frio aqui fora. Venha.
                Dana dirigiu-se at a porta da frente e Kemal seguiu-a, relutante. Ao chegar, virou-se para ele.
                - Kemal, estou aqui para fazer uma entrevista muito importante. Quero que fique calado e seja educado. Certo?
                - Certo.
                Dana tocou a campainha. A porta foi aberta por um homem gigantesco com uniforme de mordomo e uma expresso
        sorridente.
                - Srta. Evans?
- Sim.
- Sou Cesar. O Sr. Hudson est esperando. - Olhou para
Kemal e depois para Dana. - Queiram me dar seus casacos,
por favor - Um momento depois, pendurava-os no armrio
de visitas no vestbulo. Kemal continuou olhando para Cesar,
que se elevava bem acima dele.
- Qual a sua altura?
- Kemal! - censurou Dana. - No seja grosseiro.
- Oh, est tudo bem, Srta. Evans. J estou acostumado.
- Voc  mais alto do que Michael Jordan? - perguntou
Kemal.
- Receio que no - disse o mordomo. - S tenho dois
metros e quinze. Venham por aqui, por favor
A entrada era enorme, um corredor comprido com piso de
madeira macia, espelhos antigos e mesas de mrmore. Ao longo das paredes viam-se prateleiras com valiosas estatuetas de
cermica da dinastia Ming e esttuas de opalina Chihuly.
Dana e Kemal seguiram Cesar pelo longo corredor at uma
sala de estar um degrau abaixo, com paredes amarelo-claras e
madeiramento branco. O cmodo era decorado com sofs confortveis, mesas de canto Queen Anne e bergres Sheraton forradas de seda amarelo-clara.
O senador Roger Hudson e a mulher Pamela sentavam-se
a um tabuleiro de gamo no fundo da sala. Levantaram-se quando Dana e Kemal foram anunciados por Cesar
Roger Hudson era um homem de cinqenta e tantos anos,
aparncia severa, frios olhos cinzentos e um sorriso cauteloso.
Tinha uma atitude reservada e distante.
Pamela Hudson era uma beldade, um pouco mais moa que
o marido. Parecia afetuosa, aberta e realista. Tinha os cabelos
louros e um trao de grisalho que ela no se dera o trabalho de
disfarar
- Lamento muitssimo o atraso - desculpou-se Dana.
Sou Dana Evans. Este  meu filho, Kemal.
- Sou Roger Hudson. Esta  minha mulher, Pamela.
Dana dera uma olhada em Roger Hudson na Internet. Seu
pai tinha sido dono de uma pequena siderurgia, as Indstri
Hudson. Roger Hudson a ampliou e transformou num conglomerado mundial. Era bilionrio, foi o lder da maioria no Senado e, durante um perodo, chefiou a Comisso 
das Foras
Armadas. Afastou-se dos negcios, aposentou-se e hoje era
conselheiro poltico da Casa Branca. Vinte e cinco anos antes
tinha-se casado com uma beldade da alta-roda, Pmela Donnel
Os dois eram figuras de destaque na sociedade e influentes na
poltica de Washington.
- Kemal, estes so o Sr e a Sra. Hudson - disse Dana.
Olhou para Roger - Desculpe-me por traz-lo, mas...
- Fez muitssimo bem - disse Pamela Hudson. - Sabemos tudo sobre Kemal.
Dana olhou para ela, surpresa.
-  mesmo?
- Sim. Muita coisa foi escrita sobre vocs, Srta. Evans. Voc
resgatou Kemal de Sarajevo. Fez uma coisa maravilhosa.
Ainda em p, Roger Hudson permaneceu calado.
- Que posso servir a vocs? - perguntou Pamela Hudson.
                - Para mim, nada, obrigada - disse Dana.
                Olharam para Kemal. Ele fez que no com a cabea.
                - Sentem-se, por favor - Roger Hudson e a mulher acomodaram-se no sof. Dana e Kemal em duas poltronas diante
        deles.
                Roger Hudson disse, sem rodeios:
                - No sei ao certo por que est aqui, Srta. Evans. Mas
        Baker me pediu que a recebesse. Que posso fazer por voc?
- Eu gostaria de conversar com o senhor sobre Taylor
Winthrop.
Roger Hudson franziu as sobrancelhas.
- Sobre o qu?
- Sei que o senhor trabalhou com ele, no foi?
- Sim. Conheci Taylor quando era nosso embaixador na
Rssia. Na poca eu chefiava a Comisso das Foras Armadas.
Fui para a Rssia avaliar a capacidade de armamento deles.
Taylor passou dois ou trs dias com nosso comit.
- O que achou dele, Sr. Hudson?
Ele fez uma pausa, pensativo.
- Para falar com toda a sinceridade, Srta. Evans, no fiquei muito impressionado com todo aquele charme. Mas  preciso que lhe diga: achei o homem muito competente.
Kemal, entediado, olhou em volta, levantou-se e entrou na
sala contgua.
- Sabe se o embaixador Winthrop envolveu-se em algum
problema quando estava na Rssia?
Roger Hudson lanou-Lhe um olhar perplexo.
- Acho que no entendi bem. Que tipo de problema?
- Alguma coisa... alguma coisa em que teria feito inimigos. Quer dizer, inimigos realmente mortais.
Roger Hudson balanou a cabea, devagar.
- Srta. Evans, se alguma coisa como essa tivesse acontecido, no apenas eu, mas o mundo inteiro teria sabido. Taylor
Winthrop levava uma vida muito pblica. Permita-me perguntar: aonde pretende chegar com essas perguntas?
Dana respondeu, sem graa.
- Achei que talvez Taylor Winthrop pudesse ter feito alguma coisa a algum ruim o bastante para dar motivo de querer assassin-lo e  sua famlia.
Os Hudsons arregalaram os olhos para ela.
Dana apressou-se em continuar:
- Sei que parece meio improvvel, mas aquelas mortes
violentas de todos eles, em menos de um ano, tambm so muito
estranhas.
Roger Hudson replicou, brusco:
- Srta. Evans, j vivi tempo suficiente para saber que tudo
 possvel, mas isso... em que se baseia?
- Se est se referindo a provas, no tenho nenhuma.
- No estou surpreso. - Ele hesitou. - Ouvi dizer que..
- Sua voz extinguiu-se. - Esquea.
As duas mulheres olhavam para ele.
Pamela disse, suavemente:
- No est sendo gentil com a Srta. Evans, querido. O que
 que ia dizer?
Ele deu de ombros.
- No  nada de importante. - Virou-se para Dana. Quando estive em Moscou, havia um boato de que WinthroF
andava envolvido em algum tipo de acordo secreto com os russos. Mas no dou ouvidos a rumores, e estou certo de que voc
tambm no, Srta. Evans. - Seu tom era quase de reprovao
Antes que Dana pudesse responder, houve um barulho de
queda estrondosa vindo da biblioteca contgua.
Pamela Hudson levantou-se e correu em direo ao barulho. Roger e Dana seguiram atrs. Pararam diante da porta. Na
biblioteca, um vaso Ming azul cara no cho e espatifara-se.
Kemal estava ao lado.
- Oh, meu Deus - disse Dana, horrorizada. - Me desculpem. Kemal, como voc...?
- Foi um acidente.
Dana virou-se para os Hudsons, o rosto vermelho de embarao.
- Lamento muitssimo. Claro, fao questo de pagar. Eu...
- Por favor, no se preocupe com isso - disse Pamela
Hudson com um sorriso simptico. - Nossos cachorros fazem
muito pior.
A expresso de Roger Hudson ficou sinistra. Ele ps-se a
dizer alguma coisa, mas o olhar da esposa o deteve.
Dana baixou os olhos para os restos do vaso. Na certa valia
uns dez anos de meu salrio, pensou.
- Por que no voltamos para a sala de estar? - sugeriu
Pamela Hudson.
Dana seguiu os Hudsons, com Kemal ao lado.
- No saia de junto de mim - resmungou ela, furiosa.
Os quatro tornaram a sentar-se.
Roger Hudson olhou para Kemal.
- Como perdeu seu brao, filho?
Dana surpreendeu-se com a franqueza da pergunta, mas
Kemal respondeu, prontamente:
- Uma bomba.
- Entendo. E seus pais, Kemal?
Desta vez, houve uma ligeira hesitao.
- Os dois foram mortos num ataque areo junto com minha irm.
Roger Hudson grunhiu.
- Malditas guerras.
Nesse momento, Cesar entrou na sala.
- O almoo est servido.
O almoo foi delicioso. Dana achou Pamela simptica e encantadora e Roger Hudson fechado e retrado.
- Em que est trabalhando agora? - perguntou Pamela
Hudson a Dana.
- Estamos em fase de preparao de um novo programa
chamado Linha do Crime. Vamos denunciar algumas pessoas que
saram impunes de crimes cometidos e tentar ajudar pessoas na
priso que so inocentes.
Roger Hudson disse:
- Washington  um grande lugar para se comear. Est
cheia de hipcritas metidos a ntegros em cargos elevados que
j se safaram de todo tipo de crime que se possa imaginar
- Roger faz parte de vrios comits de reforma governamental - disse Pamela Hudson, orgulhosa.
- E so muitos os que se do bem - grunhiu o marido.
- A diferena entre certo e errado parece que passou a ser
indistinta. Devia ser ensinada em casa. Nossas escolas, sem
dvida, no a ensinam.
Pamela Hudson olhou para Dana.
- Por falar nisso, Roger e eu vamos dar um jantar sbado
 noite. Voc estar livre para juntar-se a ns?
Dana sorriu.
- Ah, sim, obrigada. Eu adoraria.
- Tem namorado?
- Sim. Jeff Connors.
' Roger Hudson perguntou:
- O reprter esportivo na sua estao?
- .
- Ele no  nada mau. Assisto ao jornal s vezes - disse,
- Eu gostaria de conhec-lo.
Dana sorru.
- Tenho certeza que Jeff tambm adoraria vir.
Quando Dana e Kemal iam saindo, Roger Hudson chamou a
jornalista  parte.
- Com todo respeito, Srta. Evans, acho que a sua teoria da conspirao acerca de Winthrop no passa de fantasia. Mas, em considerao a Matt Baker, estou disposto 
a
verificar por ai e ver se descubro algo que talvez possa dar
substncia a isso.
- Obrigada.
Com todo respeito, Srta. Evans, acho que a sua teoria da conspirao acerca de Winthrop no passa de fantasia. Mas, em considerao a Matt Baker, estou disposto 
a verificar por a e ver se
descubro algo que talvez possa dar substncia a isso.
Obrigada.
Fim da fita

Nove

Eles estavam no meio da reunio da manh sobre o Linha do
Crime e Dana na sala de conferncia, s voltas com meia dzia
de reprteres e pesquisadores da casa.
Olivia enfiou a cabea pela fresta da porta.
- O Sr. Baker gostaria de ver voc.
- Diga a ele que irei num minuto.
- O chefe est  espera.
- Obrigada, Abbe. Voc est com uma aparncia supersaudvel.
Abbe confirmou com a cabea.
- Finalmente tive uma boa noite de sono. Nos ltimos,
- Dana? Venha c - gritou Matt.
- Continua na prxima - disse Abbe.
Dana entrou no escritrio de Matt.
- Como foi o encontro com Roger Hudson?
- Tive a sensao de que ele no ficou interessado. Acha
que minha teoria  maluca.
- Eu disse que ele no era o Sr Calor Humano.
- Parece no se impressionar mais com nada. A mulher
dele  um amor. Voc precisava ouvi-la sobre o tema da loucura da sociedade de Washington. Falando da maldade das pessoas.
- Eu sei. Ela  uma senhora maravilhosa.
Dana entrou correndo na sala de jantar executiva de Elliot
Cromwell.
- Junte-se a mim.
- Obrigada. - Dana sentou-se.
- Como vai Kemal?
Dana hesitou.
- No momento, receio que com um problema.
- ? Que tipo de problema?
- Kemal foi expulso da escola.
- Por qu?
- Se meteu numa briga e mandou um garoto para o hospital.
- Bem, ele fez por merecer
- Tenho certeza que a briga no foi culpa de Kemal - disse Dana, defensiva. - Os garotos o vivem provocando porque s tem um brao.
- Acho que deve ser muito difcil mesmo para ele - disse Elliot Cromwell
- , sim. Estou tentando arranjar-Lhe uma prtese. Mas
parece que h problemas.
- Em que srie Kemal est?
- Stima.
Ellot Cromwell ficou pensatvo.
- Conhece a Escola Preparatria Lincoln?
- Oh, sim. Mas sei que  muito difcil entrar - Acrescentou: - E meu medo  que as notas de Kemal no sejam
muito boas.
- Tenho alguns contatos l. Quer que eu fale com algum?
- Eu...  muito gentil da sua parte.
- Ser um prazer.
No dia seguinte, Elliot Cromwell mandou chamar Dana.
- Tenho boas notcas para voc. Falei com a diretora da
Escola Preparatria Lincoln e ela aceitou matricular Kemal
numa base experimental. Pode lev-lo l amanh?
- Claro. Eu... - Dana levou algum tempo para absorver
a notcia. - Oh, sso  maravilhoso! Estou to feliz. Muitssimo obrigada. Realmente, fico muito grata.
- Quero que saiba que aprecio voc, Dana. Acho que foi
maravilhoso ter trazido Kemal para este pas. voc  uma pessoa muito especial.
- Eu... obrigada.
Quando Dana saiu do escritrio, pensou: Isso exigiu muita
influncia. E muita bondade.
A Escola Preparatria Lincoln era um imponente complexo que
consistia num grande prdio eduardiano, trs anexos menores,
jardins espaosos e bem-cuidados e campos de esportes extensos com uma grande variedade de equipamentos.
Ao pararem dante da entrada, Dana disse:
- Kemal, esta  a melhor escola de Washington. voc pode
aprender um monto de coisas aqui, mas precisa ter uma atitude positiva nela. Entende?
- Moleza.
- E no pode se meter em brigas.
Kemal no respondeu.
Os dois foram conduzidos ao escritrio de Rowana Trott,
diretora da escola, uma mulher com uma aparncia atraente e
um jeito muito amistoso.
- Bem-vindos-disse ela. Virou-se para Kemal. -J ouvi
falar muito de voc, rapaz. Estvamos todos aguardando com
impacincia t-lo aqui conosco.
Dana esperou Kemal dizer alguma coisa. Como ele ficou
calado, ela disse:
- Kemal tambm no v a hora de comear a estudar aqui.
Ele ficou ali, imvel, sem nada responder.
Uma senhora idosa entrou no escritrio. A Sra. Trott apresentou-os:
- Esta  Becky Becky, este  Kemal. Por que no lhe mostra a escola? Leve-o para conhecer alguns dos seus futuros professores.
- Claro. Venha por aqui, Kemal.
Kemal lanou um olhar suplicante a Dana e virou-se em
seguida, saindo atrs de Becky
- Quero explicar a situao de Kemal - comeou Dana.
- Ele...
A Sra. Trott interrompeu-a.
- No precisa, Srta. Evans. Elliot Cromwell me falou da
situao, dos antecedentes e de tudo por que ele passou. Sei
que sofreu mais que qualquer criana deveria sofrer em toda a
vida, e estamos dispostos a fazer concesses por causa disso.
- Obrigada - disse Dana.
- Pedi uma transcrio das notas dele  Escola Intermediria Theodore Roosevelt. Vamos ver se conseguimos melhor-las.
Dana fez que sim com a cabea.
- Kemal  um menino muito inteligente.
- Tenho certeza que sim. As notas em matemtica provam isso. Vamos tentar dar-lhe um incentivo para que se destaque em todas as outras matrias.
- O fato de s ter um brao  muito traumtico para ele
- disse Dana. - Espero conseguir resolver isso.
A Sra. Trott concordou com a cabea, compreensiva.
- Claro.
Quando Kemal terminou o passeio pela escola e voltava con
Dana para o carro, ela disse:
- Sei que voc vai gostar daqui.
Ele ficou calado.
-  uma escola linda, no ?
-  um p no saco.
Dana parou.
- Por qu?
A voz de Kemal saiu engasgada.
- Eles tm um monte de quadras de tnis e um campo de
futebol e eu no posso... - Os olhos encheram-se de lgrimas.
Dana abraou-o.
- Lamento, querido. - E pensou consigo: Tenho de fazer
alguma coisa em relao a isso.
O jantar na casa dos Hudsons na noite de sbado foi uma festa
deslumbrante, em black tie. As belas salas estavam cheias dos
poderosos e badaladores da capital do pas, entre eles o secretrio de Defesa, vrios membros do Congresso, o presidente do
Federal Reserve e o embaixador da Alemanha.
Roger e Pamela esperavam na porta quando Dana e Jeff
chegaram. Dana apresentou-lhes Jeff.
- Gosto da sua coluna de esportes e das suas transmisses
na TV - disse Roger Hudson.
- Obrigado.
- Quero apresentar a vocs alguns dos nossos convidados - disse Pamela.
Muitos dos rostos eram conhecidos, e os cumprimentos foram cordiais. Parecia que a maioria dos convidados era f de
Dana ou de Jeff, ou dos dois.
Quando ficaram a ss por um momento, Dana disse:
- Meu Deus. A lista de convidados parece o Wrw's Who.
Jeff pegou-lhe a mo.
- Voc  a maior celebridade aqui, querida.
- De jeito nenhum - disse Dana. - Sou apenas...
Nesse momento, Dana viu o general Victor Booster e Jackstonee vindo na direo dos dois.
- Boa noite, general - disse Dana.
Booster olhou para ela e disse, com rudeza:
- Que diabos est fazendo aqui?
Dana enrubesceu.
- Isto  um acontecimento social - disse o general, irritado. - No sabia que a mdia tinha sido convidada.
Jeff olhou furioso para o general Booster.
- Espere a! Temos tanto direito...
Victor Booster ignorou-o. Curvou-se para perto de Dana.
- Lembra do que prometi se voc continuasse procurando problema? - Afastou-se.
Jeff lanou-lhe um olhar, incrdulo.
- Nossa. Que foi que deu nele?
Jack Stone ficou ali, imvel, a cara vermelha.
- Eu... eu lamento terrivelmente. O general fica assim de
vez em quando. Nem sempre tem muito tato.
- Ns notamos - disse Jeff, glido.
O jantar propriamente dito foi fantstico. Diante de cada casal, havia um cardpio com uma linda caligrafia.
Blinirussa com caviar, beluga e queijo cremoso light temperado com ladca
Sopa de faiso embaixador com essncia de trufa branca e aspargos verdes
foie gras  bismarck com alface de Boston, pimenta em gro e molho de vinagre de xerez
lagosta do maine  termidor caramelada, com molho de champanhe de mormay
fil  wellington com batata assada e legumes refogados  orloff
sufl de chocolate quente com licr de raspa de casca de laranja e flocos de chocolate, servidas com molho de caramelo.
Um banquete luculiano.
Para sua surpresa, Dana viu-se sentada ao lado de Roger Hudson. Coisa de Pamela, pensou.
                - Pamela me disse que Kemal est matriculado na Escola
        Preparatria Lincoln.
                Dana sorriu.
                - , est. Elliot Cromwell conseguiu isso. Ele  umhomem admirvel.
                Roger Hudson confirmou com a cabea.
                - Foi o que ouvi dizer
                Ele hesitou por um momento.
                - Pode no significar nada, mas parece que pouco antes
        de Taylor Winthrop tornar-se nosso embaixador na Rssia, ele
        disse a alguns amigos que tinha se retirado em definitivo da vida
        pblica.
                Dana franziu o cenho.
                - E depois aceitou o posto de embaixador na Rssia?
- Sim.
Estranho.
No caminho de volta para casa, Jeff perguntou a Dana:
- Que foi que voc fez para arranjar um f to ardoroso
quanto o general Booster?
- Ele no quer que eu investigue as mortes na famlia
Winthrop.
- Por que no?
- No explicou. S ladrou.
Jeff disse, devagar:
- A mordida dele  pior que o latido, Dana. Ele  um
pssimo inimigo de se ter
Ela lanou um olhar curioso a Jeff.
- Por qu?
-  chefe da FRA, a Agncia Federal de Pesquisa.
- Eu sei. Eles desenvolvem tecnologia para ajudar os pases subdesenvolvidos a aprender produo moderna e...
Jeff disse, fazendo uma careta:
- E no  que existe mesmo Papai Noel?
Dana olhou para ele, sem entender
- De que est falando?
- A agncia  uma fachada. A verdadeira funo da FRA 
espionar os servios secretos estrangeiros e interceptar suas comunicaes.  irnico. "Frater" quer dizer irmo, em latim... s que
esse  o Grande Irmo e, certo como o diabo, o Grande Irmo est
de olho em todo mundo. So mais dissimulados at que a NSA.
Dana disse, pensativa:
- Taylor Winthrop tambm j foi chefe da FRA. Interessante.
- Se eu fosse voc, ficaria o mais longe possvel do general Booster
                -  o que pretendo.
        - Sei que voc tem um problema com baby-sitter esta noite, meu bem, por isso se tiver de ir para casa...
                Dana aconchegou-se em Jeff.
                - De jeito nenhum. A baby-sitter pode esperar. Eu no.
        Vamos para sua casa.
                Ele abriu um largo sorriso.
                - Achei que voc nunca ia me pedir isso.
Jeff morava num pequeno apartamento num prdio de quatro
andares, na Madison Street. Levou Dana para o quarto.
- Vai ser timo quando nos mudarmos para um apartamento maior - disse. - Kemal precisa ter seu prprio quarto.
Por que no...
- Por que a gente no pra de falar? - sugeriu Dana.
Jeff abraou-a.
- Grande idia. - Chegou por trs dela e curvou as
mos em seu quadril, acariciando-a devagar com movimentos suaves. Comeou a despi-la. - Sabe que voc tem um
corpo lindo?
- Todos os homens me dizem isso - brincou Dana. - 
o falatrio da cidade. Est planejando tirar suas roupas?
- Vou pensar no assunto.
Dana virou-se de frente para ele e comeou a desabotoarlhe a camisa.
- Sabe que voc  uma imoral?
                Ela sorriu.
                - Pode apostar
                Quando Jeff terminou de despir-se, Dana esperava por ele
        na cama. Aconchegou-se no vero quente de seus braos. Ele
        era um amante sensacional, sensual e carinhoso.
                - Eu te amo muito - sussurrou ela.
- Eu te amo, minha querida.
Quando ele ia pux-la para junto de si, tocou um celular
-  o seu ou o meu?
Eles riram. Tocou mais uma vez.
- O meu - disse Jeff. - Deixe tocar
- Talvez seja importante.
- Oh, est bem.
Jeff sentou-se, descontente. Pegou o telefone.
- Al... - A voz mudou. - No, tudo bem... Fale... Claro.... Tenho certeza que no h nada com que se preocupar. Na
certa  s estresse.
A conversa continuou por mais cinco minutos.
- Certo... V com calma... timo... Boa noite, Rachel. Desligou o telefone.
No  terrivelmente tarde para Rachel telefonar para Jeff?
- Algum problema, Jeff?
- No, acho que no. Rachel est trabalhando demais. S
precisa de um descanso. Vai ficar bem. - Tomou Dana nos
braos e perguntou, carinhoso: - Onde estvamos? - Puxou
o corpo nu dela para junto de si e a magia comeou.
Ela esqueceu os problemas com os Winthrops, Joan Sinisi,
generais, governantas, Kemal e escolas, e a vida tornou-se uma
alegre e apaixonante comemorao. Mais tarde, disse, relutante:
- Receio que esteja na hora de Cinderela transformar-se
numa abbora, querido.
- E que abbora! Vou preparar minha carruagem.
Ela baixou os olhos e correu-os pelo corpo dele.
- Acho que j est pronta. Mais uma vez?
Quando Dana chegou em casa, a mulher do servio de acompanhantes esperava impaciente para ir embora.
- Uma e meia da manh -disse, acusadora.
- Desculpe. Fiquei amarrada. - Dana deu-lhe um dinheiro extra. - Tome um txi - disse. -  perigoso sair a essa
hora. Vejo-a amanh.
A bab disse:
- Srta. Evans, acho que devia saber ..
- Sim?
- Toda noite, Kemal fica me atormentando, querendo
saber quando voc vai voltar. Essa criana  muito insegura.
- Obrigada. Boa noite.
Dana entrou no quarto de Kemal. Acordado, jogava um jogo
no computador
- Oi, Dana.
- Voc j devia estar dormindo, meu chapa.
- Eu estava esperando voc. E a, se divertiu?
- Foi timo, querido, mas senti sua falta.
Kemal desligou o computador
- Voc vai sair toda noite?
Dana pensou em todas as emoes por trs da pergunta.
- Vou tentar passar mais tempo com voc, querido.
O telefonema chegou inesperadamente.
- Dana Evans?
- Sim.
- Aqui  o Dr. Joel Hirschberg. Trabalho na Fundao
Infantil.
Dana ouvia, intrigada.
- Sim?
- Elliot Cromwell me disse que voc lhe explicou que estava tendo problemas para conseguir um implante de brao para
seu filho.
Dana pensou por um momento.
- Sim, acho que disse.
- O Sr Cromwell me contou o histrico. Esta fundao
foi criada para ajudar crianas de pases arrasados por guerra.
Pelo que ele me disse, seu filho se inclui no programa. Ser que
no gostaria de traz-lo aqui para eu examin-lo?
- bem, eu... bem, sim, claro. - Marcaram o encontro para
o dia seguinte.
Quando Kemal chegou da escola, Dana disse, animada.
- Amanh vamos a um mdico para conseguir um novo
brao para voc. Gostaria disso?
Kemal pensou.
- No sei. No vai ser um brao de verdade.
- Vai ser o mais parecido com um brao de verdade que
podemos conseguir. Est bem, meu chapa?
- Legal.
O Dr Joel Hirschberg era um homem de seus quarenta e tantos anos, atraente, com a fisionomia sria e uma aparncia d
tranqila competncia.
Depois que ela e Kemal o cumprimentaram, Dana disse:
- Doutor, quero explicar de sada que teremos de combinar algum tipo de acordo financeiro, porque eu...
O Dr. Hirschberg interrompeu-a.
- Como Lhe disse ao telefone, a Fundao Infantil foi criada para ajudar crianas de pases arrasados por guerra. As despesas so por nossa conta.
' Dana sentiu uma onda de alvio.
' - Isso  maravilhoso. - Ela disse uma prece silenciosa
Deus abenoe Elliot Cromwell.
O Dr Hirschberg voltou-se mais uma vez para Kemal.
- Agora, vamos dar uma olhada em voc, rapaz.
Meia hora depois, disse a Dana:
- Acho que podemos reconstituir o brao e deix-lo quase novo. - Tirou um grfico da parede. - Temos dois tipos d
prtese, a mioeltrica, que  a tecnologia mais avanada e sofisticada, e um brao movido por cabo. Como podem ver aqui
o brao mioeltrico  feito de plstico e revestido por uma luva
igual a uma mo. - Sorriu para Kemal. - Parece to boa quanto o original.
Kemal perguntou:
- Ela se mexe?
O Dr. Hirschberg respondeu:
- Kemal, voc em algum momento pensa em mover sua
mo? Quer dizer, a mo que no est mais a?
- Penso - disse Kemal.
O Dr Hirschberg curvou-se  frente.
- Bem, agora, sempre que pensar nessa mo fantasma, os
msculos que funcionavam ali vo se contrair e gerar automaticamente um sinal mioeltrico. Em outras palavras, voc vai
poder abrir e fech-la apenas pensando nisso.
O rosto de Kemal iluminou-se.
- Vou? Como... como  que vou botar e tirar o brao?
- Isso  muito simples mesmo, Kemal. Basta apoiar o brao novo.  um encaixe de suco. H uma fina meia de nilon
sobre o brao. Voc no pode nadar com ele, mas pode fazer
simplesmente quase tudo mais.  como um par de sapatos. Voc
tira  noite e cala de manh.
- Quanto pesa? - perguntou Dana.
- De 170 a 450 gramas.
Dana voltou-se para Kemal.
- Que acha, desportista? Vamos experimentar?
Kemal tentava esconder a emoo.
- Vai parecer de verdade?
O Dr Hirschberg sorriu.
- Vai parecer de verdade.
- Parece maneiro. '
- Voc se tornou canhoto, portanto vai ter de desaprender
isso. Leva tempo, Kemal. Podemos faz-lo adaptar-se imediatamente, mas voc vai precisar de terapia durante algum tempo
para aprender a tornar o brao parte de si mesmo e se habituar
a controlar os sinais mioeltricos.
Kemal respirou fundo.
- Legal.
Dana abraou-o com fora.
- Vai ser maravilhoso - disse, contendo as lgrimas.
O Dr Hirschberg ficou observando os dois por algum tempo, depois sorriu.
- Vamos ao trabalho.
Quando Dana voltou para o escritrio, foi falar com Elliot
Cromwell.
- Elliot, acabamos de vir do Dr Hirschberg.
- Que bom. Espero que ele possa ajudar Kemal.
- Parece que pode. No tenho como Lhe dizer o quanto,
muito mesmo, lhe sou grata por isso.
- Dana, no h o que agradecer. Fico feliz por poder ser
til. S gostaria que me informasse do andamento da coisa.
- Eu informarei. Deus o abenoe.
- Flores! - Olivia entrou no escritrio com um imenso buqu de flores.
- Mas que lindas! - exclamou Dana. Abriu o envelope
e leu o carto. Cara Srta. Evans, o latido de nosso amigo  pior
que a mordida. Espero que se alegre com as flores. Jack Stone.
Dana examinou o carto por um momento. Interessante,
pensou. Jeff disse que a mordida dele  pior que o latido. Qual dos
dois est certo? Ela teve a sensao de que Jack Stone detestava
seu emprego na FRA. E seu chefe. Vou me lembrar disso.
Dana telefonou para Jack Stone na FRA.
- Sr Stone? S queria lhe agradecer as lindas...
- Voc est no escritrio?
- Sim. Eu...
- Telefono para voc. - Apertou a tecla tone.
Trs minutos depois, Jack Stone telefonou.
- Srta. Evans, seria melhor para ns dois que um amigo
comum no saiba que estamos conversando. Tentei mudar a
atitude dele, mas  um homem obstinado. Se algum dia precisar de mim... quer dizer, se precisar mesmo... vou Lhe dar o nmero do meu celular particular. Chegar 
a mim a qualquer hora.
- Obrigada. - Ela anotou o nmero.
- Srta. Evans...
- Sim.
- Deixe pra l. Tome cuidado.
Quando Jack Stone chegou naquela manh, o general Booster
esperava-o.
- Jack, alguma coisa me diz que aquela cadela Evans  uma
criadora de caso. Quero que comece um arquivo sobre ela. E
me mantenha no circuito.
- Deixe que eu cuido disso. - S que no haveria circuito
algum. E ele lhe enviara flores.
Na sala de jantar executiva da estao de televiso, Dana e Jeff
conversavam sobre a prtese de Kemal.
- Estou to emocionada, querido. Isso vai fazer toda a
diferena no mundo. Ele tem sido agressivo porque se sente inferior. O brao vai mudar tudo isso.
- Ele deve estar entusiasmadssimo - disse Jeff. - Eu pelo
menos estou.
- E a maravilha  que a Fundao Infantil vai pagar tudo.
Se pudermos...
O telefone celular de Jeff tocou.
- Com licena, meu bem. - Apertou um boto e falou.
- Al... Oh... - Deu uma olhada em Dana. - No... Est
tudo bem... Fale...
Dana ficou ali sentada, tentando no ouvir.
- Sim... Entendo... Certo... Provavelmente no  nada
srio, mas voc devia procurar um mdico. Onde est agora?
Brasil? Tem muito mdico bom a. Claro... Entendo... No...
A conversa parecia no terminar nunca. Jeff acabou dizendo:
- Se cuida. At logo. - Desligou.
- Rachel? - perguntou Dana.
- . Anda tendo uns problemas fsicos. Cancelou a filmagem de um curta no Rio de Janeiro. Nunca fez nada semelhante antes.
- Por que est ligando para voc, Jeff?
- Ela no tem mais ningum, meu bem. Est totalmente
sozinha.
- At logo, Jeff.
Rachel desligou com relutncia, odiando interromper a
conversa. Olhou pela janela o Po de Acar adistncia e a
Praia de Ipanema muito embaixo. Entrou no quarto e deitou-se, exausta, o dia passando meio embriagado pela cabea. tinha comeado muito bem. Naquela manh, filmou 
um comercial
para a American Express, posando na praia.
Por volta do meio-dia, o diretor disse:
- Este ltimo ficou fantstico, Rachel. Mas vamos fazer
mais um.
Ela ia dizer sim, mas ouviu-se dizendo:
- No, desculpe. No posso.
Ele a olhara, surpreso.
- Como?
- Estou muito cansada. Voc vai ter de me liberar. Voltou-se e voou para o hotel, atravessou o saguo, indo direto
para a segurana do quarto. Tremia e sentia-se nauseada. Que
 que est havendo comigo? Tinha a testa febril.
Pegou o telefone e ligou para Jeff. O prprio som da voz
dele a fez sentir-se melhor. Abenoado. Ele est sempre ali para
mim, minha linha da vida. Quando a conversa terminou,
Rachel deitou-se na cama, pensando. Ns dois tivemos bons
momentos. Ele era sempre divertido. Gostvamos de fazer as
mesmas coisas e adorvamos partilhar tudo. Como pude deixlo ir embora? Forou-se a lembrar de como o casamento tinha terminado.
Tudo comeou com um telefonema.
- Rachel Stevens?
- Sim.
- Roderick Marshall ao telefone. - Um dos mais importantes diretores de Hollywood.
Um momento depois, ele dizia na linha:
- Srta. Stevens?
- Sim?
- Roderick Marshall. Sabe quem sou?
Ela vira vrios de seus filmes.
- Claro que sim, Sr. Marshall.
- Andei olhando umas fotos suas. Precisamos de voc aqui
na Fox. Gostaria de vir a Hollywood fazer um teste para tela
grande?
Rachel hesitou por um momento.
- No sei. Quer dizer, no sei se tenho jeito para representar. Eu nunca...
- No se preocupe. Cuidarei disso. Pagaremos todas as suas
despesas, claro. Eu mesmo vou dirigir o teste. Quando  que
pode chegar aqui o mais rpido?
Rachel pensou nos compromissos.
- Em trs semanas.
- Bom. O estdio tomar todas as providncias.
Aps desligar, Rachel se deu conta de que no tinha consultado Jeff. Ele no vai se importar, pensou. De qualquer modo,
raras vezes estamos juntos.
- Hollywood2 - repetiu Jef
- Vai ser uma moleza, Jeff.
Ele fez que sim com a cabea.
- Est bem. V, sim. Na certa voc vai causar o maior
furor
- No pode ir comigo?
- Meu bem, vamos jogar em Cleveland na segunda-feira, em seguida partimos para Washington e depois Chicago. Resta
ainda um monte de jogos que no foram programados. Acho
que o time perceberia se um de seus principais lanadores desaparecesse.
; -  uma grande pena. - Ela tentou parecer descontrada.
- Parece que nossas vidas nunca andam juntas, no , Jeff?
- No com suficiente freqncia.
' Rachel ia dizer mais alguma coisa, mas pensou: No  a hora
ideal.
Rachel foi levada ao aeroporto de Los Angeles por um empregado do estdio que foi busc-la numa enorme limusine.
- Meu nome  Henry Ford. - Deu uma risadinha. Nenhuma relao. O pessoal me chama de Hank.
A limusine entrou deslizando pelo trfego. No caminho, ele
puxou conversa com Rachel.
- Primeira vez em Hollywood, Srta. Stevens?
- No. J estive l muitas vezes. A ltima foi dois anos
atrs.
- Bem, com certeza mudou muito. Est maior e melhor
que nunca. Se voc curte gla mour, vai adorar
Se eu curto glamour
- O estdio fez uma reserva para voc no Chateau Marmont.  onde ficam todas as celebridades.
Rachel fingiu ficar impressionada.
-  mesmo?
- Oh, sim. John belushi morreu ali, voc sabe, aps uma
overdose.
- Nossa!
- Gable se hospedava l, Paul Newman e Marilyn Monroe
tambm. - A relao de nomes continuou, ininterrupta.
Rachel deixara de ouvir
O Chateau Marmont ficava logo ao norte da Sunset Strip,
parecendo um castelo de um cenrio de filmagem.
Henry Ford disse:
- Venho peg-la s duas da tarde para lev-la ao estdio.
Vai se encontrar com Roderick Marshall l.
- Estarei pronta.
Duas horas depois, Rachel entrava no escritrio de Roderick
Marshall. Era um homem de seus quarenta anos, pequeno e
compacto, com a energia de um dnamo.
- Vai se alegrar por ter vindo - disse ele. - Vou fazer de
voc uma grande estrela. Rodaremos seu teste amanh. Vou
pedir a minha assistente que a leve ao guarda-roupa para escolher alguma coisa bonita para voc usar. Vai fazer o teste de uma
cena de um de nossos grandes filmes, Fim de um sonho. Amanh de manh, s sete, faremos a maquilagem e o penteado.
Imagino que nada disso seja novo para voc, hem?
Rachel disse, sem entonao:
- No.
- Est sozinha aqui, Rachel?
- Sim.
- Ento por que no jantamos juntos esta noite?
Rachel pensou por um momento.
- timo.
- Passo para peg-la no hotel s oito.
O jantar acabou sendo um acontecimento vertiginoso na cidade.
- Se voc souber aonde ir... e puder entrar .. - disse-lhe
Roderick Marshall - ...Hollywood tem algumas das boates mais
quentes do mundo.
As rodadas noturnas comearam em The Standard, um bar, restaurante e hotel da moda, en, Sunset Boulevard. Quando
passaram pela mesa da recepo, Rachel parou para apreciar.
Junto ao balco, atrs de uma janela de vidro fosco, tinha uma
pintura humana, um modelo nu.
- No  fantstico?
- Incrvel - disse Rachel.
Seguiu-se uma montagem de boates: o Bar C, escondido ao
fundo com uma placa que dizia apenas "C"... Azul, cheio d
pessoas da onda e roqueiros... The Dragonfly .. 360 Degrees..
o Liquid Kitty. Rachel achou-as to estranhas quanto seus nomes. Ao final da noite, sentia-se exausta.
Roderick Marshall deixou-a no hotel.
- Durma bem. O dia de amanh vai mudar toda a sua vida
s sete da manh, Rachel estava na sala de maquilagem. O
maquilador, Bob van Dusen, examinou-a cheio de admirao E
exclamou:
- E ainda vo me pagar por isso!
Ela riu.
- Voc no precisa de muita maquilagem. A natureza SE
encarregou disso.
- Obrigada.
Quando Rachel ficou pronta, uma mulher do figurino ajudou-a a pr o vestido que haviam ajustado na tarde do dia anterior. Um diretor assistente levou-a para o imenso 
palco de som.
Roderick Marshall e a equipe tcnica a esperavam. O diretor examinou Rachel por um momento e disse:
- Perfeita. Vamos fazer um teste de duas partes, Rachel.
Sente-se nesta cadeira que vou lhe fazer umas perguntas fora
da cmera. Seja apenas voc mesma.
- Certo. E a segunda parte?
- O pequeno teste de cena de que Lhe falei.
Rachel sentou-se e o cameraman acertou o foco. Roderick
Marshall ficou ao lado da cmera.
- Est pronta?
- Sim.
- Bom. Fique apenas relaxada. Vai se sair s mil maravilhas. Cmera. Ao. Bom dia.
- Bom dia.
- Sei que  modelo.
Rachel sorriu.
- Sou.
- Como comeou sua carreira?
- Eu tinha quinze anos. O dono de uma agncia de modelos me viu num restaurante com minha me, levantou-se e
foi falar com ela; poucos dias depois, eu me tornava modelo.
A entrevista continuou por quinze minutos descontrados,
com a inteligncia e a postura de Rachel brilhando at o fim.
- Corta! Maravilhoso! -Roderick Marshall entregou-lhe
uma cena curta de teste. - Vamos fazer um intervalo. Leia isto.
Quando estiver pronta, me avise, para rodarmos. Vai tirar de
letra, Rachel.
Rachel leu a cena. Era sobre uma mulher pedindo o divrcio ao marido. Leu-a mais uma vez.
- Estou pronta.
Rachel foi apresentada a Kevin Webster, que ia contracenar
com ela - um belo rapaz nos moldes de Hollywood.
- Tudo pronto - disse Roderick Marshall. - Vamos rodar. Cmera. Ao.
Rachel olhou para Kevin Webster
- Falei esta manh com um advogado especializado em
divrcio, Cliff:
- J me disseram. No podia ter falado comigo primeiro?
- Mas eu falei com voc. Falei de divrcio o ano passado.
No temos mais um casamento. S que voc no me ouvia, Jeff.
'- Corta - disse Roderick. - Rachel, o nome dele  Cliff.
- Desculpe - disse Rachel, sem graa.
- Vamos refazer a cena. Tomada Dois.
A cena  realmente sobre mim e Jeff, pensou Rachel. No temos
mais um casamento. Como poderamos? Levamos vidas separadas.
Mal nos vemos. Encontramos pessoas atraentes, mas no podemos
nos envolver por causa de um contrato que nada mais significa.
- Rachel!
- Desculpe.
A cena recomeou.
Quando Rachel terminou o teste, havia tomado duas decises:
Hollywood no era o seu lugar.
E ela queria o divrcio...
Deitada agora numa cama no Rio de Janeiro, sentindo-se
adoentada e exausta, pensou: Cometi um erro. Jamais devia ter
me divorciado de Jeff.
Na tera-feira, aps a escola, Dana levou Kemal ao terapeuta
com quem ele trabalhava para adaptar-se ao novo brao. Embora artificial, o brao parecia verdadeiro e funcionava bem, mas
Kemal achava difcil acostumar-se com a prtese, fsica e psicologicamente.
- O brao vai lhe dar a sensao de que est preso a um
objeto estranho - explicou o terapeuta a Dana. - Nosso trabalho  fazer com que ele o aceite como parte do seu prprio
corpo. Kemal precisa se habituar a ser mais uma vez ambidestro. A adaptao leva, em geral, um perodo de dois a trs meses. Preciso lhe avisar que s vezes esse 
perodo  muito difcil.
- A gente pode dar conta disso - tranqilizou-o Dana.
No foi to fcil assim. Na manh seguinte, Kemal saiu do quarto
sem a prtese.
- Estou pronto.
Dana lanou-lhe um olhar surpreso.
- Cad o brao, Kemal?
Ele levantou a mo esquerda, desafiante.
- Est aqui.
- Voc sabe a que me refiro. Cad sua prtese?
-  uma aberrao. No vou mais usar
- Voc vai se acostumar com ele, querido. Prometo. Precisa dar uma chance. Eu vou ajud-lo a...
- Ningum pode me ajudar. Sou um aleijado jukati...
Dana foi mais uma vez procurar o detetive Marcus Abrams e,
ao entrar, encontrou-o muito ocupado, sentado  escrivaninha,
preenchendo relatrios. Ele ergueu os olhos, carrancudo.
- Sabe o que odeio neste maldito trabalho? - Indicou a
pilha de papis. - Isto. Eu podia estar na rua me divertindo,
atirando em criminosos. Oh, esqueci. Voc  reprter, no ?
No me cite.
- Tarde demais.
- E que posso fazer por voc hoje, Srta. Evans?
- Vim para saber do caso Sinisi. Fizeram uma autpsia?
-Pro forma. - Ele pegou alguns papis na gaveta da escrivaninha.
-Encontrou alguma coisa suspeita no relatrio?
Ela viu o detetive Abrams passar os olhos pelo relatrio.
- Sem lcool... sem drogas... No. - Ergueu os olhos. Parece que a senhora estava deprimida e simplesmente decidiu
acabar com tudo.  s isso?
- S isso - respondeu Dana. ,
A parada seguinte de Dana foi no escritrio do detetive Phoenix
Wilson.
- Bom dia, detetive Wilson.
- E que a traz ao meu humilde escritrio?
- Eu gostaria de saber se tem alguma noticia sobre o assassinato de Gary Winthrop.
O detetive Wilson deu um suspiro e esfregou o lado do nariz.
- Nem uma nica maldita coisa. Eu imaginava que a essa
altura aquelas pinturas j teriam aparecido. Era com o que contvamos.
Dana quis dizer: Se eu fosse voc, no imaginaria, mas segurou a lngua.
- Sem nenhuma pista de qualquer tipo?
- Nada. Os bandidos se safaram limpos como um assobio. No temos muitos ladres de obras de arte, mas o modo de
operao  quase sempre o mesmo. Mas esse foi muito surpreendente.
- Surpreendente?
-. Esse foi diferente.
- Diferente... Como?
- Ladres de obras de arte no matam pessoas desarmadas, e no havia motivo algum para aqueles caras atirarem em
Gary Winthrop a sangue-frio. - Interrompeu-se. - Voc tem
algum interesse especial nesse caso?
- No - mentiu Dana. - De jeito nenhum. S curiosidade. Eu...
- Certo - disse o detetive Wilson. - Eu a manterei informada.
Ao terminar a reunio no escritrio do general Booster, na isolada sede da FRA, o general virou-se para Jack Stone e perguntou:
- Que est acontecendo com a tal da Dana Evans?
- Anda por a fazendo perguntas, mas acho que  inofensiva. No est chegando a lugar algum.
- No gosto que ela fique bisbilhotando por a. Chute-a
para o cdigo trs.
- Quando quer que eu comece?
- Ontem.
Dana achava-se no meio da preparao para sua prxima transmisso, quando Matt Baker entrou no escritrio dela e afundou numa poltrona.
- Acabei de receber um telefonema sobre voc.
- Meus fs nunca se cansam de mim, no ? -disse Dana,
sorrindo.
- Esse j ficou farto de voc.
- ?
- O telefonema era da FRA. Pedem que pare sua investigao sobre Taylor Winthrop. Nada oficial. Apenas o que chamam de sugesto amistosa. Parece que querem que voc 
cuide
de sua prpria vida.
-  mesmo? - exclamou Dana. Travou os olhos com
Matt. - Isso faz voc se perguntar por que, no faz? No vou
me afastar da matria s porque uma agncia do governo quer.
Tudo comeou em Aspen, quando Taylor e a mulher morreram
no incndio. Vou ser a primeira a chegar l. E se eu descobrir
alguma coisa, vai dar um grande pontap inicial para o Linha
do Crime.
- De quanto tempo precisa?
- No devo levar mais que um ou dois dias.
- V atrs dela.

ONze

Rachel precisou de um enorme esforo para mover-se. A simples locomoo de um cmodo ao outro em sua casa da Flrida
era exaustiva. No se lembrava de quando se sentira to cansada. Na certa peguei uma gripe. Jeff tinha razo. Eu devia ir a um
mdico. Um banho quente vai me relaxar...
Foi enquanto se alongava na reconfortante gua quente que
ela levou a mo ao seio e sentiu o caroo.
A primeira reao foi de choque. Depois de negao. No 
nada. No  cncer. No fumo. Fao exerccios e cuido do meu corpo.
No h histrico de cncer em minha famlia. Estou tima. Vou pedir
a um mdico que d uma olhada, mas no  cncer.
Rachel saiu da banheira, enxugou-se e deu um telefonema.
- Agncia de Modelos Betty Richman.
- Eu gostaria de falar com betty Richman. Por favor, diga
a ela que  Rachel Stevens.
Um momento depois, betty Richman estava na linha.
- Rachel! Que bom ouvir sua voz. Est tudo bem com
voc?
- Claro que sim. Por que pergunta?
- Bem, voc cancevou a filmagem do curta no Rio, e 
que talvez...
Rachel riu.
- No, no. Eu s estava cansada, Betty. Estou louca para
voltar a trabalhar.
- Que tima notcia. Todo mundo tem tentado requisitar voc.
- bem, estou pronta. Que tem na agenda?
- Espere um minuto.
Um instante depois, Betty Richman voltava  linha.
- A prxima filmagem  em Aruba. Comea semana que
vem. Voc tem muito tempo at l. Eles pediram voc.
- Adoro Aruba. Pode marcar para mim.
- J marquei. Fico muito feliz por estar se sentindo melhor.
- Sinto-me esplndida.
- Vou lhe mandar todos os detalhes.
s duas horas da tarde seguinte, Rachel tinha uma consulta
marcada com o Dr. Graham Elgin.
- Boa tarde, Dr. Elgin.
- Que posso fazer por voc?
- Estou com um pequeno cisto no seio direito e...
- Oh, j esteve no mdico?
- No, mas sei o que .  s um pequeno cisto. Conheo meu corpo. Gostaria de fazer uma microcirurgia para tir-lo. - Sorriu. - Sou modelo. No posso me permitir 
ter uma
cicatriz. S com uma mancha pequena, posso tap-la com
maquilagem. Vou viajar semana que vem para Aruba, portanto seria possvel marcar a operao para amanh ou depois de
amanh?
O Dr Elgin examinava-a. Considerando-se a situao, ela
parecia absurdamente calma.
- Primeiro me deixe examin-la, depois vou ter de fazer
uma bipsia. Mas, sim, podemos marcar a operao ainda nesta semana, se necessrio.
Rachel sorria, radiante:
- Maravilha.
O Dr. Elgin levantou-se.
- Vamos para a outra sala, sim? Vou pedir  enfermeira
que lhe traga uma bata de hospital.
Quinze minutos depois, com a enfermeira presente, o Dr
Elgin apalpava o caroo na mama de Rachel.
- Eu lhe disse, doutor,  s um cisto.
- bem, para ter certeza, Srta. Stevens, eu gostaria de fazer a bipsia. Posso faz-la aqui mesmo.
Rachel tentou no se contrair quando o Dr Elgin inseriu
uma fina agulha no lado do seio para retirar tecido.
- Pronto. No foi to ruim assim, foi?
- No. Quanto tempo...
- Vou mandar este material para o laboratrio, e amanh
mesmo posso ter um relatrio preliminar
Rachel sorriu.
- Que bom. Vou para casa arrumar a mala para Aruba.
Quando chegou em casa, a primeira coisa que Rachel fez foi
pegar duas maletas e estend-las na cama. Foi at o armrio e
ps-se a escolher roupas para levar para Aruba.
Jeanette Rhodes, a faxineira, entrou no quarto.
- Srta. Stevens, vai viajar de novo?
- Vou.
- Para onde vai desta vez?
- Aruba.
- Onde fica isso?
-  uma ilha linda no mar do Caribe, logo ao norte da
Venezuela. Um paraso. Com praias fantsticas, hotis lindos e
comida maravilhosa.
- Parece deslumbrante.
- Por falar nisso, Jeanette, quando eu estiver fora gostaria que voc viesse trs vezes por semana.
- Claro.
s nove da manh seguinte, o telefone tocou.
- Srta. Stevens?
- Sim.
- Aqui  o Dr. Elgin.
- Como vai, doutor? Conseguiu marcar a operao?
- Srta. Stevens, acabei de receber o relatrio citolgico.
Eu gostaria que viesse ao meu consultrio para podermos...
- No. Eu quero saber agora.
Houve uma ligeira hesitao.
- No gosto de discutir esse tipo de coisa ao telefone, mas
lamento lhe dizer que o relatrio preliminar mostra que voc
' tem um cncer.
Jeff estava no meio da redao de sua coluna esportiva, quando o telefone tocou. Ele atendeu.
- Al...
- Jeff... - Ela chorava.
- Rachel,  voc? Qual o problema? Que foi que houve?
- Eu... eu estou com cncer
- Oh, meu Deus. Qual a gravidade?
- No sei ainda. Tenho de fazer uma mamografia. Jeff, no
posso enfrentar isso sozinha. Sei que estou lhe pedindo muito,
mas voc poderia vir at aqui?
- Rachel, eu... Lamento, mas...
- S por um dia. S at... eu saber. - Chorava de novo.
- Rachel... - Ele se sentiu arrasado. - Vou tentar. Telefono para voc depois.
Ela soluava demais para falar
Quando Dana voltou de uma reunio de produo, disse  secretria:
- Olivia, me faa uma reserva num avio amanh para
Aspen, no Colorado. E me arranje um hotel. Oh, e vou querer
um aluguel de carro.
- Certo. O Sr Connors a est esperando na sua sala.
- Obrigada. -Dana entrou. Jeff estava ali, olhando pela
janela. - Oi, querido.
Ele virou-se.
- Oi, Dana.
Tinha no rosto uma expresso estranha. Ela olhou para ele,
preocupada.
- Est tudo bem com voc?
-  uma pergunta de duas partes - disse ele, a voz pesada. - Sim e no.
- Sente-se - disse Dana. Puxou uma cadeira defronte
da dele. - Que foi que houve?
Ele exalou um suspiro profundo.
- Rachel tem cncer na mama.
Ela sentu um pequeno choque.
- Eu... lamento muito. Ela vai ficar bem?
- Telefonou esta manh. Vo lhe informar a gravidade do
caso. Rachel est em pnico. Quer que eu v  Flrida ajud-la
a enfrentar a notcia. Eu quis primeiro falar com voc.
Dana aproximou-se de Jeff e abraou-o.
- Claro que precisa ir, Jeff. - Ela lembrou-se do almoo
com Rachel e de como ela tinha sido maravilhosa. - Eu volto
dentro de um ou dois dias.
Jeff foi at o escritrio de Matt Baker
- Tenho uma situao de emergncia, Matt. Preciso me
ausentar por alguns dias.
- Voc est bem, Jeff?
- Sim, estou.  Rachel.
- Sua ex-?
Jeff fez que sim com a cabea.
- Ela acabou de saber que tem cncer
- Sinto muito.
- De qualquer modo, ela precisa de um pouco de apoio
moral. Quero pegar um avio para a Flrida esta tarde.
- V em frente. Vou pedir a Larry que o substitua. Mande notcias.
- Pode deixar. Obrigado, Matt.
Duas horas depois, Jeff partia num avio para Miami.
O problema imediato de Dana era Kemal. No posso ir para
Aspen sem ter algum de confiana para tomar conta dele, pensou
Dana. Mas quem vai poder cuidar da limpeza, lavagem de roupa 
do garoto mais turro do mundo?
Decidiu telefonar para Pamela Hudson.
- Sinto muitssimo pelo incmodo, Pamela, mas tenho de
sair da cidade por uns dias e preciso de algum pra ficar com
Kemal. Por acaso conhece uma boa governanta com pacincia
de santa?
Houve um momento de silncio.
- Por acaso conheo, sim. O nome dela  Mary Rowane
Daley, trabalhou para ns anos atrs.  um tesouro. Vou falar
com ela e pedir que telefone para voc.
- Obrigada - disse Dana.
Uma hora depois, Olivia disse:
- Dana, tem uma tal de Mary Daley ao telefone querendo falar com voc.
Dana pegou o telefone.
- Sra. Daley?
- Sim. Ela mesma. - A voz simptica tinha um forte sotaque irlands. -A Sra. Hudson disse que talvez precisasse de
algum para tomar conta do seu filho.
- Isso mesmo - disse Dana. - Tenho de sair da cidade
por um ou dois dias. Ser que poderia dar um pulo amanh bem
cedo, digamos s sete horas, para conversarmos?
- Claro que sim. Como quis a sorte, estou livre no momento.
Ela deu o endereo  Sra. Daley
- Estarei l, Srta. Evans.
Na manh seguinte, Mary Daley chegou pontualmente s sete.
Parecendo na faixa dos cinqenta anos, era uma mulher socada
com uma aparncia jovial e um sorriso luminoso. Apertou a mo
de Dana.
- Muito prazer em conhec-la, Srta. Evans. Sempre que
posso, vejo voc na televiso.
- Obrigada.
- E cad o rapazinho da casa?
- Kemal! - chamou Dana.
Um momento depois, ele saiu do quarto. Olhou para a Sra.
Daley, a expresso do rosto dizendo: Aberrao.
A Sra. Daley sorriu.
- Kemal, no ? Nunca conheci algum chamado Kemal.
Voc parece um diabinho. - Aproximou-se dele. - Quero que
me diga quais so todos os seus pratos favoritos. Sou uma grande cozinheira. Vamos nos divertir muito juntos, Kemal.
Espero, pensou Dana, orando.
- Sra. Daley, poderia ficar aqui com Kemal enquanto eu
estiver fora?
- Claro, Srta. Evans.
- Que maravilha -disse Dana, agradecida. - Receio que
no tenha muito espao. As acomodaes para dormir so...
A Sra. Daley sorriu.
- No se preocupe. Aquele sof-cama servir muito bem.
Dana exavou um suspiro de alvio. Conferiu as horas no relgio.
- Por que no vem comigo deixar Kemal na escola? Depois pode peg-lo s 13:45.
- tima idia.
Kemal virou-se para Dana.
- Voc vai voltar, no vai, Dana?
Dana abraou-o.
- Claro que vou voltar para voc, querido.
- Quando?
- Daqui a poucos dias. - Com algumas respostas.
Ao chegar ao estdio, Dana encontrou na escrivaninha um
pacote lindamente embrulhado. Olhou-o, curiosa, e abriu-o.
Dentro, uma linda caneta de ouro. No carto, lia-se: "Querida
Dana, tenha uma viagem segura." Assinado: A Turma.
Que amor. Ps a caneta na bolsa.
Na mesma hora em que Dana embarcava num avio, um homem de macaco profissional tocava a campainha do ex-apartamento dos Whartons. A porta abriu-se e o novo inquilino
olhou para ele, fez que sim com a cabea e fechou a porta. O
homem foi at o apartamento de Dana e tocou a campainha.
A Sra. Daley abriu a porta.
- Sim?
- A Srta. Evans me mandou consertar o aparelho de TV
- Pois bem. Entre.
A Sra. Daley viu o homem ir at o aparelho de televiso e
comear a trabalhar.


DOZE

Rachel Stevens estava no Aeroporto Internacional de Miami 
espera de Jeff quando o avio chegou.
Meu Deus, ela  to linda, pensou Jeff. No d para acreditar
que esteja doente.
Rachel lanou os braos em volta do pescoo do ex-marido.
- Oh, Jeff? Obrigada por vir
- Voc est deslumbrante - tranqilizou-a Jeff. Os dois
seguiram para uma limusine  espera na sada do aeroporto. Tudo isso vai acabar no sendo nada. Voc vai ver
- Claro.
A caminho de casa, Rachel perguntou:
- Como vai Dana?
Ele hesitou. Com Rachel to doente, no queria alardear
sua prpria felicidade.
- Est tima.
- Voc  um homem de sorte por t-la. Sabia que fui
agendada para fazer uma filmagem em Aruba semana que vem?
- Aruba?
- . - Continuou: - Sabe por que aceitei esse trabalho? Porque passamos nossa lua-de-mel l. Como era o nome
do hotel onde ficamos?
- Oranjestad.
- Era lindo, no? E qual o nome daquela montanha que
subimos?
- Hooiberg.
Rachel sorriu e disse, baixinho:
- Voc no esqueceu, no ?
- Em geral, as pessoas no esquecem sua lua-de-mel,
Rachel.
Ela ps a mo no brao de Jeff.
- Foi celestial, no foi? Nunca vi praias to incrivelmente brancas como aquelas.
Jeff sorriu.
- E voc com medo de pegar um bronzeado. Enrolou-se
toda como uma mmia.
Fez-se um momento de silncio.
- Um dos meus arrependimentos mais profundos, Jeff:
Ele olhou para ela, sem entender
- Como?
- Foi a gente no ter tido um... Esquea. - Olhou para
ele e disse, em voz baixa: - Adorei ficar com voc em Aruba.
-  um lugar fantstico. Pesca, windsurf, mergulho, tnis,
golfe - disse Jeff; esquivando-se.
- E no tivemos tempo para fazer nada disso, no foi?
Jeff riu.
- Foi.
- Vou fazer uma mamografia amanh de manh. No
quero ficar sozinha durante o exame. Voc vai comigo?
- Claro, Rachel.
Quando chegaram  casa de Rachel, Jeff levou as malas para
a espaosa sala de estar e olhou em volta.
- Lindo. Muito bonito.
Ela abraou-o.
- Obrigada, Jeff.
Ele sentiu-a tremendo.
A mamografia foi feita na Torre de Radiologia, no centro de
Miami. Jeff ficou na ante-sala enquanto uma enfermeira levava Rachel para trocar de roupa e pr uma bata de hospital
Depois acompanhou-a at uma sala de raios X.
- Isso vai levar quinze minutos, Srta. Stevens. Est pronta?
- Sim. Quando posso pegar os resultados?
- Tero de vir de seu oncologista. Ele vai receber as radiografias amanh.
O oncologista chamava-se Scott Young. Jeff e Rachel entraram
no consultrio do Dr Young e sentaram-se.
O mdico olhou para Rachel por um momento.
- Lamento dizer que tenho ms notcias para Lhe dar, Srta. Stevens.
Rachel agarrou a mo de Jeff.
- Oh?
- Os resultados da bipsia e da mamografia mostram que
voc tem um cncer invasivo.
O rosto de Rachel empalideceu.
- Que... que quer dizer isso?
- Lamento dizer que vai precisar fazer uma mastectomia,
- No! - saiu instintivamente. - Voc no pode... quer
dizer, deve ter algum outro meio.
- Receio que no - disse o Dr. Young, delicadamente
- J se espalhou demais.
Rachel ficou calada por um momento.
- No posso fazer agora. Entende, tenho um compromisso para uma srie fotogrfica em Aruba semana que vem. Psso
fazer depois?
Jeff examinava o semblante preocupado do mdico.
- Quando acha que seria indicado fazer, Dr Young?
Ele voltou-se para Jeff:
- O mais cedo possvel.
Jeff olhou para Rachel. Ela tentava no chorar Quando
falou, a voz saiu trmula.
- Eu gostaria de ouvir uma segunda opinio.
- Claro.
O Dr Aaron Cameron disse:
- Lamento lhe dizer, mas cheguei  mesma concluso que
o Dr Young. Eu recomendaria uma mastectomia.
Rachel tentou manter a voz nivelada.
- Obrigada, doutor. -Tomou a mo de Jeff e apertou-a.
- Acho que no tem jeito,  isso mesmo, no ?
O Dr Young esperava-os.
- Parece que voc tinha razo -disse Rachel. - Eu simplesmente no posso... - Houve um longo e triste silncio.
Rachel acabou sussurrando: - Est bem. Se tem certeza de que
...  necessrio.
- Vamos deix-la o mais confortvel possvel - disse o
Dr Young. - Antes de oper-la, vou trazer um cirurgio plstico para discutir com voc a reconstruo de sua mama. Podemos fazer milagres hoje.
Jeff abraoua quando ela caiu em prantos.
No havia nenhum vo direto de Washington para Aspen. Dana
embarcou num avio da Delta Airlines para Denver, onde fez
uma baldeao para um avio da United Express. Depois, no
se lembrou de nada da viagem. Tinha a mente cheia de lembranas de Rachel e do tormento por que ela devia estar passando. Que bom que Jeff estar l para tornar 
tudo mais fcil. E
preocupava-se com Kemal. E se a Sra. Daley for embora antes de
eu voltar? Preciso...
A voz do comissrio chegou pelo alto-falante.
- Vamos aterrissar em Aspen daqui a poucos minutos.
Por favor, apertem os cintos e ponham os assentos na posio
vertical.
Dana comeou a concentrar-se no que tinha a fazer
Elliot Cromwell entrou no escritrio de Matt Baker
- Soube que Dana no vai apresentar os noticirios desta
noite.
- Sim,  verdade. Ela est em Aspen.
- Dando prosseguimento quela teoria sobre Taylor Winthrop?
- .
- Quero que me mantenha informado.
- Certo. - Vendo Cromwell sair, Matt pensou: Ele est
realmente interessado em Dana.
Quando desembarcou, Dana seguiu para o balco de aluguel
de carros. Dentro do terminal, o Dr Carl Ram-sey dizia ao funcionrio atrs do balco:
- Mas reservei um carro h uma semana.
O funcionrio disse, desculpando-se:
- Sei, Dr Ram-sey, mas receio ter havido uma confuso.
No temos um nico carro disponvel. H um servio de nibus do aeroporto l fora, ou posso chamar um txi para...
- Esquea - disse o mdico, e saiu enfurecido.
Dana entrou no saguo do aeroporto e foi at o balco de
aluguel de carros.
- Tenho uma reserva - disse. - Dana Evans.
O funcionrio sorriu.
- Sim, Srta. Evans. Estvamos  sua espera. - Deu-lhe
um formulrio para assinar e entregou-lhe umas chaves. - 
um Lexus branco estacionado na vaga um.
- Obrigada. Sabe me dizer como chegar ao Hotel Little
Nell?
- No tem como errar. Fica bem no meio da cidade. East
Durant Avenue, 675. Tenho certeza que vai adorar
- Obrigada - disse Dana.
Ele viu-a cruzando a porta.
Que diabo est acontecendo aqui?, perguntou-se.
Construdo num elegante estilo de chal, o Hotel Little Nell
aninhava-se no sop das pitorescas montanhas Aspen. O saguo tinha uma lareira que se estendia do piso ao teto, com um
fogo intenso ininterruptamente em chamas no inverno, e enormes vidraas com vista para as montanhas Rochosas encimadas
por neve. Sentados em sofs e confortveis poltronas por todo
o saguo, hspedes em roupas de esqui relaxavam. Dana olhou
em volta e pensou: Jeff ia adorar isso. Talvez venhamos aqui um
dia.
Aps assinar a ficha e registrar-se, Dana perguntou ao recepcionista:
- Por acaso sabe onde fica a casa de Taylor Winthrop?
Ele lanou-lhe um olhar estranho.
- A casa de Taylor Winthrop? No existe mais. Foi destruda pelo fogo at o cho.
- Eu sei. S queria ver...
- No tem mais nada l, a no ser muitas cinzas, mas, se
quiser ver, siga  esquerda at o vale Conundrum Creek. Fica a
pouco mais de nove quilmetros daqui.
- Obrigada - disse Dana. - Poderia mandar levar minhas malas para o quarto?
- Claro, Srta. Evans.
Dana saiu e voltou para o carro.
O local da casa de Taylor Winthrop, no vale Conundrum Creek,
era cercado por terras da Floresta Nacional. A casa fora uma
construo de um andar feita de pedra nativa e sequia, numa
linda e reclusa localizao com um enorme lago de castores e
um riacho que percorria toda a propriedade. A vista era espetacular E no meio daquela beleza, como uma cicatriz obscena,
viam-se os vestgios do incndio em que duas pessoas haviam
morrido.
Dana passeou pelo terreno, visualizando o que antes existira ali. Sem dvida, era uma enorme casa de um andar. Devia
ter muitas portas e janelas no nvel do terreno.
Contudo, os Winthrops no haviam conseguido escapar por
nenhuma delas. Acho melhor visitar o corpo de bombeiros.
Quando Dana entrou no prdio do corpo de bombeiros, um
homem de seus trinta anos, alto, bronzeado e de porte atltico,
aproximou-se dela. Ele na certa vive nas pistas de esqui, pensou
Dana.
- Posso ajud-la, senhorita?
- Li que a casa de Taylor Winthrop foi destruda por um
incndio e fiquei curiosa - disse Dana.
- . Isso aconteceu h um ano. Talvez a pior coisa que j
ocorreu nesta cidade.
- A que horas aconteceu?
Se ele achou a pergunta estranha, no deixou transparecer
- No meio da noite. Recebemos o telefonema s trs da
manh. Nossos carros chegaram l por volta das trs e quinze,
mas era tarde demais. A casa queimava como uma tocha. S
soubemos que tinha algum dentro depois que extinguimos o
fogo e encontramos os dois corpos. Foi um momento muito
doloroso, acredite.
- Tem alguma idia de como o incndio comeou?
Ele fez que sim com a cabea.
- Oh, sim. Foi um problema eltrico.
- Que tipo de problema eltrico?
- No sabemos exatamente, mas na vspera do incndio
algum chamou um eletricista para consertar alguma coisa na
casa.
- Mas no sabe qual foi o problema?
- Acho que foi algum defeito no sistema de alarme de
incndio.
Dana tentou parecer desinteressada.
- O eletricista que foi consert-lo... por acaso tem o nome
dele?
- No. Mas acho que a polcia talvez tenha.
- Obrigada.
Ele olhou para Dana, curioso.
- Por que est to interessada nisso?
- Estou escrevendo um artigo sobre incndios em estaes de esqui de todo o pas - respondeu ela, sria.
A delegacia de polcia de Aspen era um prdio de tijolos vermelhos de um andar, situado a dez quarteires do hotel de Dana.
O policial sentado atrs da escrivaninha ergueu os olhos e
perguntou, surpreso:
- Voc  Dana Evans, a apresentadora de TV?
- Sou.
- Sou o capito Turner. Que posso fazer por voc, srta.  Evans?
- Estou curiosa sobre o incndio que matou Taylor Vinthrop e sua mulher
- Meu Deus, que grande tragdia. O pessoal aqui ainda
no se refez do choque.
- D para entender.
- . Foi terrvel no terem conseguido salvar o casal.
- Soube que o fogo comeou por causa de algum tipo de 
problema eltrico, no foi?
- Isso mesmo.
- Poderia ter sido premeditado?
O capito Turner franziu a testa.
- Premeditado? No, no. Foi um defeito eltrico.
- Eu gostaria de conversar com o eletricista que esteve
na casa na vspera do incndio. Tem o nome dele?
- Com certeza est nos nossos arquivos. Quer que eu verifique?
- Eu Lhe agradeceria.
O capito Turner pegou o telefone, trocou algumas palavras e virou-se mais uma vez para Dana.
-  a primeira vez que vem a Aspen?
- .
- Lugar fantstico. Sabe esquiar?
- No. - Mas Jeff sabe. Quando viermos aqui...
Uma auxiliar de escritrio aproximou-se e entregou ao
capito Turner uma folha de papel. Ele passou-a para Dana.a
Tinha os seguintes dizeres: Empresa Eltrica Al Larson. Bill Kelly.
- Fica logo ali nesta rua.
- Muito obrigada, capito Turner
- Foi um prazer
Quando Dana saiu do prdio, um homem no outro lado da
rua afastou-se e falou num telefone celular
A Empresa Eltrica Al Larson ficava num pequeno prdio de
cimento cinzento. Sentado a uma escrivaninha, um clone do
homem do corpo de bombeiros, bronzeado e de compleio
atltica. Levantou-se quando Dana entrou.
- Bom dia.
- Bom dia - disse Dana. - Eu gostaria de falar com Bill
Kelly.
O homem grunhiu.
- Eu tambm.
- Desculpe, o que disse?
- Kelly Desapareceu faz quase um ano.
- Desapareceu?
- , simplesmente sumiu. No disse uma palavra. Nem
apareceu para pegar seu pagamento.
Dana perguntou, devagar:
- Voc se lembra exatamente quando foi?
- Claro que sim. Na manh daquele incndio. O grande.
Voc sabe, aquele em que morreram os Winthrops.
Dana sentiu um calafrio.
- Entendo. E voc tem alguma idia de onde o Sr Kelly est?
- No. Como eu disse, ele simplesmente desapareceu.
A distante ilha no extremo da Amrica do Sul fervilhara
azafamada durante toda a manh com a chegada de avies a
jato. Aproximava-se a hora da reunio, e os vinte e tantos participantes j se achavam sentados em poltronas na sala de um
prdio recm-construdo, fortemente vigiado e programado para
ser destrudo assim que terminasse a reunio. O orador dirigiu-se para a frente da sala.
- bem-vindos. Muito me alegra ver aqui tantos rostos
conhecidos e alguns amigos novos. Antes de comearmos nosso trabalho, sei que alguns de vocs esto preocupados com un
problema surgido h pouco. H um traidor entre ns, ameaando nos denunciar. No sabemos ainda quem . Mas Lhes
garanto que ele ser logo apanhado e sofrer o destino de todos
os traidores. Nada e ningum pode se interpor em nosso caminho.
Ouviram-se dos presentes murmrios de aprovao.
- Agora vamos comear nosso leilo silencioso. Hoje h
cinco pacotes. Comecemos com dois bilhes. Algum d o primeiro lance? Dois bilhes de dlares. Algum d trs...?

TrezE

Naquela noite, quando Dana voltou para o quarto, ps-se a
andar de um lado para o outro e parou de repente, alarmada.
Tudo parecia igual e no entanto... teve a sensao de que alguma coisa estava diferente. Teriam suas coisas sido vasculhadas?
 a hora do Chicken Little, pensou, fazendo uma careta. Pegou o
telefone e ligou para casa.
A Sra. Daley atendeu.
- Residncia da Srta. Evans.
Graas a Deus ela continuava l.
- Sra. Daley ..
- Srta. Evans!
- Boa tarde. Como est Kemal?
- Bem, s vezes ele fica meio endiabrado, mas sei dar conta
disso. Meus filhos tambm eram assim.
- Ento, est tudo... bem?
- Oh, sim.
O suspiro de Dana foi de puro alvio.
- Posso falar com ele?
- Claro. - Dana ouviu-a chamando: - Kemal,  sua me.
- Oi, Kemal. Como  que vo as coisas, amigo?
- Legal.
- E a escola?
- Maneira.
- E voc est se saindo bem com a Sra. Daley?
- Estou, ela  um barato.
 mais que um barato, pensou Dana.  um milagre.
- Quando vai voltar para casa, Dana?
- Chegarei a amanh. voc j jantou?
- Ja. Na verdade, no estava muito ruim.
Dana sentiu-se tentada a dizer: Esse  voc mesmo, Kemal?
Ficou emocionada com a mudana que sentiu nele.
- Est bem, querido. Vejo voc amanh. Boa noite.
- Boa noite, Dana.
Quando Dana se aprontava para dormir, seu telefone celular
tocou.
- Al.
- Dana?
Ela sentiu uma onda de alegria.
- Jeff! Oh, Jeff! - Abenoou o dia em que comprou un
celular internacional.
- Tive de ligar para dizer que estou morrendo de saudade.
- Eu tambm. Ainda est na Flrida?
- Estou.
- E como vo as coisas a?
- Nada bem. - Ela percebeu a hesitao na voz de Jeff.
- De fato, muito ruins. Amanh Rachel vai se submeter a uma
mastectomia.
- Oh, no!
- Ela no est reagindo bem a tudo.
- Sinto muito.
- Eu sei. Foi um golpe sujo da sorte. Querida, no agento de vontade de voltar para voc. J lhe disse que sou louco
por voc?
- Eu por voc, querido.
- Precisa de alguma coisa, Dana?
- No. - S de voc.
- E Kemal, como est?
- Est indo muito bem. Arranjei uma nova empregada da
qual ele gosta.
- Que boa notcia. No vejo a hora de estarmos mais uma
vez os trs juntos.
- Nem eu.
- Cuide-se bem.
- Pode deixar E no sei como Lhe dizer o quanto sinto por
Rachel.
- Direi a ela. Boa noite, boneca.
- Boa noite.
Dana abriu a mala e tirou uma camisa de Jeff que tinha trazido do apartamento. Colocou-a sob a camisola e abraou-a. Boa-noite, querido.
Bem cedo na manh seguinte, Dana tomou o avio de volta
para Washington. Passou no apartamento antes de ir para o
escritrio e foi recebida por uma sorridente e alegre Sra.
Daley
- Que bom v-la de volta, Srta. Evans. Esse seu filho est
me deixando exausta. - Mas disse isso com uma piscadela dos
olhos.
- Espero que no esteja lhe dando muito trabalho.
- Trabalho? Nem um pouco. Fico feliz de ver como ele
anda se saindo com o novo brao.
Dana lanou-lhe um olhar surpreso.
- Ele est usando o brao?
- Claro. Usa-o para ir  escola.
- Isso  maravilhoso. Fico muito feliz. - Conferiu as horas no relgio de pulso. - Preciso r ao estdio. Voltarei  tarde para ver Kemal.
- Ele vai ficar muito contente em v-la. Sente muito a sua
falta, voc sabe. Ande logo. Vou desfazer suas malas.
- Obrigada, Sra. Daley.
No escritrio de Matt, Dana Lhe contava o que soubera em
Aspen.
Ele olhava para ela, incrdulo.
- No dia seguinte ao do incndio, o maldto eletricista
desapareceu?
- Sem sequer buscar seu contracheque.
- E esteve na casa dos Winthrops na vspera de acontecer o incndio?
- Sim.
Matt balanou a cabea.
- Parece Alice no pas das maravilhas. Isso est ficando cada
vez mais intrigante.
- Matt, Paul Wnthrop foi o seguinte na famlia a morrer.
Morreu na Frana no muito depois do incndio. Eu gostaria
de ir at l. Quero ver se houve testemunhas do acidente de
carro.
- Certo. - Depois Matt acrescentou: - Elliot Cromwell
andou perguntando por voc. Quer que se cuide.
- Ento somos dois a querer - respondeu Dana.
Quando Kemal chegou em casa da escola, Dana o aguardava. Usava o novo brao e Dana achou que estava muito mais
calmo.
- voc voltou. - Ele deu-lhe um abrao.
- Oi, querido. Senti saudade de voc. Como fo a escola?
- No muito ruim. E sua viagem?
- tima. Trouxe uma coisa para voc. - Entregou a
Kemal uma sacola de l tecida  mo por ndios e um par de
mocassins de couro que comprou em Aspen. - Kemal, lamento, mas vou ter de me ausentar de novo alguns dias.
Dana preparou-se para a reao dele, mas Kemal disse
apenas:
- Tudo bem.
Nenhum sinal de exploso.
- Vou trazer um presente bonito pra voc.
- Um por cada dia que passar fora?
Dana sorriu.
- Eu imaginava que voc estivesse na stima srie, no
na faculdade de direito.
Instalado confortavelmente numa poltrona, com o aparelho de
televiso ligado, ele tomava um usque escocs. Na tela, Dana
e Kemal sentavam-se  mesa de jantar e a Sra. Daley servia o
que parecia um ensopado irlands.
- Huum, mas  delicioso - disse Dana.
- Obrigada. Fico feliz que goste da minha comida.
- Eu falei que ela era uma boa cozinheira - disse Kemal.
Parecia que estava na mesma sala com os trs, pensou ele,
em vez de v-los do apartamento ao lado.
- Me fale da escola, Kemal - pediu Dana.
- Gosto dos meus novos professores. A de matemtica 
legal...
- Que maravilha.
- Os garotos so muito mais simpticos nessa escola.
Acham que meu brao  maneiro.
- Aposto que sim.
- Uma das garotas na minha sala  o maior barato. Achcho
que ela gosta de mim. O nome dela  Lizzy.
- E voc gosta dela, no, querido?
- . E ela  bonita.
Ele est crescendo, pensou Dana, com uma pontada sbita e
inesperada. Quando chegou a hora de dormir, Kemal foi deitar-se e Dana entrou na cozinha para ver a Sra. Daley
- Kemal est to... to tranqilo. No tenho como Lhe
dizer como fico grata pelo que tem feito - disse Dana.
- Voc  quem est me fazendo um favor - sorriu a Sra
Daley -  como ter de novo um dos meus filhos de volta. Eles
so adultos agora, voc sabe. Kemal e eu estamos nos divertindo  bea.
- Que bom.
Dana esperou at meia-noite e, como Jeff ainda no tinha
telefonado, foi para a cama. Ficou deitada ali, imaginando o quE
ele devia estar fazendo, se fazia amor com Rachel, e sentiu-si
envergonhada por seus pensamentos.
O homem no apartamento vizinho informou:
- Tudo tranqilo.
O celular de Dana tocou.
- Jeff, querido. Onde  que voc est?
- No hospital do mdico de Rachel na Flrida. A mastectomia j terminou. O oncologista continua fazendo exames.
- Oh, Jeff! Espero que no tenha se espalhado.
- Tambm espero. Rachel quer que eu fique com ela mais
alguns dias. Eu queria lhe perguntar se...
- Claro. Voc precisa.
- Sero s mais alguns dias. Vou telefonar para o Matt e
avis-lo. Alguma coisa emocionante acontecendo por a?
Por um instante, Dana sentiu-se tentada a contar a Jeff sobre Aspen e que ela ia continuar com a investigao. Ele j tem
problemas demais na cabea.
- No - disse Dana. - Tudo tranqilo.
- Mande meu amor ao Kemal. O resto  para voc.
jeff desligou o telefone. Uma enfermeira aproximou-se.
- Sr Connors? O Dr Young gostaria de falar com o senhor
- A operao foi bem - disse o Dr Young a Jeff -, mas
ela vai precisar de muito apoio emocional. Vai se sentir menos
mulher e quando acordar vai entrar em pnico. Voc tem de
faz-la entender que est tudo bem e que nada tem a temer
- Entendo - disse Jeff:
- E o medo e a depresso vo mais uma vez voltar quando ela comear os tratamentos de radiao para tentar impedir
a disseminao do cncer. Pode ser muito traumtico.
Jeff ficou ali sentado, pensando no que aguardava por ele
no futuro prximo.
- Rachel tem algum para cuidar dela?
- Eu. - Ao dizer isso, ele compreendeu que era a nica
pessoa que Rachel tinha.
O vo da Air France para Nice foi tranqilo. Dana ligou o laptop
para reexaminar a informao que tinha reunido at ento.
Instigante, mas sem a menor dvida inconclusiva. Provas, pensou. No h reportagem sem provas. Se eu conseguir...
- Vo agradvel, no?
Dana voltou-se para o homem sentado a seu lado. Alto,
atraente e com sotaque francs.
- , sim.
- J esteve na Frana antes?
- No - disse ela. -  a primeira vez.
Ele sorriu.
- Ah, voc vai ficar encantada.  um pas mgico. Sorriu cheio de sentimento e curvou-se para perto dela. -Tem
amigos para lhe mostrar as belezas?
- Vou me encontrar com meu marido e trs filhos - respondeu Dana.
- Dommage. - Assentiu com a cabea, afastou-se e pgou seu exemplar do France-Soir.
Ela retornou ao computador. Um artigo chamou-lhe a ateno. Paul Winthrop, que morrera num acidente, tinha um passatempo.
Corrida de automveis.
Quando o avio da Air France pousou no aeroporto de Nice
Dana entrou no movimentado terminal e dirigiu-se ao balco
de aluguel de carros.
- Meu nome  Dana Evans. Tenho uma...
O recepcionista ergueu os olhos.
- Ah! Srta. Evans. Seu carro est pronto. - Entregou-lhe um formulrio. - Basta assinar aqui.
Isso  que  um verdadeiro servio, pensou ela.
- Vou precisar de um mapa do sul da Frana. Por acaso,
- Claro, mademoiselle. - Abaixou-se atrs do balco
escolheu um mapa. - Voil. - Ficou ali olhando atento Dana
partir
Na torre executiva da WTN, Elliot Cromwell dizia:
- Onde Dana est, Matt?
- Na Frana.
- Fez algum progresso?
- Ainda  cedo demais.
- Estou preocupado com ela. Acho que talvez ande viajando demais. Hoje em dia viajar pode ser perigoso. - Hesitou. - Muito perigoso.
O ar em Nice estava frio e seco, e Dana perguntava-se que tempo fazia no dia em que Paul Winthrop morrera. Entrou no
Citron  sua espera e ps-se a subir a Grande Corniche, passando por pitorescas aldeias ao longo do caminho.
O acidente tinha ocorrido logo ao norte de beausoleil, na
rodovia em Roquebrune-Cap-Martin, um balnerio que contemplava do alto o mar Mediterrneo.
Ao aproximar-se da aldeia, diminuiu a velocidade, observando as curvas fechadas, escarpadas, imaginando de qual delas
Paul Winthrop teria despencado. Que fazia ele ali? Ia encontrarse com algum? Participava de uma corrida? Viajava de frias?
A negcios?
Roquebrune-Cap-Martin  uma aldeia medieval com um castelo antigo, uma igreja, grutas histricas e villas luxuosas que
pontilham toda a paisagem. Dana dirigiu-se para o centro, parou o carro e foi  procura da delegacia de polcia. Abordou um
homem saindo de uma loja.
- Por favor, pode me dizer onde fica a delegacia de polcia?
- Je ne parle pas anglais, j'ai peur de ne pouvoir vous aider
mais...
- Police. Police.
- Ah, oui. - Apontou. - La deuxime rue d gauche.
- Merci.
- De rien.
A delegacia de polcia era um velho prdio de paredes brancas malconservadas. Dentro, um homem uniformizado de meia
idade sentava-se atrs de uma escrivaninha. Ergueu os olhos
quando ela entrou.
- Bonjour, madame.
- Bonjour.
- Comment puis je vous aider?
- Fala ingls?
Ele pensou um pouco.
- Sim - disse, relutante.
- Eu gostaria de falar com o responsvel pela delegacia.
Ele olhou para ela, uma expresso confusa no rosto. De repente, sorriu.
- Ah, commandant Frasier. Oui. Um momento. - Pegou um telefone e falou com algum. Fez que sim com a cabea e virou-se para Dana. Apontou o corredor. -A primeira
porta.
- Obrigada. - Ela atravessou o corredor at encontrar a
primeira porta. O escritrio do comandante Frasier era pequeno e bem-arrumado. Ele, um homem garboso com um bigodinho
e olhos castanhos inquisidores. Levantou-se quando Dana entrou.
- Bonjour, mademoiselle. Em que Lhe posso ser til?
- Sou Dana Evans. Estou fazendo uma reportagem para a
WTN, de Washington D.C., sobre a famlia Winthrop. Soube
que Paul Winthrop morreu num acidente perto daqui.
- Oui. Terrible! Terrble. A gente precisa ter muito cuidado ao dirigir na Grande Comiche. Pode ser trs dangereux.
- Soube que Paul Winthrop morreu durante uma corrida
de automveis e...
- Non. No houve corrida naquele dia.
- No houve?
- Non, mademoiselle. Eu mesmo estava de planto quando o acidente ocorreu.
- Entendo. O Sr Winthrop estava sozinho no carro?
- Oui.
- Commandant Frasier, eles fizeram uma autpsia?
- Oui. Claro.
- Encontraram lcool no sangue de Paul Winthrop?
O comandante Frasier balanou a cabea.
- Non.
- Drogas?
- Non.
- O senhor se lembra como estava o tempo naquele dia?
- Oui. Il pleuvait. Chovia.
Dana tinha uma ltima pergunta, mas a fez sem nenhuma
esperana.
- Imagino que no houve testemunhas...
- Mais oui, il y en avait.
Ela fitava-o, a pulsao se acelerando.
- Houve?
- Uma testemunha. Ele estava dirigindo atrs do carro de
Winthrop e viu o acidente acontecer
Dana teve uma rpida sensao de entusiasmo.
- Eu ficaria muito grata se me desse o nome da pessoa - disse. - Quero falar com ela.
O comandante assentiu com a cabea.
- No vejo nenhum mal. - Chamou: - Alexandre! e um instante depois, o assistente entrava s pressas.
- Oui, commandant?
- Apporte-moi le dossier de 1'accident Winthrop.
- Tout de suite. - Saiu da sala, apressado.
O comandante Frasier virou-se para Dana.
- Que famlia desafortunada. A vida  trs fragile. 
Olhou para Dana e sorriu. - A gente precisa aproveitar a vida
enquanto pode. -Acrescentou, sutilmente: - Ou enquanto
ela deixa. Est sozinha aqui, mademoiselle?
- No, meu marido e filhos esto me esperando.
- Dommage.
O assistente retornou com um mao de papis e o comandante examinou os documentos, fez que sim com a cabea
ergueu os olhos para Dana.
- A testemunha do acidente era um turista americano
Ralph benjamin. Segundo seu depoimento, ele vinha atrs di
Paul Winthrop quando viu un chien, um co, atravessar na frente
do carro de Winthrop. Winthrop girou o volante para no
atropel-lo, entrou numa grande derrapagem, mergulhou do
despenhadeiro e caiu no mar. Segundo o relatrio do legista
Winthrop morreu instantaneamente.
- O senhor tem o endereo do Sr benjamin? - perguntou, esperanosa.
- Oui. - Deu mais uma olhada no papel. - Ele mora na
Amrica. Turk Street, 420, Richfield, estado de Utah. - Escreveu o endereo e entregou-lhe.
Ela tentava controlar a emoo.
- Muitssimo obrigada.
- Avec plaisir. - Olhou para o dedo anular sem aliana
de Dana. - E, madame?
- Sim?
- Cumprimente seu mardo e filhos por mim.
Dana telefonou para Matt.
- Matt - disse, excitada. - Descobri uma testemunha
do acidente de Winthrop. vou entrevist-lo.
- Mas  fantstico. Onde est ele?
- Em Richfield, no Utah. Devo estar de volta amanh.
- Tudo bem. Por falar nisso, Jeff telefonou.
- E a?
- Voc sabe que ele est na Flrida com a ex-mulher? Transparecia de sua voz um tom reprovador.
- Eu sei. Ela est muito doente.
- Se Jeff ficar por muito mais tempo, vou ter de lhe pedir
que tire uma licena sem vencimentos.
- Tenho certeza que ele voltar logo. - Quisera ela acreditar nisso.
- Certo. Boa sorte com a testemunha.
- Obrigada, Matt.
O telefonema seguinte de Dana foi para Kemal. A Sra. Daley
atendeu.
- Residncia da Srta. Evans.
- Boa tarde, Sra. Daley. Est tudo bem a? - Dana prendia a respirao.
- Bem, seu filho quase ateou fogo na cozinha me ajudando a preparar o jantar ontem  noite. - Ela riu. - Mas, fora
isso, ele est timo.
Dana fez uma orao silenciosa de agradecimento.
Mas  incrvel! A mulher  realmente uma milagreira, pensou.
- Voc vem direto para casa? Posso preparar o jantar e...
- Tenho de fazer mais uma escala. S chegarei em casa
daqui a dois dias. Posso falar com Kemal?
- Ele est dormindo. Quer que o acorde?
- No, no. - Conferiu as horas no relgio de pulso.
Eram s quatro da tarde em Washington. - Ele est tirando um cochilo? - Dana ouviu uma risada calorosa da Sra.
Daley.
- . O rapazinho teve um dia cheio. Est trabalhando e
brincando muito.
- Diga a ele que mando meu amor E que logo o verei.
Tenho de fazer mais uma escala. S chegarei em casa daqui a
dois dias. Posso falar com Kemal?
Ele est dormindo. Quer que o acorde?
No, no. Ele est tirando um cochilo?
. O rapazinho teve um dia cheio. Est trabalhando e brincando
muito.
Diga a ele que mando meu amor. que logo o verei.
Fim da fita.
Richfield, no Utah,  uma confortvel cidade residencial localizada numa depresso de terra no meio da cadeia de montanhas Monroe. Dana parou numa agncia de viagens 
e pegou as
direes para o endereo que o comandante Frasier lhe dera.
' Ralph Benjamin morava numa casa de um andar, gasta pelas intempries, situada no meio de um quarteiro de casas idnticas.
Ela estacionou o carro alugado, dirigiu-se  porta da frente
e tocou a campainha. A porta abriu-se e apareceu uma mulher
grisalha de mea-idade, usando avental.
- Em que posso ajud-la?
- Gostaria de falar com Ralph benjamin - disse Dana
A mulher examinou-a, curiosa.
- Ele est  sua espera?
- No. Eu... eu s passei por acaso, e resolvi dar um pulo
at aqui. Ele est?
- Sim. Entre.
- Obrigada. - Dana entrou e seguiu a mulher at a sala
de estar.
- Ralph, tem uma visita para voc.
Ralph benjamin levantou-se de uma cadeira de balano e
veio em direo a Dana.
- Como vai? Eu a conheo?
Dana ficou ali parada, imvel. Ralph benjamin era cego.

QUATORZe

Dana e Matt Baker conversavam na sala de reunies da WTn
- Ralph Benjamin estava na Frana visitando o filho - explicava Dana. - Um dia, sua pasta desapareceu do hotel.
Reapareceu no dia seguinte, mas faltava o passaporte. Matt, 
O homem que roubou o passaporte pegou a identidade de Benjamin e disse  polcia que era uma testemunha do acidente.
quem assassinou Paul Wnthrop?
Matt Baker ficou calado por um longo tempo.
-  hora de pr a polcia nisso, Dana - acabou dizendo
- Se voc tiver razo, estamos procurando um homem insensvel que assassinou a sangue-frio seis pessoas. No quero que
seja a stima. Elliot tambm est preocupado com voc. Acha
que est indo fundo demais.
- No podemos pr a polcia nisso ainda - protestou
Dana. - Tudo  circunstancial. No temos nenhuma prova
Nem sequer a menor idia de quem  o assassino, e tambm
no sabemos o motivo.
- Estou com um pressentimento muito rum com toda essa
histria. Tambm est ficando perigosa demais. No quero que
acontea alguma coisa com voc.
- Nem eu - disse Dana, veemente.
- Qual vai ser seu prximo passo?
- Descobrir o que aconteceu realmente com Julie Winthrop.
- A operao foi um sucesso.
Deitada numa cama branca estril de hospital, Rachel abriu
os olhos, devagar. Tentava focalizar os olhos injetados em Jeff:
- J tiraram?
- Rachel...
- Tenho medo de apalpar o lugar - Reprimia as lgrimas. - No sou mais uma mulher. Nenhum homem jamais vai
me amar de novo.
Ele tomou-lhe as mos trmulas nas dele.
- Est enganada. Nunca amei voc por causa dos seus
seios, Rachel. Amei pelo que voc , um ser humano afetuoso,
maravilhoso.
Rachel esboou um pequeno sorriso.
- Ns nos amamos de verdade, no, Jeff?
- .
- Eu queria... - Ela baixou o olhar para o peito e o rosto
contraiu-se.
- Falaremos disso depois.
Ela apertou-lhe a mo com mais fora.
- No quero ficar sozinha, Jeff. No antes disso acabar
Por favor, no me deixe.
- Rachel, eu tenho de...
- No v, ainda no. No sei o que farei se voc for embora.
Uma enfermeira entrou no quarto do hospital.
- Poderia nos dar licena, Sr Connors?
Rachel no queria soltar a mo de Jeff.
- No v.
- Eu volto.
Mais tarde naquela noite, o celular de Dana tocou. Ela atravessou a sala correndo para peg-lo.
- Dana. - Era Jeff.
Ela sentiu uma pequena emoo ao ouvir sua voz.
- Al. Como vai voc, querido?
- bem.
- E Rachel? "
- A operao correu bem, mas Rachel est com idia
suicidas.
- Jeff... uma mulher no pode julgar a si mesma por seu
seios, ou...
- Eu sei, mas Rachel no  uma mulher do seu gabarito.
Tem sido julgada pela beleza desde os quinze anos.  uma das
modelos mais bem pagas do mundo. Agora acha que tudo acabou para ela. Sente-se como uma aberrao. Acha que no ter
mais nada por que viver
- Que  que voc vai fazer?
- Vou ficar com ela mais alguns dias e ajud-la a estabelecer-se em casa. Falei com o mdico. Ele ainda est esperando
os resultados dos exames para ver se conseguiram tirar tudo.o
Acham que ela precisa de acompanhamento com tratamento
de quimioterapia.
No havia nada que Dana pudesse dizer
- Sinto sua falta - disse Jeff:
- Eu tambm sinto sua falta, meu adorado. Comprei alguns presentes de Natal para voc.
- Guarde-os para mim.
- Vou guardar
- J se livrou de todas as viagens?
- Ainda no.
- No esquea de deixar o celular ligado - disse Jeff: Pretendo lhe dar alguns telefonemas obscenos.
Dana sorriu.
- Promete?
- Prometo.
- Cuide bem de voc, querida.
- Voc tambm. - A conversa terminou. Dana desligou
e ficou ali sentada por um longo tempo, pensando em Jeff e
Rachel. Depois levantou-se e foi at a cozinha.
A Sra. Daley dizia a Kemal:
- Mais panquecas, querido?
- Quero, obrigado.
Dana ficou olhando os dois. Naquele curto perodo que a
Sra. Daley passara ali, Kemal tinha mudado muito. Estava calmo, relaxado e feliz. Sentiu uma pontada aguda de cimes.
Talvez eu seja a pessoa errada para ele. Culpada, lembrou-se dos
longos dias at tarde da noite no estdio. Talvez algum como a
Sra. Daley devesse t-lo adotado. Qual o problema comigo? Kemal
me ama.
Sentou-se  mesa.
- Ainda gostando da nova escola, Kemal? - perguntou.
-  legal.
Dana pegou-lhe a mo.
- Kemal, lamento, mas vou ter de viajar mais uma vez.
Ele disse, indiferente:
- Tudo bem.
A pontada de cimes voltou.
- Para onde vai agora, Srta. Evans? - perguntou a Sra.
Daley.
- Alasca.
A Sra. Daley ficou pensativa alguns instantes.
- Cuidado com aqueles ursos enormes e ferozes - aconselhou.
O vo de Washington a Juneau, no Alasca, levou nove horas
com uma escala em Seattle. Dentro do aeroporto de Juneau
Dana foi at o balco de aluguel de carros.
- Meu nome  Dana Evans. Eu...
- Sim, Srta. Evans. Temos um belo Land Rover  sua espera. Vaga dez. Basta assinar aqui.
O funcionrio entregou-Lhe aschaves e Dana dirigiu-se ao
estacionamento atrs do prdio. Havia uma dezena de carros
em vagas numeradas. Ela foi at a nmero dez. Ajoelhado perto da traseira do carro, um homem trabalhava no cano de descarga de um Land Rover branco. Ergueu os olhos 
quando Dana
se aproximou.
- S ajustando o cano de descarga, senhorita. J est todo
pronto. - Levantou-se.
- Obrigada - disse Dana.
No subsolo de um prdio do governo, um homem examinava um mapa digital no computador. Viu o Land Rover branco fazer uma curva  direita.
- O alvo est se dirigindo para Starr Hill...
Juneau foi uma surpresa para Dana.  primeira vista, parecia
uma cidade grande, mas as ruas estreitas e sinuosas davam 
capital do Alasca a atmosfera de uma cidade pequena aninhada no meio de uma imensido florestal do perodo glacial.
Dana registrou-se na popular Pousada do Cais do Porto, um
ex bordel localizado no centro da cidade.
- Chegou na melhor poca para esquiar - disse o recepcionista do hotel. - Este ano a temporada de neve est tima.
Trouxe seus esquis?
- No, eu...
- Bem, tem uma loja de esqui logo aqui ao lado. Tenho
certeza que podem equip-la com tudo que precisar
- Obrigada - disse Dana. Um bom lugar para se comear.
Desfez a mala e foi para a loja de esqui.
O vendedor falava sem parar. No momento em que ela entrou, ele disse:
- Oi. Sou Chad Donohoe. Bem, voc veio ao lugar certo.
- Indicou uma fileira de esquis. -Acabamos de receber esses
Freeriders. So uns bebs que do conta mesmo de solavancos
e saltos. - Apontou para outra seo. - Ou... esses so os
Salomon X-Scream 9's. Esto tendo uma grande sada. No ano
passado ficamos sem e no conseguimos mais rep-los. - Percebeu a expresso impaciente de Dana e apressou-se para o grupo seguinte. - Se preferir, temos o Vocal 
Vertigo G30 ou o
Atomic 10.20. - Olhou para Dana, com expectativa. - Qual
deles gosta...
- Vim em busca de informao.
Um olhar de decepo atravessou o rosto do vendedor
- Informao?
- Sim. Julie Winthrop alugava esquis aqui?
Ele examinou Dana mais de perto.
- Sim. Na verdade, ela usava a linha mais cara de esquis
da loja, os Volant Ti Pover. Adorava-os. Uma coisa terrvel o
que aconteceu com ela em Eaglecrest.
- A Srta. Winthrop era uma boa esquiadora?
- Boa? Era a melhor. Tinha um console de lareira cheio
de prmios.
- Sabe se ela estava sozinha aqui?
- Pelo que sei, estava. - Ele balanou a cabea. - O que
 muito surpreendente  que ela conhecia Eaglecrest como a
palma da mo. Esquiava aqui todo ano. A gente imagina que
um acidente como aquele jamais poderia ter acontecido com
ela, no ?
-  o que eu imaginava - disse Dana, devagar
O Departamento de Polcia de Juneau ficava a dois quarteires
da Pousada do Cais do Porto.
Dana entrou num pequeno escritrio de recepo com trs
bandeiras: a do estado do Alasca, a de Juneau e a dos Estados
Unidos. Tinha um tapete azul, um sof azul e uma poltrona azul.
Um funcionrio uniformizado perguntou-lhe:
- Posso ajud-la?
- Eu gostaria de informao sobre a morte de Julie Winthrop.
Ele franziu as sobrancelhas.
- O homem com quem deve falar  Bruce Bowler. Ele 
chefe do Resgate Sea Dog. Tem um escritrio aqui no segundo
andar, mas no se encontra agora.
- Sabe onde posso encontr-lo?
O policial olhou para o relgio de pulso.
- Nesse momento, talvez ainda o pegue no Hanger On The Wharf. Fica a dois quarteires daqui, no Passeio da Marina.
- Muito obrigada.
O Hanger On The Wharf era um restaurante enorme, entupido de gente para almoar ao meio-dia.
A recepcionista disse a Dana:
- Lamento, mas no temos uma mesa para j. Haver uma
espera de vinte minutos se...
- Estou procurando o Sr Bruce Bowler. voc o conhece...
A recepcionista fez que sim com a cabea.
- Bruce? Est ali naquela mesa.
Dana olhou. Era um homem de seus quarenta e poucos
anos, com a expresso agradvel num rosto curtido, sentado
sozinho.
- Obrigada. - Ela foi at a mesa. - Sr Bowler?
Ele ergueu os olhos.
- Sim.
- Sou Dana Evans. Preciso de sua ajuda.
Ele sorriu.
- Voc est com sorte. Temos um quarto disponvel. Vou
telefonar para Judy
Dana olhou para ele, sem entender
- Como disse?
- No  voc que queria saber sobre a Cozy Log, nossa
pousada com quarto e caf da manh?
- No. Eu queria conversar com voc sobre Julie Winthrop.
- Oh. - Ele ficou sem graa. - Desculpe. Por favor, sente-se. Judy e eu temos uma pequena pousada fora da cidade.
Achei que estava procurando um quarto. J almoou?
- No, eu...
- Ento me faa companhia. -Tinha um sorriso simptico.
- Obrigada.
Depois que ela pediu a comida, Bruce Bowler perguntou:
- Que quer saber sobre Julie Winthrop?
-  sobre a morte dela. H alguma chance de no ter sido
um acidente?
Bruce Bowler franziu as sobrancelhas.
- Est perguntando se ela pode ter-se suicidado?
- No. Estou perguntando se... se algum poderia t-la
assassinado.
Ele piscou os olhos.
- Assassinado Julie? Nenhuma chance. Foi um acidente.
- Pode me contar o que aconteceu?
- Claro. - Bruce Bowler ficou pensativo por um momento, perguntando-se por onde comear - Temos trs diferentes conjuntos de pistas aqui. As dos iniciantes, Muskeg, 
Dol'
Varden e Sourdough... As mais difceis, Sluice Box, Mother Lod
e Sundance... As realmente duras, Insane, Spruce Chute e HanTen... E depois as Quedas vertiginosas, que so mais abruptas
- E Julie Winthrop esquiava nas...?
- Nas Quedas Vertiginosas.
- Ento ela era uma esquiadora tarimbada?
- Claro que era - respondeu Bruce Bowler. Hesitou. Por isso  que foi to surpreendente.
- O qu?
- Bem, temos esqui noturno todas as quintas-feiras das
quatro da tarde s nove da noite. Tinha muitos esquiadores
naquela noite. Todos estavam de volta s nove, com exceo
de Julie. Fomos  sua procura. Encontramos o corpo atirado en
cheio contra uma rvore. A pancada deve t-la matado instantaneamente.
Dana fechou os olhos por um instante, sentindo o horror e
a dor do choque.
- Ento... ela estava sozinha quando aconteceu o acidente?
- , estava. Os esquiadores em geral esquiam juntos, mas
s vezes os melhores gostam de fazer faanhas arriscadas sozinhos. Temos um limite de rea demarcado aqui, e todo mundo
que esquia fora desse limite o faz por sua prpria conta e risco
Julie Winthrop esquiava fora desse limite, numa pista fechada
Levamos muito tempo para encontrar seu corpo.
- Sr Bowler, qual o procedimento quando um esquiador
desaparece?
- Assm que  dada a informao de que algum desapareceu, comeamos uma busca safada.
- Busca safada?
- Telefonamos aos amigos para saber se o esquiador est
com eles. Ligamos para alguns bares.  uma busca rpida e improvisada. Isso para poupar s nossas equipes de resgate o problema de fazer uma busca completa de algum 
bbado sentado
de porre num bar
- E se algum estiver realmente perdido? - perguntou
Dana.
- Obtemos uma descrio fsica do esquiador desaparecido, de sua capacidade de esquiar, e do ltimo lugar em que foi
visto. Sempre perguntamos se eles levavam uma cmera.
- Por qu?
- Porque, quando eles as levam, as imagens nos do uma
pista para as reas pitorescas para onde talvez tenham ido. Verificamos quais planos o esquiador poderia ter tido para o transporte de volta  cidade. Se no encontrarmos 
nada em nossa
busca nas pistas, deduzimos que o esquiador desaparecido est
fora do limite da rea demarcada de esqui. Notificamos os soldados da Busca e Resgate do Estado do Alasca e eles pem um
helicptero no ar. H quatro pessoas em cada grupo de busca, e
a patrulha area civil tambm participa.
- Isso  muito potencial humano.
- Claro que . Mas lembre-se... temos uns duzentos hectares de rea de esqui aqui, e fazemos uma mdia de quarenta
buscas por ano. A maioria  bem-sucedida. - Bruce Bowler
olhou pela janela o frio cu de ardsia. - Eu gostaria que aquela
tambm tivesse sido. - Voltou-se para Dana. - De qualquer
modo. A patrulha de esqui faz uma busca diria depois que os
telefricos fecham.
- Soube que Julie Winthrop estava acostumada a esquiar
no alto de Eaglecrest.
Ele fez que sim com a cabea.
-  verdade. Mas mesmo assim no h garantia alguma
Nuvens podem surgir, a pessoa s vezes fica desorientada, ou
tem apenas falta de sorte.
- Como encontraram o corpo dela?
- SOS a encontrou.
- SOS?
-  o nosso co especial. A patrulha de esqui trabalha con
labradores e pastores pretos. Os ces so mesmo incrveis. Trabalham a favor do vento, captam o cheiro humano, sobem at
a borda da zona do cheiro e fazem o gradeamento pra cima e
pra baixo. Mandamos um bombardeiro para o local do acidente, e quando...
- Bombardeiro?
- Nossa mquina de limpar neve. Trouxemos de volta o
corpo de Julie Winthrop numa liteira motorizada. A equipe da
ambulncia de trs homens examinou-a com um monitor de
eletrocardiograma, depois bateu fotos e chamou um legista.
Levaram o corpo para o Hospital Regional Bartlett.
- E ningum sabe como aconteceu o acidente?
Ele encolheu os ombros.
- S sabemos que ela abalroou um gigantesco esprucE
pouco amistoso. Eu vi. No foi uma viso muito agradvel.
Dana olhou um momento para Bruce Bowler
- Seria possvel eu ver o topo de Eaglecrest?
- Por que no? Vamos terminar o almoo, que eu mesmo
a levo l.
Foram de jipe at a sede de dois andares da vigilncia, na basE
da montanha.
Bruce Bowler disse a Dana:
- Este prdio  onde nos encontramos para fazer nossos
planos de busca e resgate. Alugamos aqui equipamento de esqui e temos instrutores para quem quiser aulas. Vamos tomar
esse telefrico at o topo da montanha.
Entraram na cadeira do telefrico Ptarmigan, que se dirigia
para o topo de Eaglecrest. Dana tiritava de frio.
- Eu devia t-la avisado. Para esse tipo de temperatura,
voc precisa de roupa de propilene, malhas longas coladas ao
corpo e tem de se vestir em camadas.
Dana tremeu.
- Vou me lembrar da prxima vez.
- Foi nessa cadeira que Julie Winthrop subiu. Ela levava
a mochila de emergncia nas costas.
- Mochila de emergncia?
- . Contm uma p de avalanche, um sinalizador que
transmite sinais at cinqenta metros e um basto de sondagem. - Deu um suspiro. - Claro, isso no ajuda nada quando
a gente bate numa rvore.
Aproximavam-se do cume. Ao chegarem  plataforma e
descerem cautelosos da cadeira telefrica, um homem no topo
saudou-os.
- Que o traz aqui, Bruce? Algum perdido?
- No. S estou mostrando as paisagens a uma amiga. Esta
 a Srta. Evans.
Trocaram cumprimentos. Dana olhou em volta. Havia uma
cabana aconchegante quase perdida nas pesadas nuvens. Teria
Julie Winthrop ido l antes de esquiar? E ser gue algum a tinha
seguido? Algum que planejava mat-la?
Bruce Bowler virou-se para Dana.
- Este  o ponto mais alto da montanha. Daqui  s morro abaixo.
Dana virou-se e olhou para o implacvel solo distante, muito
distante, e estremeceu.
- Voc parece estar congelando, Srta. Evans.  melhor eu
lev-la para baixo.
- Obrigada.
Dana acabara de chegar  Pousada do Cais do Porto, quando
ouviu uma batida na porta de seu quarto. Abriu-a. Era um homem de rosto plido.
'- Srta. Evans?
- Sim.
- Oi. Meu nome  Nicholas Verdun. Sou do jornal Juneau
Empire.
- Sim...?
- Soube que est investigando a morte de Julie Winthrop.
Gostaramos de fazer uma matria sobre isso.
Um alarme soou na mente de Dana.
- Receio que esteja enganado. No estou fazendo nenhuma investigao.
O homem olhou para ela, ctico.
- Mas me disseram...
- Estamos fazendo um programa sobre esqui em todo o mundo. Esta  apenas uma parada.
Ele ficou ali por um momento.
- Entendo. Desculpe por tla incomodado.
Dana ficou observando-o se afastar. Como soube o que estou
Telefonou logo para o Juneau Empire.
- Al. Queria falar com um dos seus reprteres, Nicholas
Verdun... - Ouviu por um momento. - No tem ningum
com esse nome? Entendo. Obrigada.
Levou dez minutos para arrumar a mala. Preciso sair daqui
e encontrar outro lugar para ficar. De repente, lembrou-se. No
era voc que queria saber sobre a Cosy Log, nossa pousada com
quarto e caf da manh? Est com sorte. Temos um quarto disponvel. Desceu para o saguo e fechou a conta. O funcionrio deulhe as direes da pousada e desenhou 
um pequeno mapa.
No poro do prdio governamental, o homem olhando para o
mapa digital no computador disse:
- O alvo est deixando a rea do centro, rumando para
oeste...
A Pousada Cozy Log - Cama e Caf da Manh - era uma
bem-cuidada casa alasquiana de um andar, de toras de madeira, a meia hora de carro de Juneau. Perfeito. Dana tocou a campainha da porta da frente e uma mulher alegre, 
atraente, de
seus trinta e poucos anos, abriu-a.
- Ol. Posso ajud-la?
- Sim. Conheci seu marido e ele disse que vocs tinham
um quarto desocupado.
- De fato, temos, sim. Sou Judy Bowler.
- Dana Evans.
- Entre.
Dana entrou e olhou em volta. A pousada consistia numa
sala de estar grande, confortvel, com uma lareira de pedra, uma
sala de jantar onde comiam os pensionistas e dois quartos com
banheiros.
- Eu  que fao toda a comida aqui - disse Judy Bowler.
-  muito gostosa.
Dana sorriu, afetuosa.
- Estou louca para provar
Judy Bowler levou-a para o quarto. Era limpo e com aparncia caseira. Dana desfez a mala.
Havia um casal hospedado ali, e a conversa foi informal.
Nenhum deles reconheceu Dana.
Depois do almoo, ela pegou o carro e voltou para o centro da
cidade. Entrou no bar da Cliff House e pediu um drinque. Todos os empregados tinham a pele bronzeada e o ar saudvel.
Claro.
- belo clima - disse ela ao barman jovem e louro.
- . Um tempo fantstico para a gente esquiar
- Voc esquia muito?
Ele sorriu.
- Sempre que posso tirar uma folga.
- Perigoso demais para mim - suspirou Dana. - Uma
amiga minha morreu alguns meses atrs.
Ele ps no tampo do bar o copo que estava polindo.
- Morreu?
- Sim. Julie Winthrop.
A expresso dele obscureceu.
- Ela vinha sempre aqui. Moa simptica.
Dana curvou-se  frente.
- Eu soube que no foi um acidente.
Ele arregalou os olhos.
- Que quer dizer com isso?
- Soube que ela foi assassinada.
- Assassinada! - exclamou ele, incrdulo. - Impossvel. Foi um acidente.
Vinte minutos depois, Dana conversava com o barman do
Hotel Prospector
- Que tempo maravilhoso.
- . Um timo tempo para esquiar - disse o barman.
- Perigoso demais para mim - suspirou Dana. - Uma
amiga minha morreu esquiando alguns meses atrs. Talvez voc
a conhecesse. Julie Winthrop.
- Oh, claro. Eu gostava muito dela. Quer dizer, no era
metida a besta como algumas pessoas. Era muito simples.
Dana curvou-se para a frente.
- Eu soube que a morte dela no foi um acidente.
A expresso do barman mudou. Ele baixou a voz.
- Sei muito bem que no foi acidente nenhum.
O corao de Dana acelerou-se.
- Sabe?
- Pode apostar - Ele curvou-se, com um ar conspirador
- Aqueles malditos marcianos...
Ela estava de esquis no alto da montanha Ptarmigan e sentia o
vento frio fustigando. Olhou o vale embaixo, tentando decidir
por onde retornar, quando de repente sentiu um empurro de
trs e ps-se a despencar cada vez mais rpido pela encosta, em
direo a uma enorme rvore. Pouco antes de atingir a rvore,
acordou, aos gritos.
Dana sentou-se na cama, tremendo. Foi isso que aconteceu
com Julie Winthrop? Quem a empurrou para a morte?
Elliot Cromwell estava impaciente.
- Diabos, Matt, quando  que Jeff Connors vai voltar? Precisamos dele.
- Logo. Ele d sempre notcias.
- E onde est Dana?
- Est no Alasca, Elliot. Por qu?
- Eu gostaria de v-la de volta aqui. Os ndices de audincia dos nossos noticirios da noite caram.
Matt Baker olhou para ele, perguntando-se se aquele era o
verdadeiro motivo da preocupao de Elliot Cromwell.
Pela manh, Dana vestiu-se e voltou de carro ao centro da cidade.
No aeroporto,  espera de ser chamada para seu vo, reparou num homem sentado a um canto, lanando-lhe olhares de
vez em quando. Pareceu-lhe estranhamente conhecido. Usava
um terno cinza-escuro, e lembrava algum. Um homem diferente do que tinha visto no aeroporto de Aspen. Tambm d
terno cinza-escuro. Mas no foram as roupas que despertaram
sua lembrana. Era alguma coisa na aparncia dos dois. Ambos
tinham uma desagradvel aura de arrogncia. Ele lanava-lhe
um olhar beirando o desprezo que lhe provocava calafrios.
Aps Dana embarcar, o homem falou num telefone celular e
saiu do aeroporto.

QINzE

Quando chegou em casa, Dana encontrou uma linda rvore de
Natal que a Sra. Daley tinha comprado e decorado.
- Veja esse enfeite -disse a Sra. Daley, orgulhosa. - Foi
Kemal quem fez sozinho.
O inquilino do apartamento vizinho assistia  cena no seu
aparelho de televiso.
Dana beijou a face da senhora.
- Adoro voc, Sra. Daley
Ela enrubesceu.
- Oh, quanto estardalhao por uma coisa to pequena.
- Onde est Kemal?
- No quarto. Tem dois recados para voc, Srta. Evans. Telefonar para a Sra. Hudson. Pus o nmero na sua cmoda. E
sua me ligou.
- Obrigada.
Quando Dana entrou no quarto de Kemal, encontrou-o no
Computador. Ergueu os olhos para ela.
- Ei, que bom que est de volta!
- , estou de volta - disse Dana.
- Legal. Eu estava torcendo para que chegasse antes do
Natal.
Dana abraou-o.
- Claro que eu ia chegar. No o perderia por nada neste
mundo. Como anda se virando aqui sozinho?
- Jia.
Que bom.
- Voc gosta da Sra. Daley?
Ele fez que sim com a cabea ,
- Ela  maneira.
Dana sorriu.
- Eu sei. Tenho que dar uns telefonemas. Volto j.
Primeiro as ms notcias, pensou Dana. Ligou para o nmero
da me. No falava com ela desde o incidente em Westpot.
Como pde se casar com um homem daqueles? Dana ouviu o telefone tocar vrias vezes, depois veio a voz gravada da me.
- No estamos em casa no momento, mas se deixar um
recado ligaremos logo de volta. Aguarde o sinal.
Dana aguardou.
- Feliz Natal, me. - E desligou.
O telefonema seguinte foi para Pamela.
- Dana, que bom que est de volta - exclamou Pamela
Hudson. - Vimos no noticirio que Jeff est de licena de viagem, mas Roger e eu vamos receber algumas pessoas amanh
para um jantar de Natal, e queremos que voc e Kemal venham.
Por favor, no me diga que tem outros planos.
- No. Na verdade, no tenho. E adoraramos ir: Obrigada, Pamela.
- Maravilha. A gente espera vocs s cinco horas. Informou. - Fez uma pausa. - Como vo as coisas por a?
- No sei - disse Dana, com franqueza. - No sei nen
se esto indo a algum lugar:
- bem, esquea tudo por ora. Descanse um pouco. A gente
se v amanh.
Quando Dana e Kemal chegaram  casa dos Hudsons no dia
de Natal, foram recebidos na porta por Cesar. Seu rosto iluminou-se ao ver Dana.
- Srta. Evans! Que prazer em v-la. - Sorriu para Kemal.
- E Mestre Kemal.
- Oi, Cesar - disse Kemal.
Dana entregou-lhe um pacote com um lindo embrulho colorido.
- Feliz Natal, Cesar
- No sei o que... - Ele gaguejava. - Eu no... a senhorita  muito bondosa, Srta. Evans!
O amvel gigante, como o julgava Dana, corava. Dana entregou-lhe mais dois pacotes.
- Estes so para o Sr. e a Sra. Hudson.
- Sim, Srta. Evans. Vou pr debaixo da rvore de Natal.
O Sr e a Sra. Hudson esto na sala de visitas. - Ele acompanhou os dois at l.
- Vocs chegaram! Estamos to felizes por terem vindo - disse Pamela.
- Ns tambm - garantiu-Lhe Dana.
Pamela olhava para o brao direito de Kemal.
- Dana, Kemal tem um... que maravilha!
Dana abriu um largo sorriso.
- Mas no ? Cortesia do meu patro. Ele  um grande
camarada. Acho que isso mudou toda a vida de Kemal.
- No sei como lhe dizer o quanto me sinto feliz.
Roger cumprimentou-a com um aceno de cabea.
- Parabns, Kemal.
- Obrigado, Sr Hudson.
Roger Hudson disse a Dana:
- Antes que os outros convidados cheguem, h uma coisa que eu gostaria de mencionar. Lembra-se de eu ter dito que
Taylor Winthrop confidenciou a amigos sua retirada da vida
pblica e depois tornou-se embaixador na Rssia?
- Sim. Suponho que o presidente o pressionou a...
- Foi o que eu pensei. Mas parece que foi Winthrop que
pressionou o presidente para nome-lo embaixador. A pergunta : por qu?
Os outros convidados comeram a chegar. Eram apenas
doze pessoas ao jantar, e a noite foi calorosa e festiva.
Aps a sobremesa, todos foram para a sala de visitas. Diante da lareira, via-se uma imensa rvore de Natal. Havia presentes para todo mundo, mas Kemal ficou com 
a parte do leo. Jogos
de computador, patins, skate, suteres, luvas e videoteipes.
O tempo passou rapidamente. A alegra de estar ali, aps a
tenso dos ltimos dias, era imensa. S queria que Jeff tambm
estivesse aqui.
Sentada mesa do ncora, Dana Evans esperava bater onzE
horas para o noticirio comear. A seu lado estavam o oncora, Richard Melton, e Maury Falstein, na cadeira em geral
ocupada por Jeff. Dana tentava no pensar nisso.
Richard Melton dizia a Dana:
- Senti sua falta quando viajou.
Dana sorriu.
- Obrigada, Richard. Tambm senti sua falta.
- Ficou fora bastante tempo. Est tudo bem?
- Tudo timo.
- Vamos comer alguma coisa juntos, depois do jornal.
- Tenho primeiro de ver se est tudo bem com Kemal.
- A gente pode se encontrar em algum lugar.
Precisamos nos encontrar em algum lugar. Acho que estou sendo vigiada. Na seo de aves do Zoolgico.
Melton continuou:
- Disseram que voc est pesquisando para fazer uma
grande matria. Quer falar disso?
- No h nada de que falar ainda, Richard.
- Andam dizendo por a que Cromwell no estava gostando do fato de voc ficar tanto tempo fora. Espero que no se
meta em apuros com ele.
Quero dar um conselho a voc. No continue procurando
problemas, porque vai acabar encontrando.  uma promessa.
Dana achava difcil concentrar-se no que Richard Melton
dizia.
Bill Kelly desapareceu no mesmo dia depois do incndio. Nem
sequer pegou o contracheque, simplesmente foi embora.
Richard Melton continuava falando.
- Deus  testemunha, no quero trabalhar com outro
ncora.
Houve uma testemunha americana do acidente, Ralph Benjamin. Um cego.
- Cinco... quatro... trs... dois... - Anastasia Mann apontou o dedo para Dana. A luz vermelha da cmera lampejou.
A voz do locutor do programa retumbou.
- Este  o jornal das onze horas na WTN com Dana Evans
e Richard Melton.
Dana sorriu para a cmera.
- Boa noite. Dana Evans.
- Boa noite. Richard Melton.
Estavam de volta no ar
- Hoje em Arlington trs estudantes do Ginsio Wilson
foram presos depois que a polcia vasculhou seus escaninhos,
encontrando duzentos gramas de maconha e vrias armas, entre elas uma pistola roubada. Holly Rapp tem mais informaes
para vocs de Arlington.
De volta  fita.
No temos muitos ladres de obras de arte, e o mtodo de operar  sempre o mesmo. Esse  dferente.
Terminada a transmisso, Richard Melton olhou para Dana.
- A gente se encontra mais tarde?
- Esta noite, no, Richard. Preciso fazer uma coisa.
Ele levantou-se.
- Tudo bem. - Dana teve a sensao de que ele ia perguntar-lhe sobre Jef Mas Richard disse apenas: - Te vejo
amanh.
Dana levantou-se.
- Boa noite, todo mundo.
Dana saiu do estdio e foi para seu escrtrio. Sentou-se, ligou o computador, acessou a Internet e recomeou a busca
pela mirade de artigos sobre Taylor Winthrop. Num dos websites
de Taylor Winthrop, bateu os olhos num trecho sobre Marcel
Falcon, uma autoridade do governo francs, que fora embaixador da OTAN. O artigo dizia que Marcel Falcon negociava um
acordo comercial com Taylor Winthrop. No meio das negociaes, Falcon abandonara o posto e aposentara-se. No meio de
uma negociao governamental? Que poderia ter acontecido?
Dana tentou outros websites, porm no encontrou mais
nenhuma informao sobre Marcel Falcon. Muito estranho. tenho de examinar isso, decidiu Dana.
Era meia-noite quando terminou a pesquisa. Cedo demais para
telefonar para a Europa. Voltou ento para o apartamento. A
Sra. Daley esperava por ela.
- Desculpe ter chegado to tarde - disse Dana. - Eu...
- Nenhum problema. Vi sua transmisso desta noite.
Achei maravilhosa, como sempre, Srta. Evans.
- Obrigada.
A Sra. Daley suspirou.
- Eu s gostaria que as notcias no fossem to escabrosas. Em que tipo de mundo estamos vivendo?
-  uma boa pergunta. Como est Kemal?
- O pestinha est timo. Deixei ele ganhar de mim nas
cartas.
Dana sorriu.
- Bom. Obrigada, Sra. Daley. Se quiser chegar mais tarde
amanh...
- No, no. Chegarei aqui cedo para despachar vocs para
a escola e o trabalho.
Dana esperou na porta a Sra. Daley sair. Uma pedra preciosa, pensou, agradecida. O telefone celular tocou. Ela correu para
atend-lo.
- Jeff?
- Feliz Natal, minha adorada. -A voz dele inundou-Lhe
o corpo, da cabea aos ps. - Estou ligando muito tarde?
- Nunca  tarde demais. Fale-me de Rachel.
- J voltou para casa.
Jeff quer dizer que Rachel voltou para a casa dela.
- Tem uma enfermeira aqui, mas Rachel s vai deix-la
ficar at amanh.
Dana detestava perguntar
- E depois?
- Os resultados do exame indicam que o cncer se espalhou. Rachel no quer que eu v embora ainda. 
- Entendo. No quero parecer egosta, mas no h mais
algum a que...
- Ela no tem ningum, querida. Est sozinha e em pnico. No quer mais ningum aqui. Francamente, no sei o que
Rachel faria se eu fosse embora.
E eu no sei o que vou fazer se voc ficar.
- Eles querem comear a quimioterapia imediatamente.
- Quanto tempo vai levar?
- Ela vai precisar de um tratamento a cada trs semanas
durante quatro meses.
Quatro meses. 
- Matt me pediu que eu tirasse uma licena sem vencimento. Lamento muito tudo isso, meu bem.
Que queria dizer com aquilo? Lamenta pelo emprego? Lamenta
por Rachel? Ou lamenta por nossas vidas estarem se afastando?
- Como posso ser to egosta?, perguntou-se Dana. A mulher talvez
esteja morrendo.
- Eu tambm lamento muito - acabou dizendo Dana.
- Espero que tudo acabe bem. - Acabe bem para quem? Para
Rachel e Jeff? Para Jeff e eu?
Quando Jeff desligou o telefone, ergueu os olhos e viu Rachel
parada ao lado dele. Usava camisola e robe longos. Estava linda, com uma luz quase translcida.
- Era Dana?
- Sim - disse Jeff.
Rachel aproximou-se dele.
- Pobre querido. Sei como toda essa histria est machucando vocs dois. Eu... Eu simplesmente no poderia ter passado por tudo isso sem sua ajuda. Eu precisava 
de voc, Jeff. Preciso
de voc agora.
Dana chegou ao seu escritrio na manh seguinte e acessou mais
uma vez a Internet. Dois textos atraram-lhe a ateno. Separados eram incuos, mas juntos sugeriam um mistrio.
O primeiro dizia: "Vincent Mancino, ministro do Comrcio italiano, renunciou inesperadamente durante as negociaes do acordo comercial com Taylor Winthrop, representante
dos Estados Unidos. O assistente de Mancino, Ivo Vale, assumiu a pasta."
O segundo texto dizia: "Taylor Winthrop, conselheiro especial da OTAN em Bruxelas, pediu para ser substitudo e voltou para casa em Washington."
Marcel Falcon havia renunciado, Vicent Mancino havia
renunciado, Taylor Winthrop cara fora inesperadamente. Estariam em conluio? Coincidncia?
Interessante.
O primeiro telefonema de Dana foi para Dominick Romano,
que trabalhava na Rede Itlia-1, em Roma.
- Dana! Que bom ouvir sua voz. Que aconteceu?
- Estou indo para Roma e gostaria de conversar com voc.
- Va bene! Sobre o qu?
Dana hesitou.
- Prefiro discutir o assunto quando chegar a.
- Quando voc vem?
- Chegarei a no sbado.
- Vou lhe oferecer uma pasta suculenta.
O telefonema seguinte foi para Jean Somville, que trabalhava
em Bruxelas na sede geral da OTAN, na rue des Chapeliers.
- Jean? Dana Evans.
- Dana! No a vejo desde Sarajevo. Que tempos aqueles,
hem? Nunca mais vai voltar l?
Ela fez uma careta.
- Se eu puder evitar, no.
- Que posso fazer por voc, chrie?
- Vou a Bruxelas nos prximos dias. Vai estar a?
- Por voc? Sem dvida. Alguma coisa especial acontecendo?
- No - disse Dana, rpido.
- Certo. Vai s fazer um passeio turstico, hem? - Havia
um tom de ceticismo em sua voz.
- Pode-se dizer que  mais o menos isso - disse Dana.
Ele riu.
- Espero voc, ansioso. Au revoir.
- Au revoir.
- Matt Baker quer falar com voc.
- Diga a ele que j vou, Olivia.
Mais dois telefonemas e Dana seguiu para o escritrio de
Matt.
Ele disse, sem prembulos:
- Talvez tenhamos sorte com alguma coisa. Eu soube ontem  noite de uma coisa que poderia ser uma pista para o que
estamos procurando.
Dana sentiu o corao disparar
- ?
- Tem um homem chamado... - ele consultou um pedao de papel na escrivaninha. - ... Dieter Zander, em Dsseldorf.
Esteve envolvido em algum tipo de negcio com Taylor Winthrop.
Dana ouvia atentamente.
- No sei de toda a histria, mas parece que alguma coisa
muito ruim aconteceu entre eles. Tiveram um violento desentendimento e Zander jurou que ia matar Winthrop. Acho que
talvez valha a pena voc verificar
- Sem dvida que vale. Vou pesquisar agora mesmo, Matt.
Conversaram mais alguns minutos e Dana foi embora.
Aonde ser que posso encontrar mais sobre isso? De repente,
lembrou-se de Jack Stone e da Agncia Federal de Pesquisa,
FRA. Ele deve saber alguma coisa. Ela achou o nmero particular que ele lhe dera e telefonou.
A voz dele surgiu na linha.
- Jack Stone.
- Aqui fala Dana Evans.
- Al, Srta. Evans. Que posso fazer por voc?
- Estou tentando descobrir alguma coisa sobre um homem
chamado Zander, em Dsseldorf.
- Dieter Zander?
- Sim. Conhece ele?
- Ns sabemos quem .
Dana registrou o ns.
- Pode me dizer alguma coisa sobre ele?
- Isso tem relao com Taylor Winthrop?
- Sim.
- Taylor Winthrop e Dieter Zander eram scios numa
empresa comercial. Zander foi mandado para a priso por manipular algumas aes no mercado e, enquanto estava preso, atearam fogo em sua casa, matando a mulher e 
os trs filhos. Ele
culpa Taylor Winthrop pelo que aconteceu.
E Taylor Winthrop e a mulher morreram num incndio. Dana
ouvia, chocada.
- Zander continua na priso?
- No. Acho que saiu ano passado. Mais alguma coisa?
- No. Muito, muito obrigada mesmo.
- Isso fica s entre ns.
- Entendo. '
A linha caiu.
Agora, h trs possibilidades, pensou Dana.
Dieter Zander em Dsseldorf.
Vincent Mancino em Roma.
Marcel Falcon em Bruxelas.
Vou primeiro a Dsseldorf.
- A Sra. Hudson na linha trs, Dana - disse Olivia.
- Obrigada. - Dana pegou o telefone. - Pamela?
- Al, Dana. Sei que  meio em cima da hora, mas um
bom amigo nosso acabou de chegar  cidade e Roger e eu vamos lhe oferecer uma festinha na quarta-feira que vem. Sei que
Jeff continua fora da cidade, mas adoraramos que voc viesse.
Est livre? 
- Receio que no, Pamela. Estou de partida amanh para
Dsseldorf.
- Oh. Que pena.
- E, Pamela...
- Sim?
- Jeff talvez fique fora por algum tempo.
Houve um silncio.
- Espero que esteja tudo bem.
- Sim. Tenho certeza que vai ficar - Tinha de ficar.
Na noite seguinte, no Aeroporto Dulles, Dana embarcou
num jato da Lufthansa para Dsseldorf. Havia telefonado
para Steffan Mueller, que trabalhava na Kabel Network, para
dizer-lhe que estava a caminho. Tinha a mente cheia do que
Matt Baker lhe dissera. Se Dieter Zander culpou Taylor Winthrop por...
- Guten Abend. Ich heisse Herman Friedrich. Ist es das ersten
mal das sie Deutschland besuchen?...
Dana virou-se para olhar seu parceiro na poltrona ao lado.
Elegante, de seus cinqenta e poucos anos, tinha um tapa-olho
e um basto bigode.
- Boa noite - disse Dana.
- Ah, voc  americana?
- Sou.
- Muitos americanos vo a Dsseldorf.  uma linda cidade.
- Foi o que me disseram. - E sua famlia morrera num
incndio.
-  sua primeira visita?
- . - Teria sido uma coincidncia?
-  linda, linda. Dsseldorf  dividida pelo rio Renc
voc sabe, em duas partes. A mais antiga fica na margen
direita...
Stef fan Mueller pode me dizer mais sobre Dieter Zander.
-...e a parte moderna fica na margem esquerda. Cinco
pontes ligam os dois lados. - Herman Friedrich chegou mais
para perto de Dana. - Vai visitar amigos, talvez, em Dsseldorf? "
As coisas esto comeando a encaixar se.
Friedrich curvou-se mais para perto.
- Se estiver sozinha, conheo um...
- Como? Oh. No, vou me encontrar com meu marido l
O sorriso de Herman Friedrich desapareceu do rosto.
- Gut. Er ist ein glcklicher Mann.
Havia uma fileira de txis diante do Aeroporto Internacional
de Dsseldorf. Dana pegou um para o Breidenbacher Hof, no
centro da cidade. Era um elegante hotel antigo, com um saguo luxuosamente decorado.
O recepcionista atrs do balco disse:
- Estvamos esperando-a, Srta. Evans. bem-vinda a Dsseldorf.
- Obrigada. - Dana assinou o registro.
O funcionrio pegou o telefone e disse algumas palavras:
- Der Raum sollte betriebsbereit sein. Hast. - Reps o receptor e virou-se para Dana. - Desculpe, Frulein, seu quarto
ainda no est todo pronto. Por favor, coma alguma coisa por
nossa conta. Eu a chamarei assim que a camareira acabar d
limp-lo.
Dana fez que sim com a cabea.
- Tudo bem.
- Deixe-me lhe mostrar o salo de jantar
No quarto de Dana acima, dois especialistas em eletrnica
punham uma cmera no relgio da parede.
Meia hora depois, Dana estava no quarto, desfazendo a mala.
Seu primeiro telefonema foi para a Kabel Network.
- Cheguei, Steffan - disse Dana.
- Dana! No acreditei que voc viesse mesmo. Que vai
fazer no jantar?
- Espero jantar com voc.
- E vai. Vamos ao Im Schiffchen. Oito horas?
- Perfeito.
J vestida, Dana ia cruzar a porta quando o celular tocou. Apressou-se a tir-lo da bolsa.
- Al?
- Al, querida. Como vai voc?
- Estou tima, Jeff:
- E onde est?
- Na Alemanha. Dsseldorf. Acho que finalmente estou
chegando a alguma coisa.
- Dana, tenha cuidado. Deus, queria estar com voc.
Eu tambm, pensou Dana.
- E Rachel, como vai?
- Os tratamentos de quimioterapia esto acabando com
ela. So muito violentos.
- Ela vai ficar ..? - No conseguiu terminar a frase.
- Ainda  cedo demais para saber. Se a quimioterapia for
eficaz, ela tem uma boa chance de conter o cncer
- Jeff, por favor, diga a ela o quanto eu sinto.
- Direi. Posso fazer alguma coisa por voc?
- Obrigada, estou bem.
- Eu telefono amanh. S queria lhe dizer que te amo,
doura.
- Eu amo voc, Jeff. At logo.
- At logo.
Rachel saiu do banheiro. Com um robe, chinelos e uma toalha
enrolada  maneira turca na cabea.
- Como vai Dana? ..
- Muito bem, Rachel. Pediu para lhe dizer que sente por
voc.
- Ela est muito apaixonada por voc.
- Eu estou muito apaixonado por ela.
Rachel aproximou-se dele.
- voc e eu j fomos apaixonados um pelo outro, no fomos, Jeff? Que aconteceu?
Ele encolheu os ombros.
- A vida. Ou, eu deveria dizer, vidas. Levvamos vidas
separadas.
- Eu vivia ocupada demais com a carreira de modelo. Tentava conter as lgrimas. - Bem, mas no voltarei a ficar,
no ?
Ele passou os braos pelos ombros dela.
- Rachel, voc vai ficar bem. A quimioterapia vai funcionar.
- Eu sei. Querido, obrigada por ficar comigo aqui. No sei
o que faria sem voc.
Jeff no soube o que responder
O Im Schiffchen era um restaurante elegante numa parte badalada de Dsseldorf. Steffan Mueller entrou e abriu um largo
sorriso ao ver Dana.
- Dana! Mein Gott. No a vejo desde Sarajevo.
- Parece uma eternidade, no ?
- Que est fazendo aqui? Veio para o festival?
- No. Algum me pediu para procurar um amigo dele,
Steffan. - Um garom aproximou-se da mesa e eles pediram
drinques.
- Quem  o amigo?
- O nome dele  Dieter Zander. J ouviu falar?
Steffan Mueller assentiu com a cabea.
- Todo mundo j ouviu falar nele. Virou uma personalidade pblica. Esteve envolvido num grande escndalo.  bilionrio, mas foi estpido demais para tentar passar 
a perna em
alguns acionistas e ser apanhado. Devia ter pegado vinte anos,
mas mexeu alguns pauzinhos e o deixaram sair em trs. Afirma
que  inocente.
Dana examinava-o.
- E ?
- Quem pode saber? No julgamento, Zander disse que
Taylor Winthrop armou pra cima dele e roubou milhes de
dlares. Foi um julgamento interessante. Segundo Dieter Zander, Taylor Winthrop ofereceu-lhe uma sociedade numa mina
de zinco, que supostamente valia milhes de dlares. Winthrop
usou Zander como testa-de-ferro e Zander vendeu milhes de
dlares de aes. Mas se acabou sabendo que a mina era salgada.
- Salgada?
- No tinha zinco. Winthrop ficou com o dinheiro e
Zander assumiu a culpa e pegou a cana.
- O jri no acreditou na histria de Zander?
- Se tivesse acusado qualquer outro que no Taylor Winthrop, talvez acreditassem nele. Mas Winthrop  uma espcie
de semideus. - Steffan olhou para Dana, curioso. - Qual o
seu interesse nisso?
Ela disse, esquiva.
- Como falei, um amigo me pediu que procurasse Zander. Era hora de pedir o jantar.
A comida estava deliciosa. Quando terminou, Dana disse:
- Vou me odiar de manh. Mas valeu cada mordida.
Ao deix-la no hotel mais tarde, Steffan perguntou:
- Sabia que o ursinho de pelcia foi inventado aqui por uma mulher chamada Margarete Steif? O animalzinho fofo se tornou popular em todo o mundo.
Dana ouvia, imaginando aonde aquilo ia levar.
- Aqui na Alemanha, Dana, temos ursos de verdade, e eles so perigosos. Quando se encontrar com Dieter Zander, tenha cuidado. Ele parece um ursinho de pelcia, mas
no .  um urso de verdade.
A Eletrnica Internacional Zander ocupava um enorme prdio nos arredores industriais de Dsseldorf. Dana abordou uma das trs recepcionistas no movimentado saguo.
- Quero ver o Sr. Zander.
- Tem hora marcada?
- Sim. Sou Dana Evans.
- Gerade ein Moment, bitte. - A recepcionista falou ao telefone, depois ergueu os olhos para Dana. - Frulein, quando marcou a hora?
- Vrios dias atrs - mentiu Dana.
- Es tut nr leid. A secretria dele no tem registro algum disso. - Tornou a falar ao telefone e ps o receptor no lugar
- No  possvel ver o Sr. Zander sem hora marcada.
A recepcionista virou-se para um mensageiro diante do balco. Um grupo de funcionrios aproximava-se da porta. Dana
afastou-se do balco e juntou-se a eles, infiltrando-se no centro. Entraram no elevador.
Quando comeou a subir, Dana exclamou:
- Oh, meu Deus. Esqueci qual o andar do Sr. Zander.
- Vier - disse uma das mulheres.
- Danke - agradeceu Dana. Saltou no quarto andar e aproximou-se de uma escrivaninha com uma moa atrs.
- Vim ver Dieter Zander. Sou Dana Evans. A mulher franziu as sobrancelhas.
- Mas no tem hora marcada, Frulein. Dana curvou-se  frente e disse, em voz baixa:
- Diga ao Sr. Zander que vou fazer um programa nacional de televiso nos Estados Unidos sobre ele e sua famlia se me receber, e que seria do interesse dele 
falar comigo agora.
A secretria examinava-a, confusa.
- S um momento. Bitte. - Dana viu-a levantar-se, abrir uma porta assinalada PRIVAT e entrar.
Dana olhou o escritrio da recepo em volta. Penduradas nas paredes, fotografias emolduradas das fbricas da Eletrnica Zander em todo o mundo. A empresa tinha 
sucursais nos Estados Unidos, Frana, Itlia... Pases onde haviam ocorrido os assassinatos dos Winthrops.
A secretria retornou um instante depois.
- O Sr. Zander vai receb-la - disse ela, com um tom desaprovador. - Mas ele s tem alguns minutos. Isso  muito... muito fora do comum.
- Obrigada - disse Dana.
A secretria levou-a a um grande escritrio revestido de lambris de madeira.
- Esta  Frulein Evans.
Dieter Zander estava sentado atrs de uma enorme escrivaninha. Um homem de seus sessenta anos, grandalho, com um rosto astucioso e olhos castanho-claros. Dana lembrou-se 
da histria de Steffan sobre o ursinho de pelcia.
Ele olhou para Dana e disse:
- Estou reconhecendo-a. Fo a correspondente em Sarajevo.
- Sim.
-No compreendo o que quer comigo. Falou da minha
famlia com a secretria.
- Posso me sentar?
- Bitte.
- Eu quera conversar com o senhor sobre Taylor Winthrop.
A expresso de Zander anuviou-se.
- Que tem ele?
- Estou fazendo uma investigao, Sr Zander. Acho que
Taylor Winthrop e sua famlia foram assassinados.
Os olhos de Deter Zander ficaram glidos.
- Acho melhor sair agora, Frulein.
- O senhor foi scio dele numa empresa - disse Dana.
- e...
- Saa!
- Herr Zander, sugiro que seria melhor discutir isso comigo em particular do que o senhor e seus amigos tomarem conhecimento pela televiso. Quero ser imparcial. 
Quero ouvir o
seu lado da histria.
Dieter Zander ficou calado por um longo tempo. Quando
falou, havia um profundo ressentimento em sua voz.
- Taylor Winthrop era scheisse. Oh, inteligente, muito
inteligente. Armou uma cilada para mim. E enquanto eu estava na priso, Frulein, mnha mulher e filhos morreram. Se estivesse em casa... eu poderia t-los salvado. 
- A voz saiu cheia
de dor - Era verdade que eu odiava aquele homem. Mas assassinar Taylor Winthrop? No. - Deu seu sorriso de ursinho
de pelcia. -Auf wiedersehen, Srta. Evans.
Dana telefonou para Matt Baker
- Matt, estou em Dsseldorf. Voc tinha razo. Talvez eu
tenha acertado na mosca. Dieter Zander esteve envolvido num
acordo empresarial com Taylor Winthrop. Ele afirma que Winthrop o incriminou falsamente e mandou-o para a priso. A
mulher e os filhos de Zander morreram num incndio enquanto ele estava atrs das grades.
Houve um silncio de choque.
- Morreram num incndio?
- Isso mesmo - disse Dana.
- Da mesma maneira como morreram Taylor e Madeline.
- Sim. Voc devia ter visto o olhar de Zander quando falei de assassinato.
- Tudo se encaixa, no ? Zander tinha um motivo para
acabar com toda a famlia Winthrop. Voc teve razo o tempo todo sobre os assassinatos. Mal d... mal d para acreditar
nisso.
- Parece bom, Matt, mas ainda no temos provas. Tenho
mais duas paradas a fazer. Parto para Roma amanh. Voltarei
daqui a um ou dois dias.
- Cuide bem de voc.
- Combinado.
Na sede geral da FRA, trs homens viam Dana numa tela de
televiso embutida na parede, falando ao telefone em seu espaoso quarto de hotel.
- Tenho mais duas paradas a fazer. Parto para Roma amanh. Voltarei daqui a um ou dois dias.
Os homens viram Dana desligar o telefone, levantar-se e
entrar no banheiro. A cena na tela mudou para uma cmera
inserida no olho mgico do pequeno armrio de remdios do
banheiro. Dana comeou a despir-se. Tirou a blusa e o suti.
- Cara, olhe s aquelas tetas!
- Espetaculares. 
- Espere. Ela est tirando a saia e a calcinha.
- Pessoal, olha aquele rabo! Quero um pedao dele.
Viram Dana entrar no chuveiro e fechar a porta do boxe. A
porta comeou a ficar embaada.
Um dos homens deu um suspiro.
- S isso, por ora. Filmada s onze da noite.
Os tratamentos de quimioterapia eram um inferno. Adriamycin e Taxotere por via intravenosa, injetadas junto com soro
que saa de um pequeno frasco, e o processo levava quatro
horas.
O Dr Young disse a Jeff
- So momentos muito difceis para ela. Vai se sentir
nauseada e esgotada, alm de sofrer perda de cabelos. Para uma
mulher, esse s vezes  o efeito colateral mais devastador de
todos.
- Certo.
E na tarde seguinte, Jeff disse a Rachel:
- Vista-se. Vamos dar um passeio.
- Jeff, realmente no me sinto em condies de...
- Sem discusso.
Meia hora depois, os dois chegavam a uma loja de perucas,
e Rachel experimentava vrios modelos, sorria e dizia a Jeff
- So lindas. Prefere esta longa ou a curta?
- Gosto das duas - disse Jeff. - E quando se encher
dessas, volte e troque-as por uma castanha ou ruiva. - Sua
voz suavizou-se. - Pessoalmente, gosto do jeito como voc .
Os olhos de Rachel encheram-se de lgrimas.
- E eu gosto do jeito como voc .

DEZESSETE


Cada cidade tem seu prprio ritmo, e Roma no se parece com
nenhuma outra do mundo. Uma metrpole moderna enclausurada na histria medieval de sculos de glria. Move-se no
seu prprio ritmo compassado, pois no tem nenhum motivo
para se apressar. O amanh sempre chega quando bem lhe apraz.
Dana no ia a Roma desde que tinha doze anos, quando a me
e o pai a levaram para conhecer a Itlia. A aterrissagem no
Aeroporto Leonardo da Vinci despertou-Lhe uma imensido de
lembranas. O primeiro dia em Roma quando ela explorou o
Coliseu, onde os cristos haviam sido atirados aos lees. No
dormiu por uma semana depois dessa visita.
Foi com os pais ao Vaticano e  Escadaria de Espanha, e
jogou uma lira na Fonte de Trevi, desejando que a me no se
divorciasse do pai. Quando aconteceu o divrcio, Dana sentiu-se trada pela fonte.
Viu uma apresentao da pera Otelo, nas Termas de Caracala, os banhos romanos, e aquela foi uma noite que jamais
esqueceria.
Tomou sorvete na famosa Doney, na Via Veneto, e percorreu as ruas movimentadas do Trastevere. Dana adorou Roma e
sua gente. Quem poderia imaginar que eu voltaria aqui aps todos
esses anos,  procura de um assassino em srie?
Dana registrou-se no Hotel Ciceroni, perto da Piazza Navona.
- Buon giorno - cumprimentou-a o gerente do hotel.  uma grande alegria t-la hospedada conosco, Srta. Evans.
Soube que vai ficar uns dois dias, no?
Dana hesitou.
- Ainda no estou bem certa.
Ele sorriu.
- Nenhum problema. Temos uma bela sute para a senhorita. Se precisar de alguma coisa,  s nos avisar.
A Itlia  um pas to amistoso. E Dana pensou em seus antigos vizinhos, Dorothy e Howard Wharton. No sei como ouviram falar de mim, mas mandaram um homem de avio 
at aqui s
para me fazer uma proposta de trabalho.
Num impulso, Dana decidiu telefonar para os Whartons. Pedira  telefonista que ligasse para a Corporao Italiano Ripristino.
- Por favor, eu gostaria de falar com Howard Wharton.
- Poderia soletrar?
Ela soletrou.
- Obrigado. Um momento.
O momento acabou sendo cinco minutos. A mulher voltou  linha.
- Desculpe-me. No h ningum com esse nome aqui.
A nica coisa  que temos de estar em Roma amanh.
Dana telefonou para Dominick Romano, o ncora da televiso
Itlia-I.
- Sou eu, Dana. Cheguei, Dominick.
- Dana! Que alegria. Quando podemos nos encontrar?
- Diga voc.
- Onde est hospedada?
- No Hotel Ciceroni.
- Pegue um txi e diga ao motorista para lev-la ao Toula.
Me encontrarei l com voc em meia hora.
Toula, na Via Della Lupa, era um dos mais famosos restaurantes de Roma. Quando Dana chegou, Romano a esperava.
- Buon giorno.  bom ver voc sem as bombas.
- O mesmo digo eu, Dominick.
- Que guerra ftil. - Ele balanou a cabea. - Talvez
mais que a maioria das guerras. Bene! Que veio fazer em Roma?
- Vim ver um homem aqui.
- E qual o nome desse homem de sorte?
- Vincent Mancino.
A expresso no rosto de Dominick Romano alterou-se.
- Por que quer v-lo?
- Talvez no seja nada, mas estou dando seguimento a uma
investigao. Fale-me de Mancino.
Dominick Romano pensou cuidadosamente antes de abrir
a boca.
- Mancino foi ministro do Comrcio. O contexto em que
se fez foi a Mfia. Carrega um porrete bem grande. De qualquer modo, abandonou um cargo muito importante e ningum
sabe por qu. - Romano olhou para Dana, curioso. - Qual 
seu interesse nele?
Dana esquivou-se  pergunta.
- Sei que Mancino negociava um acordo comercial governamental com Taylor Winthrop quando se demitiu.
- Sim. Winthrop concluiu as negociaes com outra pessoa.
- H quanto tempo Taylor Winthrop estava em Roma?
Romano pensou por um momento.
- Uns dois meses. Mancino e Winthrop se tornaram bons
amigos de copo. - Acrescentou: - Alguma coisa deu errado.
- O qu?
- Quem  que sabe? Circulam todos os tipos de histrias
por aqui. Mancino tinha s uma filha, Pia, e ela desapareceu.
A mulher dele sofreu um colapso nervoso.
- Que quer dizer com a filha desapareceu? Foi seqestrada?
- No. Ela simplesmente... como posso dizer .. - Romano tentou em vo encontrar a palavra certa - ...desapareceu.
Ningum sabe o que aconteceu com ela. - Deu um suspiro.
- Mas de uma coisa tenho certeza: Pia era uma beldade.
- Onde est a mulher de Mancino?
- Dizem que est numa espcie de sanatrio.
- Sabe onde fica?
- No. E nem voc deve querer saber. - O garom aproximou-se da mesa. - Mas conheo este restaurante - disse
Dominick Romano. - Gostaria que eu escolhesse por voc?
- Sim.
- Bene. - Virou-se para o garom. - Prima, pasta fagioli.
Dopo, abbacchio arrosta com polenta.
- Grazie.
A comida estava estupenda e a conversa ficou leve e informal. Mas, quando os dois se levantaram para ir embora, Romano disse:
- Dana, fique longe de Mancino. Ele no  o tipo de homem que se interroga.
- Mas e se...
- Esquea-o. Em uma palavra... omert.
- Obrigada, Dominick. Agradeo seu conselho.
Os escritrios de Vincent Mancino ficavam num prdio moderno de sua propriedade na Via Sardegna. Sentado  mesa da
recepo no saguo de mrmore, um guarda corpulento e musculoso ergueu os olhos quando Dana entrou.
- Buon giorno. Posso aiutarla, signorina?
- Meu nome  Dana Evans. Eu gostaria de falar com o Sr.
Vincent Mancino.
- Tem hora marcada?.
- No.
- Ento, sinto muito.
- Diga-lhe que  sobre Taylor Winthrop.
O guarda examinou-a por um momento, depois pegou um
telefone e falou. Desligou-o e Dana esperou.
Que ser que vou descobrir?
O telefone tocou, o guarda atendeu e ouviu por um instante. Virou-se para Dana.
- Segundo andar. Uma pessoa l vai receb-la.
- Obrigada.
- Prego.
O escritrio de Vincent Mancino era pequeno e simples, em
nada semelhante ao que Dana imaginava. Mancino sentava-se
atrs de uma mesa caindo aos pedaos. Com sessenta e poucos
anos, era um homem de altura mediana com o peito largo, lbios
finos, cabelos brancos e nariz adunco. E os olhos mais frios que
Dana j vira. Na mesa, a fotografia numa moldura dourada de
uma linda adolescente.
Quando Dana entrou no escritrio, Mancino perguntou:
- Veio aqui para falar de Taylor Winthrop? - A voz era
grossa e rouca.
- Sim. Eu queria falar do...
- No h nada do que falar, signorina. Ele morreu num
incndio. Est ardendo no inferno e sua mulher e os filhos tambm esto ardendo no inferno.
- Posso me sentar, Sr Mancino?
Ele ia dizer "no". Mas acabou dizendo:
- Scusi. s vezes, quando fico irritado, esqueo as boas
maneiras. Prego, si accomodi. Por favor, sente-se.
Dana pegou uma cadeira diante dele.
- O senhor e Taylor Winthrop estavam negociando um
acordo comercial entre seus dois governos.
- Sim.
- E ficaram amigos?
- Durante algum tempo, forse.
Dana deu uma olhada na foto em cma da mesa.
-  sua filha?
Mancino no respondeu.
- Ela  linda.
- Sim, ela era muito linda.
Dana olhou para ele, aturdida.
- Ela no est viva? - Viu que ele a examinava, tentando decidir o que dizer
Acabou dizendo:
- Viva? Me diga voc. - A voz saiu cheia de paixo.
- Levei seu amigo americano, Taylor Winthrop, para minha casa. Ele comungou com a gente. Apresentei-o aos meus
amigos. Sabe como ele me retribuiu? Engravidou minha linda filha virgem. Ela s tinha dezesseis anos. Ficou com medo
de me contar, porque sabia que eu o mataria, por isso fez...
fez um aborto. - Ele cuspiu a palavra como um antema. Winthrop teve medo da publicidade, por isso no mandou
Pia a um mdico. No. Ele... ele a mandou a um aougueiro.
- Os olhos encheram-se de lgrimas. - Um aougueiro que
Lhe destruiu o tero. Minha filha de dezesseis anos, signorina... - A voz saiu engasgada. - Taylor Winthrop no
apenas destruiu minha filha, ele assassinou meus netos e
todos os seus filhos e netos. Aniquilou o futuro da famlia
Mancino. - Sorveu o ar num longo hausto para acalmarse. - Agora ele e sua famlia pagaram por esse terrvel pecado.
Dana ficou sentada ali, muda. -'
- Minha filha est num convento, signorina. Nunca mais
a verei. Sim, fiz um acordo com Taylor Winthrop. - Seus frios
olhos azuis vararam os de Dana. - Mas foi um acordo com o
diabo.
Ento j so dois, pensou Dana. E ainda faltava encontrar se
com Marcel Falcon.
No vo da KLM para a Blgica, Dana percebeu algum se sentando na poltrona a seu lado. Ergueu os olhos. Era um homem
atraente, com a expresso satisfeita, e que pedira obviamente 
aeromoa para trocar de lugar.
Olhou para Dana e sorriu.
- Bom dia. Permita que me apresente. Meu nome  David
Haynes. - Tinha sotaque de ingls.
- Dana Evans.
No revelou reconhecimento algum.
- Que lindo dia para voar, no?
- Maravilhoso - concordou Dana.
Ele olhava-a com admirao.
- Vai para Bruxelas a trabalho?
- Trabalho e lazer
- Tem amigos l?
- Alguns.
- Sou muito bem relacionado em Bruxelas.
Espere at Jeff ouvir isso, pensou Dana. E a a compreenso
atingiu-lhe mais uma vez. Ele est com Rachel.
David Haynes examinava-lhe o rosto.
- Voc me parece familiar
Dana sorriu.
- Eu tenho esse tipo de rosto.
Quando o avio pousou no aeroporto de Bruxelas e Dana
desembarcou, um homem dentro do terminal pegou o telefone
celular e informou a chegada.
David Haynes perguntou:
- Tem transporte para o seu hotel?
- No, mas posso...
- Por favor, me permita. - Levou Dana a uma comprida
limusine  espera com um motorista. - Vou deix-la no hotel
- disse a Dana. Deu uma ordem ao chofer e a limusine entrou
no trfego. -  a primeira vez que vem a Bruxelas?
- .
Estavam diante de uma grande arcada de compras com teto
solar
- Se pretende fazer alguma compra, eu lhe sugeriria aqui...
as Galerias St. Hubert - disse David Haynes.
- Parece linda.
David Haynes disse ao motorista.
- Pare um instante, Charles. - Virou-se para Dana. A  onde fica a famosa Fonte do Manneken Fis. - Era uma
esttua de bronze de um menino urinando, posta no alto de um
nicho em forma de concha de vieira. -  uma das mais famosas esttuas do mundo.
Enquanto eu estava na priso, minha mulher e filha morreram.
Se eu estivesse livre, poderia t-las salvado.
David Haynes dizia:
- Se estiver livre esta noite, eu gostaria de...
- Lamento - disse Dana. - Receio que no.
Matt fora chamado ao escritrio de Elliot Cromwell.
- Estamos sem nossos atores principais, Matt. Quando Jeff
volta?
- No sei ao certo, Elliot. Como sabe, ele est envolvido
numa situao pessoal com a ex-mulher, e suger que tirasse uma
licena sem vencimentos.
- Entendo. E quando Dana volta de Bruxelas?
Matt olhou para Elliot Cromwell e pensou: Eu nunca disse a
ele que Dana estava em Bruxelas.

DezOITO

A sede da OTAN, Organizao do Tratado do Atlntico Norte, fica no Prdio Leopoldo III, e, encimando o telhado, tremula a bandeira belga, trs faixas verticais: 
preta, amarela e
vermelha.
Dana estava certa de que ia encontrar sem dificuldade a
informao sobre o prematuro afastamento de Taylor Winthrop
do cargo na OTAN e depois voltaria para casa. Mas a OTAN
acabou se revelando um pesadelo de sopa de letrinhas. Alm
dos escritrios de seus dezesseis pases membros, havia os da
NAC, EAPC, NACC, ESDI, CJTF CSCE e no mnimo mais
uma dezena de acrnimos.
Ela decidiu ir ao prdio da assessoria de imprensa da OTAN,
na rue des Chapeliers, e encontrou Jean Somville na sala de
imprensa.
Ele levantou-se para cumpriment-la.
- Dana!
- Como vai, Jean?
- O que a traz a Bruxelas?
- Estou trabalhando numa matria - disse Dana. Preciso de alguma informao.
- Ah. Outra matria sobre a OTAN.
- Em certo aspecto - disse ela, cautelosa. - Taylor
Winthrop foi o conselheiro dos Estados Unidos na OTAN, certa ocasio.
- Sim. Fez um excelente trabalho. Era um grande homem.
Que grande tragdia ocorreu com aquela famlia. - Olhou para
Dana, curioso. - Mas o que quer saber?
Dana escolheu as palavras com todo o cuidado.
- Ele abandonou o posto em Bruxelas antes do mandato
expirar. Eu gostaria de saber qual foi o motivo.
Jean Somville encolheu os ombros.
-  muito simples. Ele terminou o que veio fazer aqui.
Dana sentiu uma aguda sensao de desapontamento.
- Quando Winthrop servia aqui, aconteceu alguma coisa... fora do comum? Houve algum tipo de escndalo relacionado a ele?
Jean Somville olhou-a, surpreso.
- Claro que no! Algum disse que Taylor Winthrop esteve envolvido em algum escndalo na OTAN?
- No - ela apressou-se a responder - Eu soube que
houve uma... uma... briga, um desentendimento entre Winthrop
e um homem, algum que trabalha aqui.
Somville franziu o cenho.
- Quer dizer, uma briga de natureza particular?
- .
Ele franziu os lbios.
- No sei. Mas posso descobrir
- Eu ficaria muito grata.
Dana telefonou para Jean Somville no dia seguinte.
- Conseguiu descobrir mais alguma coisa sobre Taylor
Winthrop?
- Lamento, Dana. Tentei. Receio que no haja nada a
descobrir - Ela j mais ou menos esperava esta resposta de
Jean Somville.
- Em todo caso, obrigada. - Sentiu-se derreada.
- Nenhum problema. Lamento que tenha perdido a viagem.
- Jean, li que o embaixador francs da OTAN, Marcel
Falcon, renunciou inesperadamente e voltou  Frana. Isso no
 fora do comum?
- No meio de um mandato, sim. Acho que sim.
- Por que ele renunciou?
- No h mistrio algum envolvendo o fato. Foi por causa de um acidente infeliz. O filho dele foi morto por um motorista que o atropelou e fugiu.
- Um motorista que o atropelou e fugiu? E no o pegaram?
- Ah, sim. Logo depois do acidente, ele se apresentou 
polcia.
Outro beco sem sada.
- Entendo - disse Dana.
- O homem se chamava Antonio Persico. E era chofer de
Taylor Winthrop.
Ela sentiu um calafrio repentino.
- Oh? Onde est Persico agora?
- Na priso de St. Gilles, aqui em Bruxelas. - Somville
acrescentou, desculpando-se: - Lamento no poder ser mais
til.
Dana recebeu um resumo da matria que lhe passaram por fax
de Washington. Antonio Persico, chofer que trabalhava para Taylor
Winthrop, foi condenado hoje  priso perptua porum tribunal belga
ao se confessar culpado pelo atropelamento e morte de Gabriel
Falcon, filho do embaixador francs nas Naes Unidas.
A priso de St. Gilles fica perto do centro de Bruxelas, num
antigo prdio branco com torres que o fazem parecer um castelo. Dana telefonou com antecedncia e conseguiu uma permisso para entrevistar Antonio Persico. Ao chegar 
l, entrou no
ptio da priso e foi escoltada at o escritrio do diretor
- Voc veio falar com Persico.
- Sim.
- Muito bem.
Aps uma rpida revista, foi levada por um guarda  sala de
entrevista, onde Antonio Fersico a esperava. Era um homem
pequeno, dois enormes olhos verdes e um rosto que no parava
de se contorcer com tiques nervosos.
Quando ela entrou, as primeiras palavras de Persico foram:
- Graas a Deus algum finalmente apareceu! Voc veio
me tirar j daqui.
Dana olhou para ele, intrigada,
- Eu... eu lamento. Receio que no possa fazer isso.
Os olhos de Persico estreitaram-se.
- Ento por que veio? Eles prometeram que algum viria
me tirar daqui.
- Vim para falar sobre a morte de Gabriel Falcon.
A voz de Persico elevou-se.
- No tive nada a ver com aquilo. Sou inocente.
- Mas voc confessou.
- Menti.
Dana perguntou:
- Por que mentiria...?
Antonio Persico olhou dentro dos olhos dela e disse, ressentido:
- Recebi dinheiro. Foi Taylor Winthrop quem o matou.
Houve um longo silncio.
- Conte como foi isso.
As contores faciais intensificaram-se.
- Aconteceu numa noite de sexta-feira. A esposa do Sr
Winthrop estava em Londres naquele fim de semana. - A voz
saa com esforo. - O Sr Winthrop estava sozinho. Resolveu
ir  Ancienne belgique, uma boate. Eu me ofereci para lev-lo
de carro, mas ele disse que ia dirigindo. - Persico interrompeu-se, lembrando.
- Que aconteceu ento? - exortou Dana.
- O Sr Winthrop chegou em casa tarde, muito bbado.
Me disse que um rapaz atravessara correndo na frente do carro. Ele... ele o atropelou. O Sr Winthrop no queria um escndalo e por isso no parou. A ficou com medo 
de que algum
pudesse ter visto o acidente, dado o nmero da placa  polcia,
e que logo iriam busc-lo. Ele tinha imunidade diplomtica, mas
disse que se a notcia fosse publicada estragaria o plano russo.
Dana franziu as sobrancelhas.
- Plano russo?
- . Foi o que ele disse.
- Que  o plano russo?
Ele deu de ombros.
- No sei. Ouvi-o dizendo isso pelo telefone. Parecia um
doido. - Persico balanou a cabea. - Repetia sem parar ao
telefone s isto: "O plano russo tem de continuar. J fomos longe demais para deixar que alguma coisa o detenha agora."
- E no tem nenhuma idia do que ele falava?
- No.
- Lembra-se de mais alguma coisa que ele disse?
Persico pensou por um momento.
- Disse alguma coisa como: "Todas as peas se encaixaram." - Olhou para Dana. - Fosse o que fosse, parecia muito
importante.
Ela absorvia cada palavra.
- Sr Persico, por que assumiu a culpa pelo acidente?
O queixo de Persico endureceu.
- J lhe disse. Fui pago. Taylor Winthrop disse que se eu
confessasse me daria um milho de dlares e cuidaria de minha
famlia enquanto eu estivesse na priso. Disse que podia conseguir uma sentena curta. - Rangia os dentes. - Como un
idiota, aceitei. - Mordeu o lbio inferior - E agora ele est
morto e vou passar o resto da vida aqui. - Seus olhos encheram-se de lgrimas.
Dana ficou chocada com o que acabara de ouvir. Acabou
perguntando:
- J contou isso a algum?
Persico disse, com amargura.
- Claro. Assim que soube da morte de Taylor Winthrop,
contei  polcia sobre nosso acordo.
- E
- Riram na minha cara.
- Sr Persico. vou lhe fazer uma pergunta muito importante. Pense com cuidado antes de responder. Algum dia disse a
Marcel Falcon que foi Taylor Winthrop quem matou o filho dele?
- Claro. Achei que ele ia me ajudar
- Quando contou, o que foi que Marcel Falcon disse?
"- Suas palavras exatas foram: "Que o resto de sua famlia
junte-se a ele no inferno."
Meu Deus. Agora so trs, pensou Dana.
Tenho de falar com Marcel Falcon em Paris.
Era impossvel no sentir a magia de Paris, mesmo sobrevoando a cidade e preparando-se para aterrissar. Era a cidade da luz,
a cidade dos amantes. No um lugar para se ir sozinha. Paris
causava-lhe uma dolorosa saudade de Jeff:
Na recepo do Hotel Plaza Athne, Dana conversava com
Jean-Paul Hubert, da Televiso Metro 6.
- Marcel Falcon? Claro. Todo mundo sabe quem ele .
- O que pode me dizer dele?
-  uma personalidade e tanto. Isso que vocs americanos chamam de magnata.
- Que  que ele faz?
- Falcon tem uma enorme empresa farmacutica. H alguns anos, foi acusado de forar empresas menores a sair do ramo,
mas como tinha ligaes polticas nada lhe aconteceu. O primeiro-ministro francs inclusive o nomeou embaixador na OTAN.
- Mas ele renunciou - disse Dana. - Por qu?
- Ah,  uma triste histria. O filho dele foi atropelado e
morto em Bruxelas por um motorista embriagado, e Falcon no
conseguiu segurar a barra. A mulher teve um colapso nervoso.
Hoje est num sanatrio. - Jean-Paul olhou para ela e disse,
srio: - Dana, se est pensando em fazer uma matria sobre
Falcon, tome cuidado com o que vai escrever. Ele tem fama de
ser um homem muito vingativo.
Foi necessrio um dia para conseguir marcar um encontro com
Marcel Falcon.
Quando ela entrou por fim no escritrio do ex-embaixador,
ele disse:
- Concordei em receb-la porque sou um admirador seu,
mademoiselle. Suas transmisses da zona de guerra foram muito
corajosas.
- Obrigada.
Marcel Falcon era um homem de aparncia imponente,
corpulento, com traos fortes e olhos azuis penetrantes.
- Por favor, sente-se. O que posso fazer por voc?
- Eu queria lhe perguntar sobre seu filho.
- Ah, sim - disse, o olhar desolado. - Gabriel era um
garoto maravilhoso.
- O homem que o atropelou...
- O chofer
Dana olhou para ele, estupefata.
Pense com cuidado antes de responder. Algum dia voc disse a
Marcel Falcon que foi Taylor Winthrop o responsvel pela morte do
filho dele?
- Claro. Achei que ele ia me ajudar.
- Quando lhe contou, o que foi que Marcel Falcon disse?
- Suas palavras exatas foram: "Que o resto de sua famliajunte-se a ele no inferno."
E agora Marcel Falcon agia como se no soubesse da verdade.
- Sr Falcon, quando serviu na OTAN, Taylor Winthrop
tambm estava l. - Observava o rosto de Falcon,  procura
da mnima mudana de expresso. No viu nenhuma.
- Sim. Ns nos conhecemos - disse, num tom casual.
S isso? Dana se perguntava. Sim. Ns nos conhecemos. Que
est escondendo?
- Sr Falcon, eu gostaria de falar com sua mulher se...
- Lamento, mas ela viajou de frias.
A mulher teve um colapso nervoso. Hoje est num sanatrio
em Cannes.
Ou Marcel Falcon se achava num estado de completa
autonegao ou professava total ignorncia por um motivo mais
sinistro.
Dana telefonou para Matt do quarto no Plaza Athne.
- Dana, quando  que voc volta?
- S tenho mais uma pista a desvendar, Matt. O chofer
de Taylor Winthrop me disse que ele falou de algum plano secreto russo que no queria que fosse interrompido. vou ver se
consigo descobrir do que ele falava. Quero conversar com alguns dos scios dele em Moscou.
- Est bem. Mas Cromwell quer voc de volta ao estdio
o mais rpido possvel. Tim Drew  nosso correspondente em
Moscou. vou pedir que a receba. Ele pode ser muito til.
- Obrigada. No devo ficar mais que um ou dois dias em
Moscou.
- Dana?
- Sim?
- Deixe pra l. At logo.
Obrigada. No devo ficar mais que um ou dois dias em Moscou.
Dana?
Sim?
Deixe pra l. At logo.
Fim da fita.
Dana telefonou para casa.
- Boa noite, Sra. Daley .. ou melhor, boa tarde.
- Srta. Evans! Que maravilha ter notcias suas.
- Como est indo tudo?
- Simplesmente esplndido.
- Como vai Kemal? Algum problema a?
- Nenhum. Sem dvida, ele sente sua falta.
- Tambm sinto falta dele. Pode cham-lo?
- Ele est tirando um cochilo. Quer que o acorde?
Dana se surpreendeu:
- Tirando um cochilo? No outro dia quando telefonei, ele
estava tirando um cochilo.
- Pois . O rapazinho chegou em casa do colgio se sentindo to cansado que achei que um cochilo lhe faria bem.
- Entendo... Bem, diga a ele que o amo. Telefonarei amanh. Diga tambm que vou levar um urso da Rssia para ele.
- Um urso? Bem! Ele vai ficar doido de empolgao.
Depois telefonou para Roger Hudson.
- Roger, detesto abusar, mas preciso de um favor
- Se eu puder fazer alguma coisa...
- Estou de partida para Moscou e quero conversar com
Edward Hardy, o embaixador americano l. Imaginei que voc
talvez o conhecesse.
- Na verdade, conheo.
- Estou em Paris. Se pudesse passar uma carta de apresentao por fax, eu ficaria muito grata.
- Posso fazer melhor que isso. vou telefonar para ele e dizer que espere voc.
- Obrigada, Roger. Fico muito grata.
Era vspera do Ano-Novo. Foi um choque lembrar-se que aquele deveria ser o dia do seu casamento. Logo, disse Dana a si
mesma. Logo. Ps o casaco e saiu.
O porteiro perguntou:
- Txi, Srta. Evans?
- No, obrigada. - No tinha para onde ir. Jean-Paul
Hubert viajara para visitar a famlia. Esta no  uma cidade para
se ficar sozinha, decidiu Dana.
Ps-se a andar, tentando no pensar em Jeff e Rachel. Tentando simplesmente no pensar. Passou por uma igrejinha aberta
e, num impulso, entrou. O interior abobadado proporcionou-Lhe uma sensao de paz. Sentou-se num banco e fez uma orao silenciosa.
 meia-noite, enquanto Dana andava pelas ruas, Paris explodia numa cacofonia de barulho e confetes. Imaginava o que
fazia Jeff. Ele e Rachel estariam fazendo amor? Ele no telefonara.
Como pde esquecer que aquela noite era to especial?
No quarto de hotel, perto da cmoda, o telefone celular de
Dana, que cara da bolsa, tocava.
Quando voltou para o Plaza Athne, eram trs da manh.
Entrou no quarto, despiu-se e enfiou-se na cama. Primeiro o
pai, agora Jeff. O abandono entremeava-se por sua vida como
um fio escuro numa tapearia. No vou sentir pena de mim mesma, jurou. E pensar que esta ia ser a noite do meu casamento. Oh,
Jeff, por que no me telefona?
Chorou at adormecer.

DezenOVe

O vo para Moscou na Sabena Airlines levou trs hotas e meia.
Dana reparou que a maioria dos passageiros usava roupas quentes, e as prateleiras de bagagem estavam cheias de casacos de
pele, chapus e cachecis.
Eu devia ter me agasalhado melhor, pensou. Bem, s vou ficar
em Moscou dois ou trs dias.
No parava de pensar nas palavras de Antonio Persico:
Winthrop parecia um doido. Repetia sem parar ao telefone: "O plano russo tem de continuar. J fomos longe demais para deixar que
alguma coisa o detenha agora."
Em que plano importante Wnthrop trabalhava? Que peas se
haviam encaixado? E logo depois o presidente o nomeou embaixador em Moscou.
Quanto mais informao obtenho, menos sentido faz, decidiu
Dana.
Para sua surpresa, o Aeroporto Internacional Sheremetyevo 
estava repleto de turstas. Por que uma pessoa s visita a Rssia
no inverno?, perguntava-se.
Ao chegar  esteira das bagagens, viu um homem parado
ali perto que a olhava de esguelha. Sentiu o corao saltar.
Eles sabiam que eu vinha para c, pensou. Como poderiam ter
sabido?
O homem aproximava-se dela.
- Dana Evans? - Tinha um forte sotaque eslovaco.
- Sim...
Abriu um largo sorriso e disse, entusiasmado:
- Sou seu maior f! Vejo voc na televiso o tempo todo.
Dana sentiu uma onda de alvio.
- Oh. Sim. Obrigado.
- Ser que poderia me deixar muito feliz me dando seu
autgrafo?
- Claro.
Ele atirou um pedao de papel diante de Dana.
- No tenho caneta.
- Eu tenho. - Ela pegou a caneta de ouro nova e deulhe seu autgrafo.
- Spasiba! Spasiba!
Quando ia pr a caneta de volta na bolsa, algum deu-lhe
um tranco e a caneta caiu no piso de concreto. Dana agachou-se e pegou-a. O invlucro rachara.
Espero que tenha conserto, pensou. E olhou-a mais de perto. Um fio fino aparecia pela rachadura. Aturdida, puxou-o
delicadamente. Tinha um microtransmissor preso ao fio. Fitou-o, ncrdula. Por isso  que sempre souberam onde eu estava! Mas quem o ps ali e por qu? Lembrou-se 
do carto que
viera junto com a caneta. Querida Dana, tenha uma viagem
segura. A Turma.
Furiosa, arrancou o fio, atirou-o no cho e esmagou-o com
o salto.
Numa sala de laboratrio isolada, o marcador de sinal num
mapa de repente desapareceu.
- Oh, merda!
- Dana?
Ela voltou-se. Viu o correspondente da WTN em Moscou
ali parado.
- Sou Tim Drew. Desculpe o atraso. O trfego aqui  um
pesadelo. - Era um homem alto, de seus quarenta e poucos
anos, cabelos ruivos e um sorriso simptico. - Estou com um
carro esperando l fora. Matt me disse que voc s vai ficar aqui
dois dias.
- Isso mesmo.
Os dois pegaram a bagagem de Dana na esteira e seguiram
para a rua.
O trajeto de carro em Moscou lembrava uma cena de Dr. Jivago.
Parecia que toda a cidade estava envolta num manto de pura
neve branca.
- Mas  to lindo! - exclamou Dana. - H quanto tempo mora aqui?
- Dois anos.
- E voc gosta?
-  meio assustador. Yeltsin est sempre vendendo gato
por lebre, e ningum sabe o que esperar de Vladimir Putin. Os
internos esto dirigindo o manicmio. - Deu uma freada brusca
para dar passagem a pedestres imprudentes. - Fez reserva no
Hotel Sevastopol?
- Sim. Como ?
-  um dos nossos tpicos hotis da Intourist. Fique certa
de que haver algum no seu andar de olho em voc.
As ruas estavam apinhadas de pessoas envoltas em peles,
suteres e sobretudos grossos. Tim Drew deu uma olhada em
Dana.
-  melhor comprar umas roupas mais quentes, seno vai
congelar
- Vou ficar bem. Devo estar voltando amanh ou depois
de amanh.
Adiante deles, viam-se a praa Vermelha e o Kremlin. O
Kremlin erguia-se altaneiro numa colina que dominava a margem esquerda do rio Moscova.
- Meu Deus,  impressionante - disse Dana.
- . Se aquelas paredes falassem, a gente ouviria muitos
gritos - continuou Tim Drew -  um dos prdios mais famosos do mundo. Ocupa um pedao de terra cobrindo a pequena
colina Borovitsky na margem direita e...
Dana parou de ouvir. Pensava: E se Antonio Persico mentiu?
E se inventou a histria de Taylor Winthrop matar o garoto? E se
mentiu sobre o plano russo?
- Essa  a sada da praa Vermelha pelo muro leste. A Torre
Kutayfa ali  a entrada dos visitantes no muro oeste.
Mas ento por que Taylor Winthrop estava to desesperado em
vir para a Rssia? Ser apenas embaixador no teria significado tanto para ele.
Tim Drew dizia:
- Este  o lugar em que se concentrou todo o poder russo
por sculos a fio. Ivan o Terrvel e Stalin tiveram seus quartisgenerais a, depois Lenin e Kruschev
Todas as peas se encaixaram. Preciso descobrir o que ele queria dizer com isso.
Haviam parado diante de um hotel enorme.
- Chegamos - disse Tim Drew
- Obrigada, Tim. - Dana saltou do carro e foi atingida
por uma slida onda de ar enregelante.
- Entre logo - gritou ele. - Eu levo suas malas para
dentro. Alis, se estiver livre, gostaria de lev-la para jantar
- Muito obrigada.
, - Tem um clube particular com uma comida muito gostosa. Acho que vai gostar
- Excelente.
O saguo do Hotel Sevastopol era grande, ornado e cheio
de gente. Vrios funcionrios trabalhavam atrs do balco da
recepo. Dana aproximou-se de um deles.
O funcionrio ergueu os olhos.
- Da?
- Sou Dana Evans. Tenho uma reserva.
O homem olhou-a por um momento e disse, nervoso:
- Ah, sim. Srta. Evans. - Entregou-lhe um carto de
registro. - Pode preencher esta ficha, por favor? E vou precisar de seu passaporte.
Quando ela comeou a escrever, o funcionrio olhou para
um homem parado num canto do outro lado do saguo e assentiu com a cabea. Dana entregou-lhe o carto.
- Vou pedir que a acompanhem at o quarto - disse o
recepcionista.
- Obrigada.
O quarto tinha um vago ar do refinamento e da elegncia de
tempos passados, e a moblia parecia envelhecida, gasta, e cheirava a mofo.
Uma mulher atarracada, usando um uniforme largo, entrou
com as malas. Dana deu-lhe uma gorjeta. Ela grunhiu e saiu.
Dana pegou o telefone e ligou para 252-2451.
- Embaixada americana.
; - Gabinete do embaixador Hardy, por favor
- Um momento.
- Gabinete do embaixador Hardy.
'. - Al. Aqui  Dana Evans. Posso falar com o embaixador?
- Poderia me dizer do que se trata?
- ...  um assunto pessoal.
- S um momento, por favor
Trinta segundos depois, o embaixador Hardy estava ao telefone.
- Srta. Evans?
- Sim.
- Bem-vinda a Moscou.
- Obrigada.
- Roger Hudson telefonou para dizer que ia chegar. Que
posso fazer por voc?
- Ser que eu podia dar um pulo a para v-lo?
- Claro. Eu... Espere um momento. - Houve uma breve
pausa e o embaixador voltou  linha. - Que tal amanh de
manh? s dez horas?
- Para mim est timo. Muito obrigada.
- At amanh.
Dana olhou pela janela a multido apertando os passos no
frio de rachar e pensou: Tim estava certo.  melhor eu comprar
algumas roupas mais quentes.
A loja de departamentos GUM ficava a dois quarteires do
hotel. Era um enorme emprio, estocado com produtos baratos que variavam de roupas a material pesado.
Dana aproximou-se da seo feminina, onde viu casaces
grossos pendurados em araras. Escolheu um de l vermelha e
um cachecol da mesma cor para combinar. Levou vinte minutos para encontrar um funcionrio capaz de realizar a transao.
Quando voltou ao quarto do hotel, o celular ps-se a tocar. Era
Jeff.
- Al, querida. Tentei lhe telefonar na vspera do Ano.
Novo, mas no houve resposta no celular, e eu no sabia ondE
encontr-la.
- Lamento, Jeff. - Ento ele no esqueceu! Graas a Deus,
- Onde voc est
- Em Moscou.
- Est tudo bem, querida?
- timo. Jeff, fale-me de Rachel.
-  cedo demais para dizer alguma coisa. Eles vo tentar
uma nova terapia amanh. Ainda  muito experimental. O resultado sair em poucos dias.
- Espero que d certo - disse Dana.
- Est frio a?
Dana riu.
- voc no pode imaginar. Sou uma pedra de gelo humana.
- Eu queria estar a para derreter voc.
Conversaram por mais uns cinco minutos, e Dana ouviu a
voz de Rachel chamando Jeff.
- Tenho de ir, querida. Rachel precisa de mim.
Eu tambm preciso de voc, pensou.
- Eu te amo.
- Eu amo voc?
A embaixada americana no bulevar Novinsky, 19-23, era um
prdio antigo, em pssimas condies, com guardas russos a
postos em guaritas do lado de fora. Uma longa fila de pessoas
esperava pacientemente. Dana passou a fila e deu o nome a um
guarda. Ele olhou a lista de servio e fez-Lhe um sinal para entrar
Dentro do saguo, ela viu um fuzileiro naval americano a
postos numa guarita  prova de bala. Uma sentinela de uniforme revistou o contedo de sua bolsa.
- Tudo bem.
- Obrigada. - Dana foi at a escrivaninha. - Dana
Evans.
Um homem de p junto  mesa disse:
- O embaixador est  sua espera, Srta. Evans. Venha
comigo, por favor
Ela acompanhou-o, subiu alguns degraus de mrmore e
entrou numa ante-sala ao fim de um longo corredor. Quando
entrou, uma mulher atraente de quarenta e poucos anos sorriu
e exclamou:
- Srta. Evans,  um grande prazer. Sou Lee Hopkins, secretria do embaixador. Pode entrar
Dana dirigiu-se ao escritrio interno. O embaixador Edward
Hardy levantou-se quando ela se aproximou da mesa.
- Bom dia, Srta. Evans.
- Bom dia, embaixador. Obrigada por me receber
O embaixador era um homem alto e afetado, com a simptica atitude de um poltico.
-  um enorme prazer conhec-la. Posso servir-lhe alguma coisa?
- No, obrigada.
- Por favor, sente-se.
Dana sentou-se.
- Fiquei encantado quando Roger Hudson me disse que
esperasse sua visita. Chegou numa poca interessante.
- ?
- Detesto dizer isso, mas, aqui entre ns dois, receio que
este pas esteja em queda livre. - Suspirou. - Para falar com
toda franqueza, Srta. Evans, no fao a mnima idia do que
vai acontecer em seguida aqui.  um pas com o dobro do tamanho dos Estados Unidos, com oitocentos anos de histria, e
a gente o v escoando pelo esgoto. Os criminosos esto governando a Rssia.
Dana olhou-o, curiosa.
- Que quer dizer?
O embaixador recostou-se na cadeira.
- A lei aqui diz que nenhum membro da Duma, a cmara
baixa do Parlamento, pode ser processado por crime algum. O
resultado  que a Duma est cheia de homens procurados por
todos os tipos de delitos... gngsteres que j cumpriram tempo
na priso e criminosos em vias de cometer crimes. Nenhum deles
pode ser tocado.
- Isso  incrvel - disse Dana.
- Pois . - Ele examinou-a por algum tempo. - bem,
em que posso ajud-la, Srta. Evans?
- Eu queria Lhe fazer algumas perguntas sobre Taylor
Winthrop. Estou fazendo uma matria sobre a famlia.
O embaixador Hardy balanou a cabea, pesaroso.
- Parece uma tragdia grega, no?
- Sim. - Mais uma vez a mesma frase.
O embaixador Hardy olhou para Dana, curioso.
- O mundo ouviu essa histria repetidas vezes. Acho que
no h muito mais o que dizer.
- Quero cont-la de um ngulo mais pessoal - disse
Dana, cuidadosa. - Quero saber como era mesmo Taylor
Winthrop, que tipo de homem era ele, quem eram seus amigos
aqui, se tinha inimigos...
- Inimigos? - Ele pareceu surpreso. - No. Todo mundo adorava Taylor Provavelmente, foi o melhor embaixador que
j tivemos aqui.
- Trabalhou com ele?
- Sim. Fui vice-presidente da misso durante um ano.
- Embaixador Hardy, sabe se Taylor Winthrop trabalhava
em alguma coisa em que... - interrompeu-se, sem saber como
pr em palavras - ...todas as peas tinham se encaixado?
O embaixador Hardy franziu o cenho.
- Refere-se a algum acordo comercial ou governamental?
- No sei ao certo a que me refiro - confessou Dana.
O embaixador Hardy pensou por um momento.
- Eu tambm no. No, no fao a mnima idia do que
poderia ser
Ela perguntou:
- Algumas das pessoas que trabalham hoje aqui na embaixada... tambm trabalharam para ele?
- Ah, sim. Na verdade, minha secretria Lee era secretria de Taylor.
- O senhor se incomodaria se eu falasse com ela?
- De modo algum. Alis, vou Lhe dar uma lista das pessoas
que poderiam ser teis.
- Ah, seria maravilhoso. Obrigada.
Ele levantou-se.
- Tome cuidado enquanto estiver aqui, Srta. Evans. Tem
havido muitos crimes nas ruas.
- Foi o que me disseram.
- No beba gua da torneira. Nem os russos bebem. Oh,
e quando comer fora especifique sempre chisti stol... quer dizer,
mesa limpa... do contrrio vai encontrar sua mesa cheia de tiragostos que no quer. Quando fizer compras, a Arbat  o melhor
lugar. As lojas l tm de tudo. E seja cuidadosa nos txis. Tome
os mais velhos, caindo aos pedaos. Os artistas dos golpes sujos
dirigem os novos.
- Obrigada. - Dana sorriu. - Vou me lembrar
Cinco minutos depois, Dana conversava com Lee Hopkins, a
secretria do embaixador, as duas sozinhas numa pequena sala
fechada.
- Quanto tempo trabalhou para o embaixador Winthrop?
- Um ano e meio. Por que quer saber?
- O embaixador Winthrop fez algum inimigo quando esteve aqui?
Lee Hopkins olhou para Dana, surpresa.
- Inimigos?
" - Sim. Num trabalho desses; imagino que se tenha que
dizer "no" a pessoas que podem ficar ressentidas. Tenho certeza que o embaixador Winthrop no podia agradar a todos.
Lee Hopkins balanou a cabea.
- No sei o que est procurando, Srta. Evans, mas, se pretende escrever coisas ruins sobre Taylor Winthrop, veio buscar
ajuda com a pessoa errada. Ele era o homem mais bondoso e
atencioso que j conheci.
L vamos ns mais uma vez, pensou Dana.
Nas duas horas seguintes, Dana conversou com mais cinco
pessoas que haviam trabalhado na embaixada durante a gesto
de Taylor Winthrop.
Ele era um homem brilhante...
Ele gostava mesmo das pessoas...
Desviava de seu caminho para nos ajudar...
Inimigos? No Taylor Winthrop...
Estou perdendo meu tempo, pensou. Foi mais uma vez procurar o embaixador Hardy.
- Conseguiu o que queria? - perguntou ele. Parecia
menos amistoso.
Dana hesitou.
- No exatamente - respondeu, com honestidade.
Ele curvou-se.
- E acho que no vai conseguir, Srta. Evans. No se estiver  procura de coisas negativas sobre Taylor Winthrop. voc
aborreceu todo mundo aqui. Eles adoravam o homem. Eu tambm. No tente desenterrar esqueletos que no existem. Se foi
para isso que veio aqui, pode partir
- Obrigada - disse Dana. - Eu vou.
No tinha a menor inteno de partir
O Clube Nacional VIP bem diante do Kremlin e da praa
Manej, era um restaurante e cassino privado. Tim Drew a esperava ali quando ela chegou.
- bem-vinda - disse. - Acho que vai gostar daqui. Este
restaurante recebe a nata dos badaladores e poderosos da alta
sociedade moscovita. Se uma bomba casse aqui, acho que o
governo se dissolveria.
O jantar foi delicioso. Comearam com blini e caviar, seguido de borscht, esturjo da Gergia com molho de castanha
d'gua, estrogonofe com arroz siouhom, e, de sobremesa, tartelettes
vatrushki de queijo.
- Mas  esplndida mesmo - disse Dana. - bem que
me disseram que a comida russa era fantstica.
-  - confirmou Tim Drew - Mas isso no  a Rssia.
 um pequeno osis especial.
- Como  viver aqui? - perguntou Dana.
Tim Drew pensou por um momento.
-  como estar parado junto a um vulco, esperando que
entre em erupo. A gente nunca sabe o que vai acontecer. Os
caras no poder esto roubando bilhes do pas e a populao est
passando fome. Foi isso que desencadeou a ltima revoluo. Deus
sabe o que vai acontecer agora. Para ser justo, esse  apenas um
lado da histria. A cultura aqui  incrvel. Eles tm o Teatro Bolshoi,
o grande Hermitage, o Museu Pushkin, o bal russo, o Circo de
Moscou... a lista continua, infindvel. A Rssia produz mais livros
que o resto do mundo junto, e o russo mdio l trs vezes mais
livros por ano que o cidado mdio nos Estados Unidos.
- Talvez estejam lendo os livros errados - disse Dana
desanimada.
-  possvel. Nesse momento, as pessoas se acham colhidas no meio do capitalismo e do comunismo, e nenhum dos dois
est funcionando. A administrao pblica  pssima, os custos esto inflacionados e o crime grassa por todo o pas. Ele olhou para Dana. - Espero no estar deixando 
voc deprimida.
- No. Me diga uma coisa, Tim, voc conheceu Taylor
Winthrop?
- Entrevistei-o algumas vezes.
- Por acaso ouviu alguma coisa sobre um grande projeto
em que ele estava envolvido?
- Ele estava envolvido em muitos projetos. Afinal, era
nosso embaixador.
- No estou falando disso. Refiro-me a alguma coisa diferente. Algo muito complicado... em que todas as peas tinhan
que se encaixar
Tim Drew pensou por um momento.
- Nada me vem  cabea.
- Conhece algum aqui com quem mantinha muito contato?
- Acho que algumas de suas contrapartes russas. Voc
podera falar com eles.
- Certo - disse Dana. - Vou falar
O garom trouxe a conta. Tim Drew passou os olhos pelas
comandas e ergueuos para Dana.
- Isso  tpico. H trs cobranas a mais separadas na
conta. E no adianta se dar o trabalho de pedir que as especifiquem. - Ele pagou a conta.
Quando j estavam na rua, Tim Drew perguntou a Dana;
- Voc anda armada?
Ela lanou-lhe um olhar de surpresa.
- Claro que no. Por qu?
- Isto  Moscou. Nunca se sabe. - Teve uma idia. - J
sei. Vamos dar uma parada no caminho.
Os dois entraram num txi e Tim Drew deu um endereo
ao motorista. Cinco minutos depois, pararam diante de uma loja
de armas e desceram do txi.
Dana olhou o interior da loja e disse:
- No vou andar por a com uma arma.
- Eu sei. S entre um instante comigo. - Os balces da
loja estavam cheios de todo tipo de arma imaginvel.
Ela olhou em volta.
- Qualquer pessoa pode entrar e comprar uma arma aqui?
- S precisam do dinheiro - disse Tim Drew
O homem atrs do balco resmungou alguma coisa em russo para Tim, que lhe disse o que queria.
- Da. - Enfiou a mo debaixo do balco e retirou-a com
um objeto pequeno, preto e cilndrico.
- Para que serve isso? - perguntou Dana.
- para voc. Um aerossol de pimenta. - Pegou-o. Basta apertar este boto aqui em cima, que os bandidos vo
sentir dores demais para incomod-la.
- No sei se... - disse.
- Confie em mim. Guarde-o. - Entregou-lhe o objeto,
pagou e os dois saram. - Gostaria de conhecer uma boate de
Moscou? - perguntou Tim Drew
- Parece interessante.
- timo. Vamos.
A Boate Vo Noturno na rua Tverskaya era suntuosa, com uma
decorao trabalhada, e estava cheia de russos bem-vestidos
jantando, bebendo e danando.
- No d a impresso de haver algum problema econmico aqui - comentou Dana.
- No, porque eles mantm os mendigos na rua.
s duas da manh, Dana voltou para o hotel, exausta. Tinha sido um dia muito longo. Sentada a uma mesa no saguo,
uma mulher registrava os movimentos dos hspedes.
Quando Dana entrou, olhou pela janela. Viu uma cena de
carto-postal de neve suave caindo  luz do luar.
Amanh, pensou, decidida, vo saber por que vim aqui.
O barulho do jato acima foi to alto que pareceu que o avio
poderia atingir o prdio. O homem levantou-se de um salto da
escrivaninha, pegou um binculo e foi at a janela. A cauda da
aeronave que se afastava rpido descia como se preparando para
pousar no pequeno aeroporto a um quilmetro dali. Tudo na
paisagem, a no ser as pistas de decolagem, estava coberto de
neve at onde a vista alcanava. Era inverno e na Sibria.
- Pois bem - disse ele ao assistente -, os chineses so
os primeiros a chegar - O comentrio no pedia resposta.
- Eu soube que nosso amigo, Ling Wong, no vai voltar.
Quando retornou do nosso ltimo encontro, de mos vazias,
no teve uma feliz volta ao lar. Muito triste. Era um homem
decente.
Nesse momento, um segundo jato rugiu acima. Ele no reconheceu a origem. Depois que aterrissou, ele focou as poderosas lunetas do binculo nos homens saindo da cabine 
e
descendo para a pista. Alguns deles no fizeram o mnimo esforo para ocultar as pistolas automticas que levavam.
- Chegaram os palestinos.
Outro jato bramiu acima. Ainda faltam doze, ele pensou.
Quando comearmos as negociaes amanh, ser o maior leilo
at agora.
Voltou-se mais uma vez para o assistente.
- Escreva um memorando.
MEMORANDO CONFIDENCIAL PARA TODO O PESSOAL DA OPERAO (DESTRUIR APS RECEBIMENTO)
CONTINUAR ESTREITA VIGILNCIA DO OBJETO
ALVO. INFORMAR ATIVIDADES E FICAR A POSTOS
PARA POSSVEL ELIMINAO.

VINTE

Ao acordar, Dana telefonou para Tim Drew
- Soube mais alguma coisa do embaixador FIardy? perguntou ele.
- No. Acho que o ofendi. Tim, preciso falar com voc.
- Est bem. Tome um txi e me encontre no Clube Boyrsky, na rua Treatilny Proyez, cento e quarenta.
- Aonde? Eu nunca...
- O motorista sabe. Pegue um carro velho.
- Certo.
Dana saiu do hotel ao encontro de um vento gelado e
uivante. Sentiu-se feliz por estar usando o novo casaco de l
vermelha. Uma placa com mostrador num prdio do outro
lado da rua informou-lhe que fazia -29 graus. Meu Deus,
pensou. Em Fahrenheit, isso  mais ou menos vinte graus abaixo de zero.
Viu um reluzente txi novinho em folha parado diante do
hotel. Ela recuou e esperou at um passageiro entrar nele. O
txi seguinte parecia velho. Ela entrou. O motorista lanoulhe um olhar interrogativo pelo espelho retrovisor
Dana disse, devagar:
- Quero ir para o nmero cento e quarenta da rua Treat...
- Hesitou. - ...rilny .. - Respirou fundo. - ...Proyez...
O motorista retrucou, impaciente:
- Quer ir ao Clube Boyrsky?
- Da.
O txi arrancou. Passaram por avenidas com trfego intenso e pedestres descuidados atravessando apressados as ruas geladas. A cidade parecia sobreposta por uma camada 
de ptina
fosca e cinzenta. E no  s o tempo, pensou Dana.
O Clube Boyrsky acabou se revelando um ambiente moderno e
confortvel, com poltronas e sofs de couro. Tim Drew a esperava numa poltrona junto  janela.
- Vejo que encontrou logo.
- O motorista falava ingls - disse, sentando-se.
- Voc teve sorte. Alguns deles no falam nem russo, pois
vm de muitas provncias distantes e diferentes.  impressionante que este pas consiga sequer funcionar. Me faz lembrar
de um dinossauro agonizante. Sabe como so grandes as dimenses da Rssia?
- No exatamente.
-  duas vezes maior que os Estados Unidos. Tem treze
fusos horrios e fronteiras com quatorze pases. Quatorze pases.
-  impressionante - disse Dana. -Tim, quero falar com
alguns russos que faziam transaes com Taylor Winthrop.
- Isso inclui quase todo mundo no governo russo.
- Eu sei. Mas deve haver alguns russos de quem ele era
mais prximo que outros. O presidente...
- Talvez algum num escalo mais baixo - disse Tim
Drew, indiferente. - Eu diria que, de todas as pessoas com quem
ele lidava, provavelmente era mais ntimo de Sasha Shdanoff.
- Quem  Sasha Shdanoff?
- O comissrio do Departamento Internacional de Desenvolvimento Econmico. Acho que Winthrop convivia com
ele tanto em termos sociais quanto oficiais. - Olhou atentamente para Dana. - O que est procurando, Dana?
- No sei ao certo - respondeu ela, honestamente. No sei ao certo.
O Departamento Internacional de Desenvolvimento Econmico era um enorme prdio de tijolos vermelhos na rua Ozernaya
e ocupava um quartero inteiro. Dentro da principal entrada,
havia dois policiais russos uniformizados junto  porta e um
terceiro sentado atrs de uma escrivaninha.
Dana dirigiu-se at a mesa. O guarda ergueu os olhos.
- Dobry dyen - disse ela.
- Zdrastaruytye. Ne...
Dana interrompeu-o.
- Desculpe-me. Vim aqui falar com o comissrio Shdanoff.
Sou Dana Evans. Trabalho para a Rede Washington Tribune.
O guarda conferiu uma folha de papel diante dele e balanou a cabea.
- Tem hora marcada?
- No, mas...
- Ento ter de marcar uma hora.  americana?
- Sim.
O guarda folheou alguns formulrios em sua mesa e entregou-lhe um.
- Preencha isto, por favor
- Pois no. Seria possvel ver o comissrio ainda esta tarde?
Ele piscou os olhos.
- Ya ne ponimayu. Vocs americanos esto sempre apressados. Em que hotel est?
- No Sevastopol. S preciso de alguns minutos...
Ele fez uma anotao.
- Algum entrar em contato com voc. Dobry dyen.
- Mas... - Ela percebeu a expresso do guarda. - Dobrydyen.
Dana ficou no quarto do hotel a tarde toda esperando um telefonema. s seis horas, ligou para Tim Drew.
- Foi ver Shdanoff? - perguntou ele.
- No. Eles vo telefonar para mim.
- No fique ansiosa, Dana. Est lidando com uma burocracia de outro planeta.
No incio da manh seguinte, Dana voltou ao Departamento
Internacional de Desenvolvimento Econmico. Encontrou o
mesmo guarda  mesa.
- Dobry dyen - ela disse.
Ele ergueu os olhos, impassvel.
- Dobry dyen.
- O Comissrio Shdanoff recebeu meu recado ontem?
- Seu nome?
- Dana Evans.
- Voc deixou um recado ontem?
- Deixei - disse ela, desanimada. - Com voc.
O guarda fez que sim com a cabea.
- Ento ele recebeu. Todos os recados so recebidos.
- Posso falar com a secretria do comissrio Shdanoff?
- Tem hora marcada?
Dana respirou fundo.
- No.
O guarda deu de ombros.
- Izvinitye, nyet.
- Onde posso...?
- Algum vai Lhe telefonar.
A caminho de volta para o hotel, Dana passou pela Detsky Mir,
uma loja de departamentos infantil, entrou e olhou em volta.
Viu uma seo dedicada a jogos. Num canto, havia uma prateleira de jogos de computador. Kemal vai gostar de um daqueles,
pensou. Comprou um jogo e ficou surpresa com o preo caro.
Voltou para o hotel a fim de esperar o telefonema. s seis horas, perdeu as esperanas. J ia descer para jantar quando o
telefone tocou.
- Dana? - Era Tim Drew
- Sim, Tim.
- No teve sorte ainda?
- Receio que no.
- bem, enquanto estiver em Moscou, no deve perder o
que  maravilhoso aqui. O bal  hoje  noite. Vo apresentar
Giselle. Est interessada?
- Muitssimo, obrigada.
- Passo a para peg-la daqui a uma hora.
O bal realizou-se no Palcio dos Congressos, com seis mil lugares, dentro do Kremlin. Foi uma noite mgica. A msica era
linda, a dana fantstica e o primeiro ato passou voando.
Quando as luzes se acenderam para o intervalo, Tim levantou-se.
- Siga-me. Rpido.
Um bando de pessoas punha-se a subir correndo a escadaria.
- Que est acontecendo?
- Voc vai ver
Ao chegarem ao ltimo andar, foram saudados pela viso
de meia dzia de mesas cheas de tigelas com caviar e vodca no
gelo. Os que haviam chegado ali primeiro serviam-se azafamados.
Dana voltou-se para Tim.
- Eles sabem mesmo como fazer um espetculo aqui.
- Assim  como vive a classe alta. Lembre-se que trinta
por cento da populao vivem abaixo da linha de pobreza.
Dana e Tim foram para junto das janelas, afastando-se da
multido.
As luzes comearam a piscar
- Hora do segundo ato.
O segundo ato foi encantador, mas a mente de Dana no
parou de repassar trechos de conversas.
TaylorWinthrop era scheisse. Inteligente, muito inteligente. Ele
armou uma cilada para mim...
Foi um acidente infeliz. Gabriel era um rapaz maravilhoso...
Taylor Winthrop acabou com o futuro da famlia Mancino...
Quando o bal terminou e os dois entraram no carro, Tim
Drew perguntou:
- Gostaria de tomar uma saideira no meu apartamento?
Ela virou-se para olh-lo de frente. Atraente, inteligente e
charmoso. Mas no era Jeff. O que acabou dizendo foi:
- Obrigada, Tim. Mas no.
- Oh. - Foi visvel a decepo de Tim. - Quem sabe
amanh?
- Eu adoraria, mas tenho de estar pronta de manh bem
cedo. - E estou loucamente apaixonada por outra pessoa.
Bem cedo na manh seguinte, Dana chegava mais uma vez no
Departamento Internacional de Desenvolvimento Econmico.
O mesmo guarda estava atrs da escrivaninha.
- Dobry dyen.
- Dobry dyen.
- Sou Dana Evans. Se no der para eu ver o comissrio,
posso ver o assistente dele?
- Tem hora marcada?
- No. Eu...
Ele entregou-lhe um formulrio.
- Preencha isto...
Assim que Dana chegou de volta ao quarto do hotel, o celular
comeou a tocar, e o corao a disparar
- Dana...
- Jeff!
Os dois gostariam de dizer tanta coisa um ao outro. Mas
Rachel se interpunha entre eles como uma sombra fantasmagrica, por isso no puderam dizer o que de mais importante lhes
passava pela mente: a doena dela. A conversa foi contida.
O telefonema do escritrio do comissrio Shdanoff chegou de
forma inesperada s oito horas da manh seguinte. Uma voz com
um forte sotaque disse:
- Dana Evans?
- Sim.
- Aqui  Yerik Karbava, assistente do comissrio Shdanoff.
Voc gostaria de v-lo?
- Sim! - Ela ficou meio esperando que o assistente Lhe perguntasse se tinha hora marcada. Mas, em vez disso, disse apenas:
- Esteja no Departamento Internacional de Desenvolvimento Econmico daqui a exatamente uma hora.
- Est bem. Muito obrigada... - A linha caiu.
Uma hora depois, ela entrava mais uma vez no saguo do imenso
prdio de tijolos. Foi at o mesmo guarda sentado atrs da escrivaninha.
Ele ergueu os olhos.
- Dobry dyen.
Ela forou um sorriso.
- Dobry dyen. Sou Dana Evans, e vim ver o comissrio
Shdanoff.
Ele encolheu os ombros.
- Lamento. Sem hora marcada...
Dana conteve a irritao.
- Tenho hora marcada.
Ele olhou-a, ctico.
- Da? - Pegou um telefone e falou por um momento.
Virou-se para ela. - Terceiro andar - disse, relutante. Algum vai receb-la l.
O escritrio do comissrio Shdanoff era enorme, velho, e
parecia como se houvesse sido decorado no incio da dcada
de 1920. Dentro da sala, dois homens sentados levantaram-se
assim que ela entrou. O mais velho apresentou-se:
- Sou o comissrio Shdanoff.
Sasha Shdanoff parecia ter cinqenta e poucos anos. Era
baixo e compacto, com ralos cabelos grisalhos, o rosto redondo, plido, e olhos castanhos inquietos que no paravam de
lanar-se por toda a sala como se  procura de alguma coisa.
Ele falava com um sotaque pesado. Usava um terno marrom
largo e sapatos pretos surrados. Indicou o segundo homem.
- Este  meu irmo, Boris Shdanoff.
Boris Shdanoff sorriu.
- Como vai, Srta. Evans?
Era completamente diferente do irmo. Parecia dez anos
mais moo, com um nariz aquilino e queixo firme. Usava um
terno Armani com uma gravata cinza Herms. E quase no tinha sotaque.
Sasha Shdanoff disse, orgulhoso:
- Boris est de visita, veio dos Estados Unidos.  adido
da embaixada russa no Congresso, em Washington.
- Tenho admirado seu trabalho, Srta. Evans - disse Boris
Shdanoff.
- Obrigada.
- Que posso fazer por voc? - perguntou Sasha Shdanoff.
- Est com algum tipo de problema?
- No, em absoluto - respondeu ela. - Eu queria fazer
algumas perguntas sobre Taylor Winthrop.
Ele lanou-lhe um olhar perplexo.
- Que quer saber sobre Taylor Winthrop?
- Sei que trabalhou com ele, e que se viam de vez em
quando, socialmente.
Sasha Shdanoff disse, cauteloso:
- Da.
- Eu queria que me desse sua opinio pessoal sobre ele.
- Que posso dizer? Acho que foi um bom embaixador para
o seu pas.
- Sei que ele era muito popular aqui e...
Boris Shdanoff interrompeu-a.
- Ah, sim. As embaixadas em Moscou do muitas festas
e Taylor Winthrop estava sempre...
Sasha Shdanoff censurou o irmo.
- Dovolno! - Voltou-se para Dana. - O embaixador s
vezes ia s festas de embaixada. Gostava de pessoas. O povo
russo gostava dele.
Boris Shdanoff interrompeu mais uma vez.
- Na verdade, ele me disse que se pudesse...
Sasha Shdanoff cortou-o, irritado.
- Mokhat! - Virou-se para Dana. - Como eu dizia, Srta.
Evans, ele foi um excelente embaixador
Ela olhou para Boris Shdanoff: Era bvio que tentava dizerLhe alguma coisa. Voltou-se para o comissrio.
- O embaixador Winthrop envolveu-se em algum tipo de
problema quando serviu aqui?
Sasha Shdanoff franziu as sobrancelhas.
- Problema? No. - Evitava os olhos dela.
Est mentindo, pensou Dana. Insistiu:
- Comissrio, sabe de algum motivo que levaria algum a
assassinar Taylor Winthrop e sua famlia?
Sasha Shdanoff arregalou os olhos.
- Assassinar? Os Winthrops? Nyet. Nyet.
- No Lhe vem nada mesmo  mente?
Boris Shdanoff disse:
- Na verdade...
Sasha Shdanoff cortou-o de chofre.
- No havia motivo algum. Ele era um grande embaixador - Tirou um cigarro de uma cigarreira de prata, e Boris
apressou-se a acend-lo para o irmo. - H mais alguma coisa
que gostaria de saber?
Dana olhou para os dois. Eles esto ocultando alguma coisa,
pensou, mas o qu? A coisa toda est caminhando por um labirinto
sem sada.
- No. - Deu uma olhada em Boris ao dizer, devagar: Se lembrar de alguma coisa, estarei no Hotel Sevastopol at
amanh de manh.
Boris Shdanoff perguntou:
- Vai voltar para casa?
- Sim. Meu avio parte amanh  tarde.
- Eu... - Boris Shdanoff comeou a dizer alguma coisa,
olhou para o irmo e calou-se.
- At logo - disse Dana.
- Proshchayte.
- Proshchayte.
Ao voltar para seu quarto, telefonou para Matt Baker
- Alguma coisa est acontecendo aqui, Matt, mas no
consigo descobrir o que , droga. Tenho a sensao de que poderia ficar meses em Moscou e no obter nenhuma informao
til. Voltarei para casa amanh.
Alguma coisa est acontecendo aqui, Matt, mas no consigo descobrir o que , droga. Tenho a sensao de que poderia ficar meses em Moscou e no obter nenhuma informao 
til. Voltarei
para casa amanh.
Fim da fita.
O Aeroporto Sheremetyevo II estava lotado aquela noite. Esperando o avio, Dana teve a mesma sensao desagradvel d
estar sendo observada, mas no conseguiu localizar ningun
em particular. Eles esto em algum lugar l fora. E esta percepo a fez estremecer

VINTe e Um

A Sra. Daley e Kemal foram ao Aeroporto Dulles esperar Dana.
Ela no se dera conta da falta que sentia de Kemal. Ao v-lo
lanou-lhe os braos e abraou-o apertado.
- Oi, Dana. Que bom ver voc de volta. Trouxe um urso
russo pra mim? - perguntou Kemal.
- Eu trouxe, mas o danado escapou.
Kemal abriu um largo sorriso.
- Vai ficar em casa agora?
- Pode apostar que sim - disse, carinhosa.
A Sra. Daley sorriu.
- Que boa notcia, Srta. Evans. Estamos to felizes com
sua volta.
- Tambm estou muito feliz por estar de volta.
No carro, seguindo para o apartamento, Dana perguntou:
- Como sente seu brao novo agora, Kemal? Est se acostumando com ele?
-  legal.
- Que bom. E como est se saindo na escola?
- No estou mais no buraco.
- Nem mais brigas?
- No.
- Que maravilha, querido. - Examinou-o por um momento. Parecia de algum modo diferente, quase submisso. Como
se houvesse acontecido alguma coisa que tivesse mudado sua
atitude. Mas, fosse o que fosse, ele sem dvida parecia uma
criana feliz.
Quando chegaram ao apartamento, Dana disse:
- Tenho de ir ao estdio, mas voltarei logo e vamos jantar juntos. Vamos ao McDonald's Onde fomos com Jeff.
Ao entrar no imenso prdio da WTN, teve a sensao de ter
estado ausente um sculo. A caminho do escritrio de Matt,
foi cumprimentada por vrios colegas.
- Que bom v-la de volta, Dana. Sentimos sua falta.
- Que bom estar de volta.
- Ora, vejam quem est aqui. Fez boa viagem?
- Esplndida. Obrigada.
- Este lugar no  o mesmo sem voc.
Quando entrou no escritrio de Matt, ele disse:
- Voc emagreceu. Est horrvel.
- Obrigada, Matt.
- Sente-se.
Ela pegou uma cadeira.
- No tem dormido bem? - perguntou Matt.
- No muito.
- Por falar nisso, nossos ndices de audincia despencaram desde que voc viajou.
- Fico lisonjeada.
- Elliot ficaria feliz se desistisse dessa matria. Anda preocupado com voc. - No comentou como ele prprio andava
preocupado com Dana.
Conversaram durante meia hora.
Quando Dana voltou  sua sala, Olivia cumprimentou-a:
- Bem-vinda. Faz... - O telefone tocou. Ela atendeu. Escritrio da Srta. Evans... S um momento, por favor - Olhou
para Dana. - Pamela Hudson na linha um.
- Eu atendo. - Dana entrou em sua sala e pegou o telefone. - Pamela.
- Dana, voc est de volta! Ficamos to preocupados. A
Rssia no  um dos lugares mais seguros para se estar nos tempos atuais.
- Eu sei. - Ela riu. - Um amigo comprou um aerossol
de pimenta pra mim.
- Sentimos sua falta. Roger e eu gostaramos que viesse
tomar ch conosco esta tarde. voc est livre?
- Sim.
- Trs horas?
- Perfeito.
O resto da manh foi consumido com preparativos para as
transmisses dos noticirios da noite.
s trs horas, Cesar cumprimentava-a na porta.
- Srta. Evans! - Um largo sorriso estendeu-se de um
lado ao outro do rosto. - Que alegria v-la de volta. Bemvinda ao lar.
- Obrigada, Cesar. Como tem passado?
- Tudo timo, obrigado.
- O Sr. e a Sra....
- Sim. Esto  sua espera. Posso levar seu casaco?
Quando entrou na sala de estar, Roger e Pamela exclamaram ao mesmo tempo:
- Dana!
Pamela Hudson deu-lhe um abrao.
- A filha prdiga est de volta.
- Est com a aparncia cansada - disse Roger Hudson.
- Parece ser o consenso geral.
- Sente-se, sente-se.
Uma empregada entrou trazendo uma bandeja com ch,
biscoitos, bolinhos e croissants. Pamela serviu o ch.
Sentaram-se e Roger disse:
- Bem, conte-nos o que est acontecendo.
- O que est acontecendo  que receio no ter chegado
a lugar algum. Sinto-me totalmente frustrada. - Ela respirou fundo. - Conheci um homem chamado Dieter Zande
que disse ter sido vtima de uma cilada armada por Taylor
Winthrop que o mandou para a priso. Enquanto esteve l
sua famlia foi aniquilada num incndio. Culpa Winthrop pela
morte deles.
Pamela disse:
- Ento ele tnha um motivo para matar toda a famlia 
Winthrop.
- Isso mesmo. Mas tem mais - disse Dana. - Falei con
um homem chamado Marcel Falcon na Frana. O filho dele foi
morto por atropelamento e o motorista fugiu. O chofer de Taylor
Winthrop se confessou culpado, mas agora afirma que quen
dirigia era Taylor Winthrop.
Roger disse, pensativo:
- Falcon fazia parte da Comisso da OTAN em Bruxelas.
- Certo. E o chofer lhe disse que foi Taylor Winthrop quem
matou o filho dele.
- Entendo. O que tambm lhe d um motivo.
- Exatamente. J ouviu falar de Vincent Mancino?
Roger Hudson pensou por um momento.
- No.
- Ele  da Mfia. Taylor Winthrop engravidou a filha dele
e mandou-a a um charlato que Lhe fez um aborto malfeito. A
filha hoje vive num convento e a me num sanatrio.
- Meu Deus.
- A questo  que todos os trs tm fortes motivos para
vingana. - Dana deu um suspiro de frustrao. - Mas no
posso provar nada.
Roger lanou um olhar pensativo a Dana.
- Ento Taylor Winthrop foi mesmo culpado de todas essas
coisas terrveis.
- Quanto a isso, no h a menor dvida, Roger. Qualquer
um deles que estiver por trs dos assassinatos orquestrou todos
brilhantemente. No deixou pistas... nenhuma. Cada assassinato teve um diferente modus operandi, por isso no h nenhum
padro bvio. Cada detalhe foi cuidadosamente planejado.
Nada foi deixado ao acaso. No existe sequer uma testemunha
para nenhuma das mortes.
Pamela disse, pensativa:
- Sei que pode parecer meio forado, mas... h alguma
possibilidade de todos eles terem se juntado para conseguir vingana?
Dana balanou a cabea.
- No acredito que tenha havido conluio. Os homens com
quem conversei so muito poderosos. Acho que cada um ia
querer se vingar sozinho. S um deles  culpado.
Mas qual?
Dana, de repente, olhou para o relgio de pulso.
- Por favor, me desculpem. Prometi levar Kemal ao
McDonald's, e se me apressar posso fazer isso antes de voltar
ao trabalho.
- Claro, querida - disse Pamela. - Entendemos perfeitamente. Obrigada por aparecer
Dana levantou-se.
- E obrigada a vocs dois pelo delicioso ch e apoio moral.
Ao levar Kemal para a escola na segunda-feira, Dana disse:
- Deixei de fazer isso por algum tempo, mas agora estou
de volta.
- Fico feliz - disse Kemal, bocejando.
Dana percebeu que ele no parara de bocejar desde que
acordara.
- Voc dormiu bem ontem  noite, Kemal? - perguntou.
- Acho que sim. - Bocejou mais uma vez.
- Que faz na escola? - perguntou Dana.
- Quer dizer, alm da histria terrvel e do ingls chato?
- Sim.
- Jogo futebol.
- No est fazendo demais, est, Kemal?
- No.
Ela deu uma olhada na frgil figura a seu lado. Parecia que
toda a energia tinha se esvado do menino. Estava estranhamente quieto. Dana se perguntou se no devia lev-lo a um
mdico. Talvez se informasse sobre algumas vitaminas que lhe
dessem energia. Conferiu as horas no relgio de pulso. A reunio de produo dos noticirios da noite ia ser dali a uma hora
e meia.
A manh transcorreu rpida, era gostoso sentir-se de volta ao
seu mundo. Quando retornou ao escritrio, Dana encontrou
um envelope lacrado na mesa com seu nome. Abriu-o. A carta
dentro dizia:
"Srta. Evans: Tenho a informao que deseja. Fiz uma reserva em seu nome no Hotel Soyuz, em Moscou. Venha imediatamente. No diga a ningum sobre isso."
No era assinada. Dana leu mais uma vez a carta, sem acreditar. Tenho a informao que desejava.
Claro que era algum tipo de ardil. Se algum na Rssia tinha a resposta que ela procurava, por que, fosse quem fosse,
no lhe dera quando ainda estava l? Dana pensou no encontro que teve com o comissrio Sasha Shdanoff e o irmo dele,
Boris. Boris parecia ansioso por falar com ela, e Sasha no parou de cort-lo. Ela ficou sentada ali,  mesa, pensando. Como
o bilhete tinha chegado at l? Ser que estava sendo vigiada?
Vou esquecer isso, decidiu. Enfiou a carta na bolsa. "vou rasgla quando chegar em casa.
Dana passou a noite com Kemal. Achou que ele ia ficar fascinado com o novo jogo de computador que tinha comprado em
Moscou, mas ele mostrou-se indiferente. s nove horas, ps-se a fechar os olhos.
- Estou com sono, Dana. Vou pra cama.
- Tudo bem, querido. - Viu-o entrar no quarto e pensou: Ele mudou muito. Parece outro garoto. Bem, de agora em diante vamos ficarjuntos. Se alguma coisa o estiver 
aborrecendo, vou
descobrir o que . Estava na hora de partir para o estdio.
No apartamento vizinho, o inquilino olhou o aparelho de televiso e disse no microfone de um gravador
- O alvo foi para o estdio de televiso fazer sua transmisso. O garoto foi para a cama. A governanta est costurando.
- Estamos ao vivo! - A luz vermelha da cmera acendeu.
A voz do locutor saiu estrondosa.
- Boa noite. Comea agora o jornal das onze horas na
WTN com Dana Evans e Richard Melton.
Dana sorriu para a cmera.
- Boa noite. Com vocs, Dana Evans.
Sentado a seu lado, Richard Melton disse:
- E Richard Melton.
Ela comeou:
- Iniciamos nosso jornal esta noite com uma terrvel tragdia na Malsia...
Meu lugar  aqui, pensou, no correndo pelo mundo afora em
alguma caa ao ganso selvagem.
O noticirio transcorreu bem. Quando retornou ao apartamento, Dana encontrou Kemal dormindo. Aps dar boanoite  Sra. Daley, tambm foi se deitar, mas no conseguiu
dormir
Tenho a informao que deseja. Fiz uma reserva em seu nome
no Hotel Soyuz, em Moscou. Venha imediatamente. No diga a
ningum sobre isso.
 uma cilada. Voltar a Moscou seria uma loucura, pensou. Mas
e se for verdade? Quem ia se dar todo esse trabalho? E por qu? A
carta s podia ter vindo de Boris Shdanoff. E se ele realmente souber de alguma coisa? Passou a noite toda acordada.
Assim que se levantou de manh, telefonou para Roger Hudson.
- Roger... - Contou-lhe sobre o bilhete.
- Meu Deus. No sei o que dizer - Parecia empolgado.
- Esse bilhete talvez queira dizer que algum est disposto a
falar a verdade sobre o que aconteceu aos Winthrops.
- Eu sei.
- Dana, poderia ser perigoso. No gosto disso.
- Se eu no for, jamais descobriremos a verdade.
Ele hesitou.
- Acho que tem razo.
Ele disse, relutante:
- Muito bem. Quero que me mantenha informado o tempo todo.
- Prometo, Roger
Dana estava na Agncia de Viagens Comiche, comprando uma
passagem de ida e volta para Moscou. Era sexta-feira. Espero
no ter ido longe demais, pensou. Deixou um recado para Matt,
contando-lhe o que estava acontecendo.
Quando voltou para o apartamento, disse  Sra. Daley:
- Receio que terei de me ausentar mais uma vez. So s
dois dias. Cuide bem de Kemal.
- No precisa se preocupar com nada, Srta. Evans. Ficaremos bem.
O inquilino no apartamento vizinho afastou-se do aparelho de
televiso e deu um telefonema apressado.
Ao embarcar no avio da Aeroflot para Moscou, Dana pensou:
 um dj vu. Talvez eu devesse ter ouvido Roger. Pode ser uma
armadilha. Mas se a resposta estiver em Moscou, vou descobri-la.
Acomodou-se para o longo vo.
Quando o avio pousou no agora conhecido Aeroporto Sheremetyevo II, Dana foi pegar a maleta e saiu ao encontro de
uma cegante tempestade de neve. Havia uma longa fila de viajantes  espera de txis. Ela ficou ali no vento frio, agradecida
ao casaco quente. Quarenta e cinco minutos depois, quando
chegou afinal sua vez, um homem corpulento tentou com um
tranco passar-lhe  frente.
- Nyet! - disse Dana com firmeza. - Este  o meu txi.
- E entrou.
O motorista disse:
- Da?
- Quero ir ao Hotel Soyuz.
Ele voltou-se para olh-la de frente e perguntou, num ingls estropiado:
- Tem certeza de querer ir para l?
- Por qu? Que quer dizer? - perguntou ela, sem entender.
-  um hotel muito no bom.
Dana sentiu um frmito de alarme. Tenho certeza? Tarde
demais para desistir agora. O motorista esperava uma resposta.
- Sim. Eu... tenho certeza.
O motorsta encolheu os ombros, engrenou o txi e partiu,
entrando no trfego movido a neve.
E se no tiver reserva alguma no hotel? E se tudo isso no passar de alguma brincadeira estpida?, pensou Dana.
O Hotel Soyuz localizava-se num distrito operrio nas imediaes de Moscou, na rua Levoberezhnaya. Era um prdio
velho, nada convidativo nem atraente, com a pintura marrom
no exterior descascada.
- Quer que eu espere? - perguntou o taxista.
Dana hesitou por apenas um instante.
- No. - Pagou, saltou do txi, e o vento gelado impeliu-a para dentro de um pequeno saguo malcuidado. Sentada
atrs do balco, uma velha lia uma revista. Ergueu os olhos, surpresa, quando Dana entrou. Ela aproximou-se do balco.
- Da?
- Creio que tenho uma reserva. Dana Evans. - Prendia
a respirao.
A mulher fez que sim com a cabea, devagar.
- Dana Evans, sim. - Virou-se para trs e pegou uma
chave de um escaninho. - Quarto andar, quarto 402. - Entregou-a a Dana.
- Onde me registro?
A mulher balanou a cabea.
- Sem registro. Voc paga agora. Um dia.
Dana teve uma nova sensao de alarme. Um hotel na
Rssia onde estrangeiros no tinham que se registrar? Alguma
coisa estava errada.
A mulher disse:
- Quinhentos rublos.
- Vou precisar trocar algum dinheiro - disse Dana. Depois.
- No. Agora. Aceito dlares.
- Tudo bem. - Ela enfiou a mo na bolsa e pegou um
punhado de notas.
A mulher fez que sim com a cabea, estendeu a mo e puxou seis delas.
Acho que eu poderia ter comprado o hotel com isso. Dana olhou
em volta e perguntou:
- Onde fica o elevador?
- Sem elevador.
- Oh. - Era bvio que um carregador estava fora de
questo. Dana pegou a mala e comeou a subir a escada.
O quarto era ainda pior do que imaginava. Pequeno, bagunado, as cortinas rasgadas e a cama desfeita. Como Boris ia
entrar em contato com ela? Isso talvez seja um embuste, pensou
Dana, mas por que algum ia se dar todo aquele trabalho?
Sentou-se na beira da cama e olhou pela janela embaada,
sem lavar, a cena da rua movimentada embaixo.
Fui uma maldita estpida, pensou. Talvez fique sentada aqui
durante dias e nada...
Ouviu uma leve batida na porta. Dana respirou fundo e
Levantou-se. Ia desvendar o mistrio agora ou descobrir que no
havia mistrio algum. Foi at a porta e abriu-a. Ningum no
corredor. No cho, um envelope. Dana pegou-o e levou-o para
dentro. O pedao de papel dizia: "Vdnkh 9:00 da noite". Dana
examinou-o, tentando fazer algum sentido daquilo. Abriu a
maleta e pegou o guia de Moscou que comprara. Ali estava,
VDNKh. O texto dizia: "Exposio das realizaes econmicas da
URSS", e dava um endereo.
s oito horas daquela noite Dana fazia sinal para um txi.
- VDNKh... o parque? - No sabia ao certo a pronncia.
O motorista virou-se e olhou para ela.
- VDNKh? Tudo fechado.
- Oh.
- Ainda quer ir at l?
- Sim.
O motorista encolheu os ombros e o txi avanou.
O enorme parque ficava no setor nordeste de Moscou. Segundo o guia, as suntuosas exposies haviam sido planejadas como
um monumento  glria sovitica, mas quando a economia
entrou em recesso cortaram-se os financiamentos e o parque
se transformou num monumento decadente ao dogma sovitico. Os grandiosos pavilhes desmoronavam e o parque estava
deserto.
Saltou do txi e pegou um punhado de dinheiro americano.
- Isso ...?
- Da. - Ele pegou as moedas e um momento depois desapareceu.
Dana olhou em volta. Estava sozinha no parque enregelante
e varrido pelo vento. Dirigiu-se a um banco prximo e sentou-se  espera de Boris. Lembrou-se de quando tinha esperado no
Zoolgico por Joan Sinisi. E se Boris...
Uma voz por trs assustou-a.
- Horoshiy vyecherniy.
Dana virou-se e seus olhos arregalaram-se de surpresa. Esperara Boris Shdanoff. Em vez dele, via o comissrio Sasha
Shdanoff.
- Comissrio! No esperava que...
- Voc vai me seguir - disse ele de chofre. Sasha Shdanoff
ps-se a andar rapidamente pelo parque. Ela hesitou um instante, depois apertou o passo atrs dele. O comissrio entrou
num caf de aparncia rstica na borda do parque e sentou-se
num reservado. S havia um outro casal em todo o caf. Dana
atravessou-o at o reservado e sentou-se diante de Sasha
Shdanoff.
Uma garonete desmazelada com um avental sujo aproximou-se.
- Da?
- Dva cofe, pozhalooysta - disse Shdanoff. Voltou-se de
novo para Dana. - Eu no tinha certeza de que viria, mas voc
 muito persistente. Isso s vezes pode ser muito perigoso.
- Voc disse no bilhete que poderia me dizer o que quero
saber
- Sim. - O caf chegou. Ele sorveu um gole e ficou calado por um momento. - Quer saber se Taylor Winthrop e sua
famlia foram assassinados.
O corao de Dana comeou a bater mais rpido.
- Foram?
- Foram. - Isso chegou como um arrepiante sussurro.
Ela sentiu um estremecimento repentino.
- Quem...
Ele ergueu a mo para det-la.
- Vou lhe contar, mas primeiro precisa fazer alguma coisa
por mim.
Dana olhou para ele e perguntou, cautelosa.
- Tire-me da Rssia. No estou mais seguro aqui.
- Por que simplesmente no vai para o aeroporto e embarca num avio? Pelo que sei, viajar para o exterior no  mais
proibido.
- Cara Srta. Evans, voc  ingnua. Muito ingnua. 
verdade que as coisas no so mais como nos velhos dias do
comunismo, mas se eu tentasse fazer o que sugere eles me matariam antes mesmo de eu chegar ao aeroporto. Estou correndo grande perigo. Preciso de sua ajuda.
Ela precisou de alguns instantes para absorver as palavras
dele. Lanou-lhe um olhar desanimado.
- No posso tirar voc... no saberia por onde comear.
- Mas precisa. Precisa encontrar um meio. Minha vida est
em perigo.
Dana ficou pensativa por um momento.
- Posso falar com o embaixador americano e...
- No! - A voz de Sasha Shdanoff foi incisiva.
- Mas  o nico meio...
- Seu embaixador tem ouvidos de traidor. Ningum deve
saber disso, alm de voc e de quem for ajud-la. Seu embaixador no pode me ajudar.
De repente, sentiu-se deprimida. No via nenhum meio
possvel de tirar clandestinamente da Rssia um comissrio
russo. Eu no conseguiria tirar nem sequer um gato deste pas. E
outro pensamento tambm a invadiu. Toda essa coisa era na
certa um ardil. Sasha Shdanoff no tinha informao alguma.
Usava-a para tentar chegar aos Estados Unidos. Aquela viagem
de nada Lhe servira.
- Receio no poder ajud-lo, comissrio Shdanoff. Levantou-se, furiosa.
- Espere! Voc quer prova? Eu lhe darei a prova.
- Que tipo de prova?
Ele levou um longo tempo para responder. Quando falou,
disse as palavras devagar
- Est me obrigando a fazer uma coisa que no tenho o
menor desejo de fazer - Levantou-se. - Venha comigo.
Trinta minutos depois, subiam a escada pela entrada privada
nos fundos dos escritrios de Shdanoff, no Departamento Internacional de Desenvolvimento Econmico.
- Eu poderia ser executado pelo que estou prestes a lhe
dizer - disse Sasha Shdanoff quando chegaram. - Mas no
me resta outra opo. - Fez um gesto de impotncia. - Porque serei assassinado se ficar aqui.
Dana viu Shdanoff dirigir-se a um grande cofre embutido
na parede. Girou a combinao de nmeros, abriu o cofre e tirou um livro grosso. Levou-o para sua escrivaninha. Na capa
do livro, lia-se em letras vermelhas: "Klassifitsirovann'gy".
- Isto  informao classificada como altamente confidencial - disse o comissrio Shdanoff a Dana. Ele abriu o livro.
Ela olhava-o atenta enquanto ele virava as pginas devagar. Cada pgina continha fotografias coloridas de bombardeiros, veculos de lanamento espacial, msseis 
antibalsticos,
msseis ar-terra, armas automticas, tanques e submarinos.
- Esse  o arsenal completo da Rssia. - Parecia enorme,
mortal. - Nesse momento, a Rssia tem mais de mil msseis
balsticos intercontinentais, mais de duas mil ogivas atmicas e
setenta bombardeiros estratgicos. - Ele apontava vrias armas
enquanto passava as pginas. - Este  o Awl... Acrid... Aphid...
Anab... Archer .. Nosso arsenal nuclear rivaliza com o dos Estados Unidos.
-  muito, muito impressionante.
- As Foras Armadas russas passam por graves problemas,
Srta. Evans. Enfrentamos uma crise. No h dinheiro para pagar os soldados, e o moral anda muito baixo. O presente oferece pouca esperana, e o futuro parece pior, 
por isso os militares
esto sendo obrigados a se voltar para o passado.
- Eu... receio no entender como isso...
- Quando a Rssia era uma verdadeira superpotncia,
construamos mais armas do que at mesmo os Estados Unidos. Essas armas esto guardadas aqui. H dezenas de pases
famintos por elas. Valem bilhes.
Dana disse, paciente:
- Comissrio, entendo o problema, mas...
- Este no  o problema.
Dana lanou-lhe um olhar, aturdida.
- No? Ento qual ?
Shdanoff escolheu cuidadosamente suas palavras seguintes.
- J ouviu falar de Krasnoyarsk-26?
Dana balanou a cabea.
- No.
- No me surpreende. No existe em nenhum mapa, e as
pessoas que vivem l tambm no existem oficialmente.
- De que est falando?
- Voc vai ver. Amanh a levarei l. Vai me encontrar no
mesmo caf ao meio-dia. - ps a mo no brao de Dana e apertou-o com fora. - No deve contar isso a ningum. - Ele a
machucava. - Entendeu?
- Sim.
- Orobopeno. Combinado.
s doze horas da manh seguinte, Dana chegou ao pequeno
caf no Parque VDNKh. Entrou e sentou-se no mesmo reservado,  espera. Meia hora depois, Shdanoff ainda no havia
chegado. Que aconteceu agora?, perguntou-se, ansiosa.
- Dobry dyen. - Sasha Shdanoff tinha parado diante do
reservado. - Venha. Precisamos fazer compras.
- Compras? - perguntou ela, incrdula.
- Venha.
Dana seguiu-o dentro do parque.
- Compras para qu?
- Para voc.
- Eu no preciso...
Shdanoff fez sinal para um txi e seguiram num tenso silncio at um shopping. Desceram e Shdanoff pagou ao motorista.
- Aqui - disse Sasha Shdanoff:
Entraram no prdio e passaram por umas dez lojas. Quando chegaram diante de uma com a vitrine cheia de lingerie sexy,
provocativa, Shdanoff parou.
- Aqui. - Ele levou Dana at o interior
Dana olhou em volta acessrios obscenos.
- Que estamos fazendo aqui?
- Voc vai trocar de roupa.
Uma vendedora aproximou-se deles e houve um rpido dilogo em russo. A vendedora fez que sim com a cabea e alguns
minutos depois voltou com uma minissaia rosa-shocking e uma
blusa listrada, bem justa e curta.
Shdanoff aprovou com um movimento da cabea.
- Da. - Virou-se para Dana. - Ponha essas roupas.
Dana recuou.
- No! No vou vestir isso. Que acha...
- Voc precisa. - A voz era firme.
- Por qu?
- Voc ver.
Dana pensou: Esse homem deve ser algum tipo de manaco sexual. Por que diabos tenho de vestir isso?
Shdanoff observava-a.
- Ento?
Ela respirou fundo.
- Est bem. - Foi at uma cabine minscula e ps a roupa. Quando saiu, deu uma olhada num espelho e suspirou. Pareo uma prostituta.
- Ainda no - informou Shdanoff. - Vamos ter de pr
alguma maquilagem carregada em voc.
- Comissrio...
- Venha.
As roupas de Dana foram postas numa sacola de papel. Ela
vestiu o casaco de l, tentando esconder o traje o mximo possvel. Seguiram mais uma vez pelo shopping. Os passantes lanavam olhares a Dana, e homens davam-lhe 
sorrisos insinuantes.
Um operrio piscou os olhos para ela. Sentia-se degradada.
- Aqui!
Pararam diante de um salo de beleza. Sasha Shdanoff entrou. Dana hesitou, seguindo-o depois. Ele foi at o balco.
- Ano tyomnyj - disse.
A esteticista mostrou-lhe um tubo de batom vermelho vivo
e um estojo de ruge.
- Savirshehnstva - disse Shdanoff. Voltou-se para Dana.
- Ponha em voc. Pesado.
Ela chegara ao limite.
- No, obrigada. No sei que tipo de jogo est armando,
comissrio, mas no vou participar dele. J...
Shdanoff varou-lhe os olhos com os dele.
- Asseguro-lhe que no  um jogo, Srta. Evans. Krasnoyarsk-26  uma cidade fechada. Sou um dos poucos que
tm acesso a ela. Permitem a pouqussimos de ns levarmos
prostitutas durante o dia.  o nico meio possvel que tenho
para faz-la passar pelos guardas. Isso e uma excelente vodca como pagamento por sua entrada. Est interessada, ou
no?
Cidade fechada? Guardas? At onde iremos com isso?
- Estou - disse ela, relutantemente decidida. - Estou
interessada.

VInTE E DOIS

Um jato militar esperava-os numa rea privada do Aeroporto
Sheremetyevo II. Dana ficou surpresa ao constatar que ela e
Shdanoff eram os nicos passageiros.
- Para onde estamos indo? - perguntou.
Sasha Shdanoff deu-lhe um sorriso sinistro.
- Para a Sibria.
Sibria. Dana sentiu um n no estmago.
- Oh.
O vo levou trs horas. Ela tentou puxar conversa, esperando ter uma idia do que ia enfrentar, mas Shdanoff ficou
sentado na poltrona calado e com a expresso carrancuda.
Quando o avio pousou no pequeno aeroporto que lhe pareceu ficar no meio de lugar nenhum, um sed Lada 2110 esperava-os no macadame congelado. Dana olhou em volta 
para
a paisagem mais desolada que j tinha visto.
- Este lugar para onde vamos fica longe daqui? - E ser
que vou voltar?
-  uma distncia curta. Precisamos ter muito cuidado.
Ter muito cuidado com o qu?
Um curto trajeto aos solavancos levou-os ao que pareceu uma
pequena estao de trem. Na plataforma havia uns seis guardas uniformizados e com grossos agasalhos.
Quando Dana e Shdanoff se aproximaram, os guardas lanaram olhares amorosos e impertinentes ao traje indecoroso de
Dana. Um deles apontou para ela e deu um sorrisinho afetado.
- Ti vezuchi!
- Kakaya krasivaya zJienshina!
Shdanoff deu um sorriso aberto e disse alguma coisa em russo
que fez os guardas rirem.
No quero saber, ela decidiu.
Shdanoff embarcou no trem e Dana seguiu-o, mais confusa
que nunca. Para onde poderia ir um trem no meio daquela tundra
deserta e congelada? Dentro do vago a temperatura era enregelante.
A locomotiva ps-se em movimento e, passados alguns
minutos, entrou num tnel iluminado que varava o corao de
uma montanha. Dana olhou a rocha dos dois lados, a centmetros de distncia, e teve a sensao de que mergulhava em algum sonho misterioso, surrealista.
Virou-se para Shdanoff.
- Poderia, por favor, me dizer para onde estamos indo?
O trem deu um tranco e parou.
- J chegamos.
Desembarcaram e seguiram em direo a um prdio de formas estranhas a uns cem metros adiante. Diante do prdio,
erguiam-se duas cercas de arame farpado proibitivas ao olhar,
patrulhadas por soldados armados at os dentes. Quando Dana
e Sasha Shdanoff se aproximaram dos portes, os soldados os
saudaram.
Shdanoff sussurrou:
- Ponha o brao no meu, me beije e ria.
Jeff jamais acreditar nisso, pensou ela. Envolveu o brao no
de Shdanoff, beijou-o na face e forou um sorriso falso.
Os portes abriram-se e os dois cruzaram a entrada de braos dados. Os soldados lanaram olhares invejosos ao comissrio Shdanoff entrando com sua bela prostituta. 
Para espanto de
Dana, o prdio onde haviam entrado ficava acima de uma estao de elevador que descia para o subsolo. Entraram no compartimento do elevador e a porta fechou-se com 
estrpito.
Ao descerem, Dana perguntou:
- Para onde estamos indo?
- Descendo por dentro da montanha. - O elevador ganhava velocidade.
- Qual a distncia para baixo da montanha?
- Cento e oitenta metros.
Dana olhou para ele, incrdula.
- Vamos descer cento e oitenta metros para baixo de uma
montanha? Por qu? Que tem l?
- Voc vai ver
Minutos depois, o elevador comeou a diminuir a velocidade, parou e as portas abriram-se automaticamente.
- Chegamos, Srta. Evans - disse o comissrio Shdanoff.
Mas que lugar  este?
Os dois saram do elevador e no haviam andado mais de
seis metros quando Dana parou em choque. Viu-se seguindo
pela rua de uma cidade moderna, com lojas, restaurantes e teatros. Homens e mulheres andavam pelas caladas e, de repente, ela percebeu que ningum usava sobretudos. 
Comeou a
sentir-se aquecida. Virou-se para Shdanoff:
- Estamos debaixo de uma montanha?
- Isso mesmo.
- Mas... - Ela admirou a incrvel paisagem que se estenda diante de si. - No entendo. Que lugar  este?
- Eu lhe disse. Krasnoyarsk-26.
-  um daqueles abrigos antiareos?
- Ao contrrio - disse Shdanoff, enigmtico.
Dana olhou mais uma vez os prdios modernos em volta.
- Comissrio, qual o sentido deste lugar?
Ele lanou-lhe um olhar longo, intenso.
- Voc ficaria em melhor situao se no soubesse o que
estou prestes a lhe dizer
Dana teve uma vvida sensao de alarme.
- Conhece alguma coisa sobre plutnio?
- No muito.
- Plutnio  o combustvel de uma ogiva nuclear, o ingrediente bsico nas armas atmicas. O nico propsito da existncia de Krasnoyarsk-26  fazer plutnio. Cem 
mil cientistas e
tcnicos vivem e trabalham aqui, Srta. Evans. No incio, recebiam o que existia de mais excelente em comida, roupas e moradia. Mas todos esto aqui com uma restrio.
- Sim?
- Tm de concordar em jamais deixar Krasnoyarsk-26.
- Quer dizer...
- No podem sair. Para sempre. So obrigados a desligarse completamente do resto do mundo exterior
Dana olhou para as pessoas andando nas ruas aquecidas e
pensou consigo mesma.
Isso no pode ser real.
- Onde eles fazem o plutnio?
- Vou lhe mostrar - Um bonde eltrico aproximava-se.
- Venha.
Shdanoff entrou no bonde e Dana seguiu-o. Percorreram a
movimentada rua principal e, no fim dela, entraram num labirinto de tneis mal-iluminados.
Ela pensou no incrvel trabalho e em todos os anos que deviam ter sido consumdos na construo daquela cidade. En
alguns minutos, as luzes comearam a ficar mais fortes e o bonde parou. Estavam diante da entrada de um enorme laboratrio intensamente iluminado.
- Saltamos aqui.
Dana seguiu Shdanoff e olhou em volta, assombrada. Na
imensa gruta, alojavam-se trs reatores gigantescos. Dois estavam desativados, mas o terceiro em operao e cercado por un
ocupado quadro de tcnicos.
Shdanoff disse:
- As mquinas nesta sala podem produzir plutnio para
fazer uma bomba atmica a cada trs dias. - Indicou uma en
funcionamento. - Aquele reator continua produzindo meia
tonelada de plutnio por ano, o suficiente para fazer uma centena de bombas. O plutnio armazenado na sala seguinte vale
o resgate de um czar.
- Comissrio, se eles tm todo esse plutnio, por que continuam fazendo mais? - perguntou Dana.
-  o que vocs americanos chamam de Ardil, um dilema insolvel - disse Shdanoff, com um sorriso forado. No podem desligar o reator porque o plutnio fornece a 
energia para a cidade em cima. Se interromperem o funcionamento
dele, no haver mais luz nem calor, e as pessoas l em cima
logo morrero congeladas.
- Isso  terrvel - disse Dana. - Se...
- Espere. O que tenho a lhe dizer  pior ainda. Devido 
situao da economia russa, no h mais dinheiro para pagar
os cientistas e tcnicos que trabalham aqui. Eles no receben
h meses. As lindas casas que ganharam anos atrs esto se
deteriorando, e no h dinheiro para consert-las. Todos os
luxos desapareceram. As pessoas aqui comearam a ficar desesperadas. Entende o paradoxo? A quantidade de plutnio
estocada aqui vale indizveis bilhes de dlares, mas as pessoas
que o criaram nada mais tm e esto comeando a ficar famintas.
- Acha que eles poderiam vender parte do plutnio a
outros pases? -perguntou Dana, devagar
Ele fez que sim com a cabea.
- Antes de Taylor Winthrop se tornar embaixador na
Rssia, amigos lhe contaram sobre Krasnoyarsk-26 e perguntaram se ele queria fazer um acordo. Aps conversar com alguns
cientistas aqui, que se sentiam trados por seu governo, Winthrop ficou doido para fazer um acordo. Mas era complicado, e
ele tinha de esperar at que todas as peas se encaixassem.
Ele parecia um doido. Disse alguma coisa como: "Todas as peas se encaixaram."
Dana respirava com dificuldade.
- Logo depois disso, Taylor Winthrop tornou-se embaixador americano na URSS. Ele e seu scio colaboraram com
alguns dos cientistas rebeldes e comearam a contrabandear
plutnio para uma dezena de pases, entre eles Lbia, Ir, Iraque,
Paquisto, Coria do Norte e China.
Afinal todas as peas haviam-se encaixado! Ser embaixador era
importante para Taylor Winthrop s porque ele tinha de ficar perto
para controlar a operao.
O comissrio continuava.
- Era fcil, Srta. Evans, porque um volume de plutnio
do tamanho de uma bola de tnis  suficiente para fazer uma
bomba atmica. Taylor Winthrop e seu parceiro estavam fazendo
bilhes de dlares. Administravam tudo com muita inteligncia e competncia, ningum suspeitava de nada. - Ele parecia
ressentido. - A Rssia se tornou uma loja de guloseimas, s
que em vez de comprar guloseimas, podem-se comprar bombas
atmicas, tanques, avies de caa e sistemas de msseis.
Dana tentava digerir tudo que ouvia.
- Por que Taylor Winthrop foi assassinado?
- Ele ficou ganancioso e decidiu criar um negcio s para
si. Quando o scio descobriu o que estava fazendo, mandou
assassin-lo.
- Mas... mas por que assassinar toda a famlia?
- Depois que Taylor Winthrop e a mulher morreram no
incndio, o filho Paul tentou chantagear o scio, por isso ele
mandou mat-lo. E depois decidiu no correr risco algum de
que os outros filhos viessem a saber do negcio do plutnio,
portanto mandou assassinar todos. Fez de um jeito que as mortes parecessem acidentes.
Dana olhou para ele, horrorizada.
- Quem era o scio de Taylor Winthrop?
O comissrio Shdanoff balanou a cabea.
- J sabe bastante por ora, Srta. Evans. Eu lhe direi o nome
quando me tirar da Rssia. - Conferiu as horas em seu relgio
de pulso. - Agora precisamos partir
Dana voltou-se para dar uma ltima olhada no reator que
no podia ser desligado, a expelir plutnio letal 24 horas por
dia.
- O governo dos Estados Unidos sabe da existncia de
Krasnoyarsk-26?
Shdanoff fez que sim com a cabea.
- Oh, sim. Tm pavor disso. O Departamento de Estado
vem trabalhando freneticamente conosco para transformar esses reatores em alguma coisa menos letal. Enquanto isso...
Deu de ombros.
No elevador, o comissrio Shdanoff perguntou:
- Conhece a Agncia Federal de Pesquisas, FRA?
Dana olhou para ele e respondeu, cautelosa:
- Conheo.
- Eles tambm esto envolvidos nisso.
- Como? - E nesse momento a compreenso atingiu-a.
Por isso  que o general Booster no parou de me avisar para que
me afastasse.
Chegaram  superfcie e saram do elevador. Shdanoff disse:
- Tenho um apartamento aqui. Vamos para l.
Quando se puseram a seguir pela rua, Dana reparou numa
mulher vestida igual a ela agarrada aos braos de um homem.
- Aquela mulher .. - comeou a dizer
- J lhe expliquei. Alguns homens tm permisso para usar
prostitutas durante o dia. Mas  noite elas tm de ir para um
alojamento vigiado. No podem saber nada do que se passa no
subsolo.
Ao seguirem pela rua, Dana percebeu que a maioria das
vitrines das lojas estava vazia.
Os luxos desapareceram. O Estado no tem mais dinheiro para
pagar os cientistas e tcnicos que trabalham aqui. Eles no recebem
h meses. Olhou para um prdio alto na esquina e viu que em
vez de um relgio tinha um grande instrumento instalado no
topo.
- Que  aquilo? - perguntou.
- Um medidor Geiger, um alarme para o caso de ocorrer
alguma coisa errada com os reatores. - Dobraram numa rua
lateral cheia de prdios de apartamentos. - Meu apartamento
 aqui. Precisamos ficar l por algum tempo para que ningum
desconfie. A FSB investiga todo mundo.
- A FSB?
- . Era chamada de KGB. Eles mudaram o nome, mas s
isso.
O apartamento era grande e luxuoso antes, mas havia se
tornado decadente. Tinha as cortinas rasgadas, os tapetes gastos e a moblia precisava de restaurao.
Dana sentou-se, pensando no que Sasha Shdanoff Lhe disse sobre a FRA. E Jeff dissera: A agncia  uma fachada. A verdadeira funo da FRA  espionar os servios 
secretos estrangeiros.
Taylor Winthrop foi durante um perodo presidente da FRA,
trabalhando com Victor Booster
Se eu fosse voc, ficaria o mais longe possvel do general Booster.
E em seu encontro com Booster: Vocs, porras de jornalistas,
no podem deixar os mortos em paz? O general Booster tinha uma
enorme organizao secreta para levar a cabo os assassinatos.
E Jack Stone estava tentando proteg-la. Tenha cuidado. Se
Victor Booster soubesse apenas que falei com voc...
Os espies da FRA estavam em toda parte e Dana sentiu-se de repente nua.
Sasha Shdanoff deu uma olhada no relgio de pulso.
-  hora de partir. Ainda no sabe como vai fazer para me
tirar do pas?
- Sim - disse Dana, devagar. - Acho que sei como
conseguir isso. Preciso de um pouco de tempo.
Quando o avio tornou a pousar em Moscou, dois carros os
esperavam. Shdanoff entregou-lhe um pedao de papel.
- Vou ficar com uma amiga nos Apartamentos Chiaka. Ningum sabe que estou l.  o que a gente chama de uma "casa segura". Aqui est o endereo. No posso voltar 
para minha casa. Esteja
nesse endereo s oito da noite. Preciso conhecer seu plano.
Dana fez que sim com a cabea.
- Est bem. Tenho de dar um telefonema.
Quando Dana voltou ao vestbulo do Hotel Soyuz, a mulher
atrs do balco arregalou os olhos. No a culpo, pensou. Preciso
tirar logo esta roupa horrvel.
J no quarto, vestiu suas prprias roupas antes de dar um
telefonema. Rezava, ouvindo-o chamar na outra ponta. Por
favor, estejam em casa. Por favor, estejam em casa. A ouviu a
abenoada voz de Cesar:
- Residncia dos Hudsons.
- Cesar, o Sr Hudson est? - Percebeu que prendia a
respirao.
- Srta. Evans! Que bom ouvir sua voz. Sim, o Sr Hudson
est aqui. Um momento, por favor
Dana sentiu o corpo tremer de alvio. Se havia algum que
pudesse ajud-la a levar Sasha Shdanoff para os Estados Unidos, Roger Hudson era a pessoa capaz de faz-lo.
Momentos depois, ouvia a voz dele na linha.
- Dana?
- Roger, oh, graas a Deus encontrei voc!
- Que foi que houve? Voc est bem? Onde est?
- Estou em Moscou. Descobri por que Taylor Winthrop e
sua famlia foram assassinados.
- Como? Meu Deus. Como voc...?
- Conto-lhe tudo quando estivermos juntos. Roger, detesto ter de abusar mais uma vez, mas estou com um problema.
Tem uma importante autoridade russa que quer fugir para os
Estados Unidos. Chama-se Sasha Shdanoff: Ele corre risco de
vida aqui. Sabe as respostas de tudo que aconteceu. Temos de
tir-lo daqui, e rpido! Voc pode ajudar?
- Dana, nenhum de ns devia envolver-se numa coisa
dessas. Vamos ficar em apuros.
- Temos de aproveitar essa chance. No temos outra opo.  muito importante. Precisa ser feito.
- No estou gostando nada dessa histria, Dana.
- Lamento arrast-lo para isso, mas no tenho ningum
mais a quem recorrer
- Maldio, eu... - Interrompeu-se. - Est bem. O
melhor a fazer agora  lev-lo para a embaixada americana. Ele
vai ficar seguro l at bolarmos um plano de traz-lo para os
Estados Unidos.
- Ele no quer ir para a embaixada. No confia neles.
- No tem outro jeito. Vou telefonar para o embaixador
numa linha segura e lhe dizer que consiga proteo. Onde
Shdanoff est agora?
- Esperando nos Apartamentos Chiaka. Na casa de uma
amiga. Vou me encontrar com ele l.
- Muito bem. Dana, quando voc o pegar, v direto para
a embaixada. No pare em lugar algum no caminho.
Dana sentiu uma onda de alvio.
- Obrigada, Roger. Quer dizer, muito obrigada mesmo.
- Tenha cuidado, Dana.
- Pode deixar
- A gente se fala mais tarde.
Obrigada, Roger. Quer dizer, muito obrigada mesmo.
Tenha cuidado, Dana.
Pode deixar.
A gente se fala mais tarde.
Fim da fita.
s 7:30 da noite, Dana saiu sem ser vista pela entrada de servio do Hotel Soyuz. Tomou uma viela e foi aoitada pelo vento gelado. Fechou o casaco bem junto de 
si, mas o vento
atingia-Lhe os ossos. Andou dois quarteires, certificando-se
de que no estava sendo seguida. Na primeira esquina movimentada, fez sinal para um txi e dsse ao motorista o endereo que Sasha Shdanoff tinha lhe dado. Quinze 
minutos depois,
o txi parava num prdio de apartamentos sem identificao.
- Eu espero? - perguntou o motorista.
- No. - Na certa, o comissrio Shdanoff teria um carro. Dana tirou alguns dlares da bolsa, estendeu a mo, o motorista grunhiu e pegou todos. Viu-o afastar-se 
e entrou no
prdio. O vestbulo estava deserto. Ela olhou o pedao de papel na mo, apartamento 2BE. Aproximou-se de um lance de
escada em pssimo estado e subiu para o segundo andar. Ningum por perto. Um longo corredor diante de si.
Ps-se a atravess-lo, devagar, verificando os nmeros nas
portas. 5BE... 4BE... 3BE... encontrou a porta do 2BE entreaberta. Ficou tensa. Com cuidado, abriu-a com um empurro e
entrou. O apartamento estava escuro.
- Comissrio...? - Esperou. Ningum respondeu. Comissrio Shdanoff? - Um silncio pesado. Viu um quarto
adiante e dirigiu-se para l. - Comissrio ShdanofE?
Quando entrou no quarto escuro, tropeou num objeto
volumoso e caiu no cho. Estava deitada em alguma coisa macia e mida. Cheia de nuseas, esforou-se para levantar-se.
Apalpou a parede at encontrar um interruptor. Apertou-o e o
quarto inundou-se de luz. Dana tinha as mos cobertas de sangue. No cho, estendia-se o objeto em que tropeara: o corpo
de Sasha Shdanoff. Estava deitado de costas, com o peito ensopado de sangue e a garganta cortada de uma orelha  outra.
Dana gritou. Ao fazer isso, olhou para a cama e viu o corpo
ensangentado de uma mulher de meia-idade com um saco de
plstico envolto na cabea. Sentiu um arrepio varr-la da cabea aos ps.
Histrica, saiu e desceu correndo a escada do prdio.
Parado diante da janela de um apartamento no prdio do outro
lado da rua, ele carregava um pente de trinta disparos num fuzil AR 7 com silenciador. Usava um visor 3-6, aferido para at
65 metros. Movia-se com a graa fcil e calma de um profissional. Era uma tarefa simples. A mulher devia sair do prdio a
qualquer minuto. Ele sorriu com a idia de como ela devia ter
entrado em pnico ao encontrar os dois corpos ensangentados. Agora era a sua vez.
A porta do prdio de apartamentos defronte abriu-se e
ele ergueu cuidadosamente o fuzil, apoiando-o no ombro.
Pelo visor, viu o rosto de Dana ao sair correndo para a rua,
olhando frentica em volta, tentando decidir que lado tomar. Mirou com extremo cuidado para certificar-se de que
ela ficasse no centro exato do visor e apertou delicadamente o gatilho.
Nesse instante, um nibus parou diante do prdio, e a saraivada de balas atingiu a parte de cima do veculo, arrancando parte do teto. O franco-atirador olhou para 
baixo, incrdulo.
Algumas balas haviam ricocheteado e entrado na alvenaria
do prdio, mas o alvo sara ileso. Pessoas saltavam em debandada do nibus, aos gritos. Ele sabia que tinha de dar o fora
dali. A mulher corria pela rua. No se preocupe. Os outros cuidaro dela.
As ruas estavam geladas e o vento uivava, mas Dana nem percebeu. Achava-se em pnico total. Dois quarteires adiante,
chegou a um hotel e entrou correndo no vestbulo.
- Telefone? - disse ao recepcionista atrs do balco.
Ele olhou para as mos ensangentadas de Dana e recuou.
- Telefone? - Ela quase gritava.
Nervoso, o recepcionista apontou para uma cabine telefnica num canto do saguo. Dana correu para dentro dela. Da
bolsa, tirou um carto telefnico e, com dedos trmulos, ligou
para a telefonista.
- Quero fazer uma chamada para os Estados Unidos.
- As mos tremiam. Entre dentes, tiritando, deu  telefonista o nmero do carto, o de Roger Hudson, e esperou.
Aps o que pareceu uma eternidade, Dana ouviu a voz de
Cesar
- Residncia dos Hudsons.
- Cesar! Preciso falar com o Sr Hudson. - A voz saiu
engasgada.
- Srta. Evans?
- Depressa, Cesar, depressa!
Um minuto depois, ouvia a voz de Roger Hudson.
- Dana?
- Roger! - Lgrimas escorriam-lhe pelas faces. - Ele...
ele est morto. Eles o as... assassinaram e  sua amiga.
- Como? Meu Deus, Dana. No sei o que... Voc est ferida?
- No... mas eles esto tentando me matar
- Agora, escute com muita ateno. Tem um avio da
Air France que parte para Washington  meia-noite. Vou conseguir uma reserva para voc nele. No se deixe ser seguida
at o aeroporto. No tome um txi a. V direto para o Hotel
Metropol. O hotel tem nibus direto at o aeroporto que sai
regularmente. Pegue um. Misture-se  multido. Estarei  sua
espera quando chegar a Washington. Pelo amor de Deus, se
cuide!
- Vou me cuidar, Roger. Obr ... obrigada.
Desligou o telefone. Ficou ali parada por um instante, incapaz de mover-se. No conseguia tirar da mente as sangrentas
imagens de Shdanoff e sua amiga. Sorveu um longo hausto de
ar, retirou-se da cabine, passou pelo recepcionista desconfiado
e saiu para a noite congelante.
Um txi parou na curva perto dela, e o motorista disse-lhe
algo em russo.
- Nyet - respondeu Dana. Ps-se a correr pela rua. Precisava primeiro voltar ao seu hotel.
Depois que desligou o telefone, Roger Hudson foi correndo ao
quarto onde Pamela se vestia para o jantar
- Dana acabou de ligar de Moscou. Descobriu por que os
Winthrops foram assassinados. Ela est em apuros.
Pamela disse: ..
- Ento temos de cuidar dela j. - Ficou pensativa por
um momento e acrescentou em seguida: - Roger .. diga-Lhes
que faam parecer um acidente.

VInTe e TrS

Em Raven Hill, na Inglaterra, uma placa de PROIBIDA A
ENTRADA em letras vermelhas e uma alta cerca de ferro excluam o mundo dos hectares florestais da sucursal da FRA no
Reino Unido. Atrs da base estreitamente vigiada, uma srie
de antenas rastreadoras por satlite monitorava as comunicaes a cabo e de ondas curtas que passavam pela Gr-Bretanha.
Numa casa de concreto, no centro do complexo industrial,
quatro homens olhavam com ateno uma grande tela.
- Amplie a imagem dela, Scotty
Eles viram quando a imagem da televiso transferiu-se de
um apartamento em Brighton enquanto a antena se movia. Um
momento depois, surgiu na tela grande uma imagem de Dana
entrando em seu quarto no Hotel Soyuz.
- Ela voltou. - Viram-na lavar apressada as mos para
tirar o sangue e comear a despir-se.
- Ei, l vamos ns de novo - disse um dos homens, abrindo um largo sorriso.
Ficaram todos de olhos grudados em Dana tirando a roupa.
- Cara, com certeza eu gostaria de dar uma bimbada naquilo.
Outro homem entrou esbaforido na sala.
- Acho que no, a no ser que voc agora esteja metido
em necrofilia, Charlie.
- De que  que est falando?
- Ela vai sofrer um acidente fatal.
Dana terminou de vestir-se e conferiu as horas no relgio de
pulso. Ainda tinha muito tempo para pegar o nibus do Metropol para o aeroporto. Com ansiedade cada vez maior, desceu
correndo a escada at o vestbulo. A mulher gorda no estava
em nenhum lugar  vista.
Saiu para a rua. Parecia impossvel, mas o frio ficara ainda
mais intenso. O vento era um misterioso e implacvel esprito
feminino com seus lamentos uivantes. Um txi parou diante dela.
- Taksi?
No tome um txi a. V direto para o Hotel Metropol. O hotel
tem nibus direto at o aeroporto que sai regularmente.
- Nyet.
Saiu andando pela rua glacial. Multides passavam aos
empurres por ela, apressando-se para o calor de suas casas ou
escritrios. Ao aproximar-se de uma esquina movimentada,
esperando para atravessar, ela sentiu um violento tranco por trs
e saiu voando para a rua diante de um caminho que vinha em
sua direo. Escorregou num pedao de gelo e caiu de costas,
erguendo os olhos horrorizada enquanto o imenso caminho
acelerava para cima dela.
No ltimo segundo, o motorista de rosto lvido conseguiu girar
o volante para que o meio exato na parte mais alta debaixo do
caminho passasse acima de Dana. Ela ficou deitada ali na escurido por um momento, os ouvidos ensurdecidos pelo rugido do
motor, e as correntes estrondosas batendo nos imensos pneus.
De repente, voltou a ver o cu. O caminho tinha ido. Sentou-se, grogue. Pessoas ajudaram-na a levantar-se. Ela olhou
em volta  procura de quem a empurrara, mas podia ter sido
qualquer um na multido. Inspirou profundamente e tentou recuperar o controle. Pessoas a cercavam e gritavam-lhe em russo. Comearam a pression-la, fazendo com 
que entrasse em
pnico.
- Hotel Metropol? - disse Dana, esperanosa.
Um grupo de rapazes tinha se aproximado.
- Claro. A gente leva voc at l.
O saguo do Metropol estava abenoadamente quente, cheio
de turistas e homens de negcios. Misture-se s multides. Estarei a sua espera quando chegar a Washington.
Dana perguntou a um mensageiro:
- A que horas sai o prximo nibus para o aeroporto?
- Em trinta minutos, gaspaha.
- Obrigada.
Sentou-se numa poltrona, ofegante, tentando varrer o horror indizvel da mente. Sentia-se tomada de pavor. Quem estava tentando mat-la e por qu? E Kemal estava 
seguro?
O mensageiro aproximou-se e avisou que o nibus tinha chegado.
Foi a primeira a entrar. Ocupou um assento nos fundos e
examinou os rostos dos passageiros. Havia turistas de meia dzia de pases; europeus, asiticos, africanos e alguns americanos. Um homem num assento da outra fileira 
a fitava.
Ele parece conhecido, pensou Dana. Ser que est me seguindo? Comeou a sentir falta de ar
Uma hora depois, quando o nibus parou no Sheremetyevo
II, Dana foi a ltima a desembarcar. Entrou correndo no prdio
do terminal e foi para o balco da Air France.
- Posso ajud-la?
- Tem uma reserva para Dana Evans? - perguntou, prendendo a respirao. Diga sim, diga sim, diga sim...
A funcionria folheou alguns papis.
- Sim. Aqui est sua passagem. Paga com antecedncia.
Abenoado Roger.
- Obrigada.
- O avio est no horrio.  ovo 220. Partir dentro de
uma hora e dez minutos.
- Tem algum salo de espera onde eu possa descansar? E Dana quase acrescentou: Com um monte de gente?
- No fim do corredor,  direita.
- Obrigada.
O salo estava cheio. Nada ali parecia fora do comum ou
Ameaador. Dana sentou-se numa poltrona. Em pouco tempo,
estaria a caminho dos Estados Unidos e da segurana.
- Todos os passageiros do vo 220 da Air France para Washington devem se dirigir agora para o Porto 3. Por favor, tenham  mo seus passaportes e tquetes de embarque.
Dana levantou-se e foi para o Porto 3. Um homem que a
vigiava de um balco da Aerollot falou no telefone celular
- O alvo est se dirigindo para o porto de embarque.
Roger Hudson pegou o telefone e ligou para um nmero.
- Ela est no vo 220 da Air France. Quero que a peguem
no aeroporto.
- Como deseja que a gente a liquide, senhor?
- Eu sugeriria um acidente de atropelamento e fuga.
Eles seguiam por um cu de brigadeiro, num vo suave e regular, a 13.500m. No havia uma nica poltrona vazia no avio.
Um americano sentara-se junto a Dana.
- Gregory Price - ele se apresentou. - Trabalho no ramo
de madeiras. - De seus quarenta anos, tinha um longo rosto
aquilino, luminosos olhos cinzentos e um bigode. - Mas que
pas esse que acabamos de deixar, hem?
O nico propsito da existncia de Krasnoyarsk-26  fazer plutnio, o ingrediente bsico nas armas atmicas.
- Com certeza, os russos so diferentes de ns, mas a gente
se acostuma com eles depois de algum tempo.
Cem mil cientistas e tcnicos moram e trabalham aqui.
- Claro que no cozinham como os franceses. Quando
venho para c a negcios, trago meu prprio pacote de guloseimas.
No podem sair. No podem receber visitantes. So obrigados a
desligar se completamente do resto do mundo exterior.
- Estava na Rssia a negcios?
Dana trouxe a si mesma para o presente.
- Frias.
Ele lanou-lhe um olhar surpreso.
- Mas  uma pssima poca para tirar frias na Rssia.
Quando a comissria de bordo atravessou o corredor com
um cardpio, ela comeou a recusar delicadamente, mas ento
percebeu que estava faminta. No se lembrava da ltima vez
em que comera.
Gregory Price ofereceu-Lhe:
- Se quiser uma dose de conhaque, tenho a coisa autntica aqui comigo, senhorita.
- No, obrigada. - Deu uma olhada no relgio de pulso.
Iam aterrissar em menos de uma hora.
Quando o vo 220 da Air France pousou no Aeroporto Dulles,
quatro homens olhavam com ateno a aeromoa abrir a porta
do avio e os passageiros comearem a descer. Ficaram ali, confiantes, sabendo que no havia como ela escapar
Um deles disse:
- Trouxe a hipodrmica?
- Sim.
- Leve-a para o Parque de Rock Creek. O chefe quer um
atropelamento e fuga.
- Certo.
Voltaram os olhos para a porta. Passageiros desciam em grupos do avio, com grossas roupas de l, parkas, protetores para
os ouvidos, cachecis e luvas. Por fim, cessou o fluxo de passageiros.
Um dos homens franziu as sobrancelhas.
- Vou l ver o que a est detendo.
Foi at o avio e entrou. A tripulao trabalhava ocupada
na limpeza. O homem atravessou o corredor entre as poltronas. Abriu as portas dos banheiros. Vazios. Avanou s pressas de volta para a entrada e perguntou a uma 
comissria d
bordo:
- Onde Dana Evans estava sentada?
A comissria de bordo pareceu surpresa.
- Dana Evans? Quer dizer, a apresentadora da TV?
- .
- Ela no estava neste vo. Quem dera que estivesse. Eu
adoraria t-la conhecido pessoalmente.
Gregory Price dizia a Dana:
- Sabe o que  fantstico no ramo de madeiras, senhorita? Seu produto cresce sozinho. Sim, basta ficar sentado por
perto e ver a Me Natureza fazer tudo por voc.
Uma voz chegou pelo alto-falante.
- Vamos aterrissar no Aeroporto de Chicago dentro de alguns minutos. Por favor, queiram apertar o cinto de
segurana e pr o encosto da poltrona na vertical.
A mulher do outro lado do corredor disse, com cinismo:
- , ponha o encosto bem na vertical. Eu  que no ia
querer estar inclinada quando morresse.
A palavra "morrer" provocou-lhe um sobressalto. Podia
ouvir o barulho das balas ricocheteando na parede do hotel e
sentir a mo forte atirando-a na direo do caminho que se
aproximava. Estremeceu ao pensar nas duas escapadas por um
triz por que passara.
Horas antes, sentada no salo de espera do Aeroporto
Sheremetyevo II, dissera a si mesma que tudo ia acabar bem.
Os mocinhos vo vencer. Mas alguma coisa relacionada a uma
conversa que teve com algum a incomodava. A pessoa dissera alguma coisa inquietante, mas que fugira de sua mente.
Teria sido numa conversa com Matt? Tim Drew? O comissrio Shdanoff? Quanto mais Dana tentava se lembrar, mais
aquilo escapava dela.
Uma comissria de bordo anunciou no alto-falante:
- O vo 220 da Ar France est pronto para partir para
Washington, capital. Por favor, tenham  mo seus passaportes
e tquetes de embarque.
Dana levantou-se e dirigiu-se para o porto. Quando comeou a mostrar o tquete ao guarda, lembrou-se de repente
do que fora. A ltima conversa com Sasha Shdanoff.
Ningum sabe que estou aqui.  o Que a gente chama de uma
"casa segura".
Roger Hudson foi o nico a quem Dana disse onde ficava o
esconderijo de Sasha Shdanoff. E logo depois disso Shdanoff
fora assassinado. Desde o incio Roger Hudson tinha feito aluses sutis a alguma ligao sombria entre Taylor Winthrop e a
Rssia.
Quando estive em Moscou havia um rumor de que Winthrop
estava envolvido em algum tipo de acordo secreto com os russos...
Pouco antes de Taylor Winthrop tornar se nosso embaixador na
Rssia, ele disse a amigos ntimos que estava se retirando definitivamente da vida pblica...
Foi Winthrop quem pressionou o presidente para nome-lo embaixador...
Ela havia contado a Roger e Pamela todos os seus passos.
Eles a haviam espionado o tempo todo. E s poderia haver uma
razo:
Roger Hudson era o scio misterioso de Taylor Winthrop.
Quando o vo da American Airlines pousou no Aeroporto
O'Hare em Chicago, Dana esforou-se por ver pela janela
alguma coisa suspeita. Nada. Tudo tranqilo. Respirou fundo e iniciou a descida. Tinha os nervos em fogo. Conseguiu
manter o mximo de passageiros  sua volta enquanto entrava no terminal, ficando com a multido conversadora.
Precisava dar um telefonema urgente. Durante o vo, uma
coisa terrvel lhe ocorrera, que fazia seu prprio perigo parecer insignificante. Kemal. E se estivesse em perigo por causa
dela? No podia suportar a idia de que alguma coisa acontecesse a ele. Precisava de algum para proteg-lo. Imediatamente pensou em Jack Stone. Ele trabalhava numa 
organizao
poderosa o bastante para dar o tipo de proteo que ela e
Kemal precisavam, e tinha certeza que ele conseguiria arranjar. Fora solidrio com ela desde o incio. Ele no  realmente
um deles.
Estou tentando ficar fora do circuito. Posso ajud-la melhor
assim, se entende o que quero dizer.
Dana dirigiu-se para um canto deserto do terminal, procurou na bolsa e pegou o nmero particular que Jack Stone
tinha lhe dado. Telefonou para ele, que respondeu de imediato.
- Jack Stone.
-  Dana Evans. Estou em apuros. Preciso de ajuda.
- Que est acontecendo?
Dana percebeu preocupao em sua voz.
- No posso falar disso agora, mas algumas pessoas esto
atrs de mim, tentando me matar
- Quem?
- No sei. Mas  com meu filho que estou preocupada.
Pode me ajudar a conseguir algum para proteg-lo?
Ele respondeu no mesmo instante.
- Verei o que posso fazer. Ele est em casa agora?
- Est.
- Vou mandar algum l. Mas, e voc? Disse que tem algum querendo mat-la?
- Tem. Eles... j tentaram duas vezes.
Houve um silncio momentneo.
- Vou dar uma examinada e ver o que posso fazer. Onde
voc est?
- No terminal da American Airlines no O'Hare, e no sei
se posso sair daqui.
- Fique onde est. Vou arranjar algum para proteg-la.
Enquanto isso, deixe de se preocupar com Kemal.
Dana sentiu uma onda de profundo alvio.
- Obrigada. Obrigada. - E desligou o telefone.
Em seu escritrio na FRA, Jack Stone reps o receptor no
Lugar. Apertou o boto do interfone.
- O alvo acabou de ligar. Est no terminal da American
Airlines no O'Hare. Agarre-a.
- Sim, senhor.
Jack Stone perguntou:
- Quando o general Booster volta do Extremo Oriente?
- Esta tarde.
- bem, vamos acabar logo com esse inferno antes que ele
descubra o que est acontecendo.

VInTE E qUATRO

O celular de Dana tocou.
- Jeff!
- Al, querida. - E o som de sua voz parecia uma manta
em volta dela, aquecendo-a.
- Oh, Jeff! - Dana percebeu que tremia.
- Como voc est?
Como estou? Fugindo para salvar a vida. Mas no podia dizer-Lhe isso. Ele no tinha como ajud-la, no naquele momento. Era tarde demais.
- Es... estou bem, querido.
- Onde est agora, sua viajante do mundo?
- Em Chicago. Volto para Washington amanh. -Quando vai ficar comigo? - Como... vai Rachel?
- Parece que est se recuperando bem.
- Sinto sua falta.
A porta do quarto de Rachel abriu-se e ela entrou na sala
de estar. Ps-se a chamar por Jeff e parou ao ver que ele estava
ao telefone.
- Sinto sua falta mais do que pode imaginar - disse Jeff.
- Oh, eu o amo tanto. - Um homem por perto parecia
encar-la. O corao de Dana comeou a martelar. - Querido, se... se alguma coisa me acontecer... lembre-se sempre que
eu...
Jeff alarmou-se no mesmo instante.
- Que quer dizer com se alguma coisa lhe acontecer?
- Nada. Eu... no posso falar disso agora, mas... tenho
certeza que tudo vai acabar bem.
- Dana, no pode deixar que nada lhe acontea! Preciso
de voc. Eu te amo mais que qualquer pessoa que j amei em
toda a minha vida. No suportaria perder voc.
Rachel ouviu por um momento mais longo, depois voltou
em silncio para o quarto e fechou a porta.
Dana e Jeff continuaram conversando mais uns dez minutos. Quando Dana por fim desligou, sentiu-se melhor. Fico feliz
por ter tido uma chance de me despedir. Ergueu os olhos e viu o
homem encarando-a.  impossvel que um dos homens de Jackstonee tenha chegado to rpido. Preciso sair daqui. Sentiu o pnico avolumar-se.
O vizinho de Dana bateu na porta de seu apartamento. A Sra.
Daley abriu-a.
- Al.
- Mantenha Kemal em casa. Vamos precisar dele.
- Vou cuidar disso. - A Sra. Daley fechou a porta e chamou Kemal. - Seu mingau de aveia est quase pronto, querido.
Entrou na cozinha, pegou o mingau no fogo e abriu uma
gaveta embaixo no armrio cheia de invlucros de drogas rotulados "BuSpar". Espalhadas no fundo da gaveta, havia dezenas
de embalagens vazias. A Sra. Daley abriu dois novos invlucros, hesitou e acrescentou em seguida um terceiro. Misturou
o p no mingau, polvilhou com um pouco de acar e levou-o
para a sala de jantar. Kemal saiu do quarto.
- Que bom que veio, meu amor. O mingau est quente.
- No estou com muita fome.
- Voc precisa comer, Kemal. -A voz foi incisiva, de uma
maneira que o assustou. - No quer que a Srta. Dana fique
decepcionada com voc, quer?
- No.
- timo. Aposto que pode limpar o prato pela Srta. Dana.
Kemal sentou-se e comeou a comer
Ele deve dormir por umas seis horas, calculou a Sra. Daley.
Depois vou ver o que querem que eu faa com ele.
Dana disparou pelo aeroporto at passar por uma loja de roupas. Preciso esconder minha identidade. Entrou e olhou em volta.
Tudo parecia normal. Os fregueses ocupavam-se com a compra
de artigos e os vendedores cuidavam deles. Nesse momento,
Dana olhou para fora da loja e sentiu um arrepio da cabea aos
ps. Dois homens haviam-se colocado em cada lado da entrada. Um deles com um walkie-talkie.
Como descobriram que ela estava em Chicago? Dana tentava
controlar o pnico. Virou-se para a vendedora:
- Tem outra sada aqui?
A vendedora balanou a cabea.
- Lamento, senhorita. Mas  s para funcionrios.
Tinha a garganta seca. Deu mais uma olhada nos homens.
Preciso fugir, pensou Dana, desesperada. Tem de haver um jeito.
De repente, pegou um vestido da prateleira e ps-se a dirigir-se para a entrada.
- Espere a! - chamou a vendedora. - No pode...
Dana aproximava-se da porta e os dois homens comearam
a avanar em sua direo. Quando ela a cruzou, o sensor da
etiqueta do vestido disparou um alarme. Um guarda da loja
chegou correndo. Os dois homens se entreolharam e recuaram.
- S um minuto, senhorita - disse o guarda. - Ter de
entrar na loja comigo.
- Por qu? - protestou Dana.
- Porque furto  contra a lei. - O guarda pegou o brao
de Dana e puxou-a de volta para dentro da loja. Os homens
ficaram do lado de fora, frustrados.
Dana sorriu para o guarda.
- Tudo bem. Reconheo. Eu estava furtando. Leve-me em
cana.
Os fregueses comeavam a parar para ver o que acontecia.
O gerente aproximou-se correndo.
- Que foi que houve?
- Peguei esta mulher tentando roubar este vestido...
- bem, receio que teremos de chamar a pol... - Ele virou-se e reconheceu Dana. - Meu Deus!  Dana Evans.
Sussurros ondularam-se pelo bando de gente cada vez
maior.
-  Dana Evans...
- Vemos voc no noticirio toda noite...
- Lembra das suas transmisses da guerra...?
O gerente disse:
- Mil desculpas, Srta. Evans.  bvio que deve ter havido
um engano.
- No, no - apressou-se a dizer Dana. - Eu ia furtar
mesmo. - Estendeu as mos. - Podem me prender
O gerente sorriu.
- Mas nem em sonho. Pode ficar com o vestido, Srta.
Evans, com os nossos cumprimentos. Muito nos lisonjeia que
tenha gostado dele.
Dana arregalou os olhos para ele.
- No vai me prender?
Ele abriu um sorriso de um lado a outro do rosto.
- Vou-lhe fazer uma proposta. Troco o vestido por um
autgrafo. Somos grandes fs seus.
Uma das mulheres parada ali exclamou:
- Eu tambm!
- Pode me dar um autgrafo?
Mais pessoas aproximavam-se.
- Olhe!  Dana Evans.
- Pode me dar seu autgrafo, Srta. Evans?
- Meu marido e eu no perdamos uma s noite quando
voc estava em Sarajevo.
- Voc fez mesmo a guerra parecer viva.
- Eu tambm gostaria de um autgrafo.
Parada ali, ela sentia o desespero intensificar-se a cada segundo. Os dois homens continuavam l fora,  espera.
A mente de Dana disparava. Ela virou-se para a multido e
sorriu.
- J sei o que vou fazer. Vamos l para fora, no ar livre,
que darei um autgrafo a cada um de vocs.
Ouviram-se gritinhos de excitao.
Dana entregou o vestido ao gerente.
- Guarde-o. Obrigada. - Foi avanando para a porta,
seguida pelos fs. Os dois homens do lado de fora recuaram,
confusos, quando o bando de gente acotovelou-se perto deles.
Dana virou-se para os fs:
- Quem  o primeiro? - Todos a comprimiam, estendendo canetas e pedaos de papel.
Diante deles, os homens pareciam sem graa. Enquanto
assinava os autgrafos, Dana continuou movendo-se para a
sada do terminal. A multido seguia atrs. Um txi parou na
curva, deixando um passageiro.
Dana virou-se para a multido.
- Obrigada. Agora tenho de ir embora. - Entrou de um
salto no carro e, um instante depois, o txi desaparecia no trfego.
Jack Stone falava ao telefone com Roger Hudson.
- Sr Hudson, ela conseguiu escapar da gente, mas...
- Porra! No quero saber disso. Quero ela fora de cena...
j!
- No se preocupe, senhor. Temos o nmero da placa. Ela
no pode ir muito longe.
- No me decepcionem mais uma vez. - Roger Hudson
bateu-lhe o telefone na cara.
A Carson Pirie Scott be Company, no corao do centro comercial e de diverses de Chicago, estava cheia de compradores. No balco de lenos de cabea, uma vendedora 
terminava
de embrulhar um pacote para Dana.
- Vai pagar em dinheiro ou cheque?
- Dinheiro. - Era um absurdo deixar uma pista escrita.
Ela pegou o pacote e j ia quase chegando  sada quando
parou, cheia de medo. Viu dois homens diferentes parados diante da porta com walkie-talkies. Olhou para eles, a boca de
repente seca. Voltou-se e correu de volta at o balco.
A vendedora perguntou:
- Precisa de mais alguma coisa, senhorita?
- No. Eu... - Olhou em volta, desesperada. - Tem
outra porta de sada aqui?
- Ah, sim, temos vrias entradas.
No adianta, pensou Dana. Devem estar todas vigiadas. Desta vez, no ia conseguir escapar
Reparou numa compradora com um casaco verde surrado, olhando para um leno num mostrurio de vidro.
- Lindos, no? - exclamou Dana.
A mulher sorriu.
- So mesmo.
Os homens do lado de fora olhavam atentos as duas conversando. Entreolharam-se e encolheram os ombros. Tinham
todas as sadas cobertas.
Dentro, Dana dizia:
- Eu gostaria deste casaco que est usando.  da minha
cor preferida exata.
- Receio que esta coisa velha esteja muito gasta. O seu 
muito bonito.
Os dois homens diante da porta no tiravam os olhos das
duas.
- A droga do frio est de rachar - queixou-se um deles.
-Tomara que a maldita saia logo dali e a gente acabe logo com
isso.
O companheiro fez que sim com a cabea.
- Ela no tem como conseguir... - Interrompeu-se
quando viu as duas mulheres na loja comearem a trocar os
casacos. Abriu um largo sorriso. - Nossa, veja como ela est
tentando se livrar. As duas esto trocando os casacos. Que
grande imbecil.
As duas mulheres desapareceram por um momento atrs do
cabide de roupas. Um dos homens falou no walkie-talkie.
- O alvo trocou seu casaco vermelho por um verde...
Espere a. Ela est indo para a sada quatro. Pegue-a l.
Na sada quatro, dois homens a esperavam. Momentos depois, um deles falou no celular
- Pegamos ela. Traga o carro.
Viram quando ela saiu pela porta para o ar frio. Apertou o
casaco verde em volta do corpo e seguiu pela rua. Eles a cercaram. Ao chegar a uma esquina, quando ela ia fazer sinal para
chamar um txi, os homens agarraram-lhe os braos.
- voc no precisa de txi. Temos um carro bonito  espera.
Ela olhou para eles, atnita.
- Quem so vocs? De que esto falando?
Um dos homens a encarava.
- Voc no  Dana Evans.
- Bem, claro que no.
Os homens entreolharam-se, soltaram a mulher e correram de volta para a loja. Um deles apertou o boto do walkietalkie.
- Alvo errado. Alvo errado. Est me ouvindo?
Quando todos entraram juntos na loja, Dana j havia desaparecido.
Ela tinha sido tomada por um pesadelo vivo, colhida num mundo hostil, com inimigos desconhecidos tentando mat-la. Enredara-se numa teia de horror, quase paralisada 
de medo.
Quando desceu do txi, ps-se a andar rpido, tentando no
correr e chamar a ateno para si, sem a menor idia do lugar a
que se dirigia. Passou por uma loja com uma placa: Sede de
Trajes de poca, Fantasias, Perucas e Maquilagem.
- Posso ajud-la?
Sim. Chame a polcia. Diga a eles que algum est tentando me
matar.
- Senhorita?
-Ha... sim. Eu gostaria de experimentar uma peruca
loura.
- Por aqui, por favor
Momentos depois, Dana via sua imagem como loura no
espelho.
-  impressionante como muda sua aparncia.
Espero.
Fora da loja, ela acenou para um txi.
- Aeroporto O'Hare. - Preciso chegar a Kemal.
Quando o telefone tocou, Rachel atendeu.
- Al... Dr Young? O resultado final do teste?
Jeff viu a repentina tenso em seu rosto.
- Pode me dizer pelo telefone. S um minuto. - Ela olhou
para Jeff; respirou fundo e levou o telefone para o quarto.
Ele ouviu a voz dela, enfraquecida.
- V em frente, doutor
Houve um silncio que durou trs longos minutos, e quando Jeff; preocupado, ia levantar-se para ir at o quarto, Rachel
saiu, com um brilho no rosto que ele nunca vira antes.
- Funcionou! - Ela estava quase sem ar de tanta emoo. - Jeff, o cncer regrediu. A nova terapia deu certo!
- Graas a Deus! Mas isso  maravilhoso, Rachel.
- Ele quer que eu fique aqui por mais algumas semanas,
mas a crise passou - disse Rachel, a voz cheia de vitorioso entusiasmo.
- Vamos sair para comemorar - disse Jeff. - Fico com
voc at...
- No.
- No... o qu?
- No preciso mais de voc, Jeff.
- Eu sei, e fico feliz por ns...
- Voc no entende. Quero que v embora.
Ele olhou para ela, surpreso.
- Por qu...?
- Meu doce e querido Jeff. No quero mago-lo, mas agora
que a doena regrediu, significa que vou voltar a trabalhar.  a
minha vida.  o que sou. Vou telefonar e ver quais os trabalhos
em oferta. Eu me senti presa numa armadilha aqui com voc.
Obrigada por me ajudar, Jeff: Realmente sou muito grata a voc.
Mas chegou a hora de nos despedirmos. Tenho certeza que Dana
sente a sua falta. Sendo assim, por que simplesmente no vai
embora, querido?
Jeff encarou-a alguns instantes e fez que sim com a cabea.
- Est bem.
Rachel viu-o entrar no quarto e comear a arrumar a mala.
Vinte minutos depois, quando ele saiu com a mala na mo,
encontrou-a falando ao telefone.
- ...e voltei ao mundo real, Betty. J posso comear a trabalhar daqui a algumas semanas... Eu sei. No  maravilhoso?
Jeff ficou parado ali, esperando para despedir-se. Rachel deulhe um aceno com a mo e voltou para o telefone.
- Vou lhe dizer o que eu quero... me arranje uma filmagem num pas tropical...
Rachel viu Jeff cruzar a porta. Devagar, deixou o telefone
Cair. Foi at a janela e olhou o nico homem que amara em toda
a vida sair dela para sempre.
As palavras do Dr Young ainda lhe soavam na cabea.
- Srta. Stevens, lamento muito, mas tenho ms notcias.
O tratamento no funcionou... Ocorreu uma metstase do cncer .. muito disseminada. Receio que seja terminal... talvez apenas mais um ou dois meses...
Rachel lembrou-se do diretor de Hollywood, Roderick
Marshall, dizendo-lhe: "Fico feliz que tenha vindo. Vou fazer
de voc uma grande estrela." E quando o excruciante rio vermelho de dor comeou mais uma vez a destruir seu corpo, ela
pensou: Roderick Marshall teria se orgulhado de mim.
Quando o avio de Dana aterrissou, o Aeroporto Dulles em
Washington estava apinhado de passageiros  espera da bagagem. Ela passou pelas esteiras, saiu direto na rua e tomou um
dos txis diante da entrada. No viu nenhum homem com aparncia suspeita, mas seus nervos uivavam. Pegou o estojo de
maquilagem na bolsa e olhou no pequeno espelho para tranqilizar-se. A peruca loura dava-Lhe uma aparncia completamente diferente. Ter de funcionar por ora, pensou. 
Preciso chegar
a Kemal.
Kemal abriu os olhos devagar, despertado pelo barulho de vozes que chegavam atravs da porta do escritrio que era o seu
quarto. Sentia-se grogue.
- O garoto continua dormindo - ouviu a Sra. Daley dizer - Eu o droguei..
Um homem respondeu:
- Vamos ter de acord-lo.
A voz de um segundo homem disse:
- Talvez fosse melhor se o levssemos dormindo.
- Podia liquidar ele aqui mesmo - disse a Sra. Daley. E depois se livrar do corpo.
Kemal de repente ficou totalmente desperto.
- Temos de mant-lo vivo por algum tempo. Eles vo uslo como sca para agarrar a tal de Evans.
Kemal sentou-se, prestando ateno, o corao martelando.
Onde ela est?
- No sabemos ao certo. Mas sabemos que ela deve estar
vindo para c a fim de pegar o garoto.
Kemal saltou da cama. Ficou parado por um momento, rgido de medo. A mulher em quem confiava queria mat-lo.
Pizda! No ia ser assim to fcil, jurou a si mesmo. Eles no conseguiram me matar em Sarajevo. No vo me matar aqui. Ps-se
freneticamente a vestir suas roupas. Quando pegou o brao
artificial na cadeira, a prtese escorregou-lhe da mo e caiu no
cho com o que lhe pareceu uma queda estrondosa. Ficou imvel. Os homens do lado de fora continuavam conversando. No
tinham ouvido o barulho. Kemal prendeu o brao e acabou dE
vestir-se depressa.
Abriu a janela e foi golpeado por uma lufada de ar gelado
Seu sobretudo estava no outro quarto. Saiu pelo parapeito da
janela s com um palet fino, os dentes tiritando. Uma escada
de incndio percorria o prdio de cima a baixo, e ele agarrou-se
a ela, cuidadosamente, para abaixar-se e ficar fora da viso pela
janela da sala de estar
Ao chegar  calada, olhou para o relgio de pulso. Eram
2:45 da tarde. De algum modo, tinha dormido mais da metadE
do dia. Ps-se a correr
- Vamos amarrar o garoto, s para o caso de...
Um dos homens abriu a porta do quarto e olhou em volta
surpreso.
- Ei, ele fugiu!
Os dois homens e a Sra. Daley correram apressados at a
janela aberta, a tempo de ver Kemal disparando a toda velocidade pela rua.
- Peguem ele!
Kemal corria como num pesadelo; as pernas ficando cada vez
mais fracas e elsticas passo aps passo. Cada respirao era uma
facada no peito. Se eu conseguir chegar  escola antes de fecharen
os portes s trs da tarde, pensou, ficarei seguro. Eles no vo ousar
me machucar com todos os outros garotos em volta.
O sinal de trnsito  frente mudou para vermelho. Kemal
ignorou-o, lanou-se como uma flecha e atravessou a rua, esquivando-se de carros, alheio ao barulho das buzinas e ao rangido de freios dos automveis. Chegou ao 
outro lado da rua E
continuou correndo.
A Srta. Kelly pode chamar a polcia, e eles vo proteger Dana.
Comeava a ficar sem flego, e sentia um aperto no peito.
Deu mais uma olhada no relgio: 2:55. Ergueu os olhos. Viu a
escola logo adiante. Faltam s mais dois quarteires para chegar.
Estou a salvo, pensou Kemal. Ainda no acabaram as aulas.
Um minuto depois, chegava ao porto da frente. Parou diante
dele e fitou, incrdulo. Estava trancado. De repente, por detrs,
sentiu um pulso de ferro no ombro.
- Hoje  sbado, idiota.
- Pare aqui - disse Dana. O txi estava a dois quarteires
de seu apartamento. Ela viu-o se afastando. Seguiu a p devagar, o corpo tenso, cada sentido alerta, vistoriando minuciosamente as ruas com os olhos,  procura de 
qualquer coisa fora
do comum. Tinha certeza que Kemal estava a salvo. Jack Stone
o protegeria.
Quando chegou  esquina de seu prdio, evitou a entrada
da frente e entrou na viela paralela que levava aos fundos. Tudo
deserto. Entrou pela porta de servio e subiu a escada sem fazer
barulho. Chegou ao segundo andar, comeou a atravessar o
corredor e de repente parou. A porta de seu apartamento estava aberta. Dana foi instantaneamente inundada pelo medo.
Avanou veloz para a porta e entrou correndo.
- Kemal!
Ningum. Dana lanou-se com mpeto pelo apartamento,
frentica, imaginando o que poderia ter acontecido. Onde estava Jackstone? Onde estava Kemal? Na cozinha, a gaveta de um
armrio estava cada no cho e o contedo se espalhara. Havia
dezenas de pequenas embalagens, algumas cheias, outras vazias. Curiosa, ela pegou uma e examinou-a. O rtulo dizia: Comprimidos BuSpar l5mg, com NDC D087 D822-32 
assinalado.
Que era aquilo? A Sra. Daley vinha tomando drogas ou
dando-as para Kemal? Poderia ter alguma coisa a ver com a
mudana de comportamento dele? Dana ps uma das embalagens no bolso do sobretudo.
Cheia de pavor, saiu do apartamento. Fez o mesmo caminho de volta, saindo na viela e seguindo para a rua. Ao virar a
esquina, um homem escondido atrs de uma rvore falou num
walkie-talkie ao comparsa na esquina defronte.
Diante de Dana, ficava a Farmcia Washington. Ela entrou.
- Ah, Srta. Evans. Posso ajud-la? - perguntou o farmacutico.
- Sim, Coquina. Estou curiosa sobre isso. - Tirou da bolsa
o saquinho.
O farmacutico deu uma olhada.
- BuSpar:  um agente ansioltico. Cristal branco, solvel em gua.
- Para que serve? - perguntou Dana.
-  um relaxante. Tem um efeto calmante. Claro,
quando tomado em doses maiores pode causar sonolncia e
fadiga.
Ele est dormindo. Quer que eu o acorde?
Quando chegou da escola, se sentia to cansado que achei que
um sono lhe faria bem...
Ento aquilo explicava o que vinha acontecendo. E foi
Pamela Hudson quem tinha enviado a Sra. Daley
E pus Kemal nas mos daquela megera, pensou Dana. Sentiu
nuseas no estmago. Olhou para o farmacutico.
- Obrigada, Coquina.
- Foi um prazer, Srta. Evans.
Dana saiu pela porta direto na rua. Os dois homens se aproximavam dela.
- Srta. Evans, poderamos lhe falar um min...
Dana virou-se e correu. Os homens vinham em sua cola.
Chegou  esquina da rua Dois. Um policial no meio do cruzamento dirigia o trfego intenso.
Dana correu para a rua em direo a ele.
- Ei! Volte, senhorita.
Dana continuou aproximando-se.
- Est atravessando o sinal vermelho! No me ouviu?
volte!
Os dois homens esperavam na esquina, olhando com ateno.
-  surda? - gritou o policial.
- Feche a matraca! - Deu um tapa com fora na face do
policial. O guarda, furioso, segurou-lhe o brao.
- Est presa, dona.
Empurrou-a de volta para a calada, mantendo-a segura,
enquanto falava pelo rdio.
- Preciso de um preto-e-branco.
Os dois homens parados se entreolharam, sem saber o que
fazer
Dana lanou-lhes um olhar do outro lado e sorriu. Ouviu-se o som de uma sirene prxima e, alguns instantes depois, um
carro de polcia parou diante deles.
Impotentes, os dois homens olharam quando a puseram no
banco de trs da radiopatrulha e o carro afastou-se.
Na delegacia de polcia, Dana perguntou:
- Tenho direito a um telefonema, certo?
- Certo - respondeu o sargento, que lhe entregou um
telefone. Ela fez uma chamada.
A uns dez quarteires dali, o homem que segurava Kemal pela
gola da camisa empurrava-o em direo a uma limusine  espera na curva, o motor ligado.
- Por favor! Por favor, me solte - implorou Kemal.
- Feche o bico, garoto.
Quatro fuzileiros navais passavam naquele momento.
- No quero ir pro beco com voc - berrou Kemal.
O homem lanou-lhe um olhar perplexo.
- Como?
- Por favor, no me obrigue a ir pro beco. - Kemal virou-se para os fuzileiros. - Ele quer me pagar cinco dlares pra
ir ao beco com ele. Eu no quero ir
Os fuzileiros pararam, encarando o homem.
- Por que, seu pervertido imundo...
O homem recuou.
- No, no. Espere um minuto. Vocs no entendem...
Um dos fuzileiros disse, sorrindo abertamente.
- Entendemos, sim, meu chapa. Tire as mos do garoto.
- Cercaram o homem. Ele ergueu as mos para defender-se.
Kemal aproveitou e saiu correndo a toda.
Um garoto de entrega de encomendas descia de uma bicicleta e dirigia-se para uma casa. Kemal saltou na bicicleta e
afastou-se, pedalando furiosamente. O homem viu, frustrado,
quando ele contornou a esquina e desapareceu.
Na delegacia de polcia, a porta da cela abriu-se com um rangido.
- Est livre para sair, Srta. Evans. Foi liberada sob fiana.
Matt! O telefonema funcionou, pensou Dana, alegre. Ele no
perdeu tempo.
Quando pisou no saguo da recepo, parou em choque.
Um dos homens a esperava ali.
Sorriu para ela e disse:
- Est livre, irm. Vamos.
Agarrou-a com fora pelo brao e ps-se a conduzi-la para
a rua. Quando saram, o homem parou, aturdido. Diante da
delegacia, uma equipe completa da WTN.
- Olhe para c, Dana...
- Dana,  verdade que voc deu um tapa na cara de um
policial...?
- Ele a molestou...?
- Vai abrir processo...?
O homem foi se encolhendo e afastando, cobrindo o rosto.
- Qual o problema? - chamou Dana. - No quer que
tirem sua foto?
Ele fugiu.
Matt Baker surgiu ao lado de Dana.
- Vamos dar o fora dessa barulheira infernal.
No prdio da WTn, Elliot Cromwell, Matt Baker e Abbe
Lasmann ouviam em chocado silncio, j h meia hora, a histria de Dana.
- ...e a FRA tambm est envolvida. Por isso  que o general Booster tentou me impedir de investigar
- Estou aturdido - disse Elliot Cromwell. - Como todos ns pudemos ter nos enganado tanto e por tanto tempo a
respeito de Taylor Winthrop? Acho que devamos informar 
Casa Branca sobre o que est acontecendo. Vamos pedir a eles
que comuniquem ao procurador-geral e ao FBI.
- Elliot, at agora s temos minha palavra contra a de
Roger Hudson - disse Dana. - Em quem voc acha que vo
acreditar?
Abbe Lasmann perguntou:
- No temos nenhuma prova?
- O irmo de Shdanoff est vivo. Tenho certeza que falar. Assim que puxarmos o primeiro fio, toda a histria se desenredar.
Matt Baker inspirou fundo e lanou um olhar de admirao a Dana.
- Quando voc sai em busca de uma matria, sai mesmo
em busca de uma matria.
- Matt, que vamos fazer em relao a Kemal? No sei
aonde procurar ..
- No se preocupe - disse Matt, implacvel. - Vamos
encontr-lo. Enquanto isso, temos de arranjar um lugar para
voc se esconder onde ningum possa encontrar
Abbe Lasmann ofereceu-se.
- Pode usar meu apartamento. Ningum vai procurar voc
l.
- Obrigada. - Dana virou-se para Matt. - Sobre Kemal...
- Vamos pr o FBI nisso j. Mandarei o motorista levar
voc ao apartamento de Abbe. Agora a coisa est sob nosso
controle, Dana. Tudo vai ficar bem. Telefono para voc assim
que souber de alguma coisa.
Kemal pedalava pelas ruas cobertas de gelo, ansioso, olhando
para trs sem parar. Nenhum sinal do homem que o agarrara.
Preciso chegar at Dana, pensava, desesperadamente. No posso
deixar que eles a machuquem. O problema era que o estdio ficava no outro extremo do centro da cidade.
Quando chegou a um ponto de nibus, desceu da bicicleta
e largou-a na grama. Ao ver um nibus se aproximando, apalpou os bolsos e se deu conta de que no tinha um tosto.
Virou-se para um passante.
- Com licena, poderia me dar um...
- Suma daqui, garoto.
Kemal tentou uma mulher que se aproximava.
- Com licena, preciso de dinheiro para a passagem e
- A mulher apertou o passo e afastou-se.
Kemal ficou ali no frio, sem sobretudo, tremendo. Ningum parecia ligar. Tenho de arranjar o dinheiro da passagem,
pensou.
Arrancou o brao artificial e estendeu-o no gramado. Quando o homem seguinte passou, Kemal estendeu o toco e disse:
- Com licena, senhor. Poderia me dar o dinheiro para uma
passagem de nibus?
O homem parou.
- Claro, filho - e estendeu um dlar a Kemal.
- Obrigado.
Quando o homem se afastou, Kemal ps rpido o brao de
volta. Um nibus aproximava-se, a apenas um quarteiro do
ponto. Consegui, ele pensou, jubiloso. Nesse momento, sentiu
uma fisgada na nuca. Ao comear a voltar-se para ver o que
ocorrera, tudo ficou obscuro. Dentro de sua cabea, uma voz
gritava: No! No! Kemal desabou no cho, inconsciente. Os
passantes iam-se juntando.
- Que foi que houve?
- Ele desmaiou?
- Ele est bem?
- Meu filho  diabtico - disse o homem. - Vou cuidar
dele. - Levantou Kemal e carregou-o para uma limusine 
espera.
O apartamento de Abbe Lasmann ficava na parte noroeste
de Washington. Era grande e confortavelmente decorado com
mveis e tapetes brancos. Sozinha no apartamento, andando
de um lado para o outro em pnico, Dana esperava o telefone
tocar. Kemal deve estar bem. No h motivo algum para o machucarem. Ele vai ficar timo. Onde est? Por que no consigo
encontr-lo?
Quando o telefone tocou, assustou-a. Ela pegou-o num salto.
- Al.
Caiu a ligao.
Tocou mais uma vez e Dana percebeu que era o celular
Sentiu uma repentina sensao de alvio. Apertou o boto.
- Jeff?
A voz de Roger Hudson saiu com toda a calma:
- Temos andado  sua procura, Dana. Estou com Kemal
aqui.
Ela ficou imobilizada, sem poder falar. Acabou sussurrando.
- Roger ..
- Receio no poder controlar os homens aqui por muito
mais tempo. Eles querem cortar o brao bom de Kemal. Devo
deixar que faam isso?
- No! - Foi um grito estridente. - Que... que  que
voc quer?
- S quero falar com voc - disse Roger Hudson, ponderado. - Quero que venha at aqui em casa, e que venha
sozinha. Se trouxer algum, no me responsabilizarei pelo que
acontecer a Kemal.
- Roger ..
- Espero-a aqui em meia hora. - A ligao caiu.
Dana ficou ali, entorpecida de medo. Nada pode acontecer a
Kemal. Nada pode acontecer a Kemal. Socou as teclas do nmero do telefone de Matt Baker. A voz gravada dele surgiu no
aparelho.
- Voc ligou para o escritrio de Matt Baker. No momento no estou, mas deixe um recado que ligarei de volta o mais
rpido possvel.
Veio o rudo de um sinal eletrnico.
- Matt, eu... eu acabei de receber um telefonema de Roger
Hudson. Ele est com Kemal preso em sua casa. Leve a polcia.
Depressa!
Dana desligou o celular e dirigiu-se  porta.
Abbe Lasmann punha algumas cartas na mesa de Matt Baker
quando viu a luz de recados piscando na secretria dele. Apertou o boto para ouvir a gravao de Dana. Ficou ali um momento, prestando ateno. Depois sorriu e 
apertou o boto
APAGAR MENSAGENS.
Assim que o avio pousou no Aeroporto Dulles, Jeff telefonou
para Dana. Durante todo o vo, no tirara da cabea aquele
tom estranho na voz dela, aquele perturbador "Se alguma coisa
me acontecer". O telefone celular dela continuava tocando.
nada. Em seguida, Jeff tentou o apartamento. Nenhuma resposta. Decidiu entrar num txi e deu ao motorista o endereo
da WTN.
Quando ia entrar no escritrio de Matt, Abbe lhe disse:
- Ora, Jeff! Que bom v-lo de novo.
- Obrigado, Abbe. - E entrou no escritrio de Matt
Baker.
- Ento est de volta - disse Matt. - Como vai Rachel?
A pergunta desviou Jeff por um instante.
- Vai bem - disse ele, desligado. - Onde est Dana? No
est respondendo ao celular, nem ningum atendeu no apartamento.
- Meu Deus, voc no sabe o que ela tem sofrido, sabe?
- Me diga - disse Jeff, veemente.
No escritrio da recepo, Abbe encostou o ouvido na porta fechada. S conseguia ouvir trechos da conversa. "... atentados contra a vida dela... Sasha Shdanoff... 
Krasnoyarsk-26...
Kemal... Roger Hudson..."
Abbe tinha ouvido o bastante. Foi correndo  sua mesa e
pegou o telefone. Um instante depois, falava com Roger Hudson.
Dentro do escritrio, Jeff ouvia atento tudo que Matt lhe
dizia, estupidificado.
- No d para acreditar nisso...
-  tudo verdade - garantiu-lhe Matt Baker. - Dana
est no apartamento de Abbe. vou mandar Abbe telefonar para
l de novo. -Apertou o boto do telefone interno, mas, antes
que pudesse falar, ouviu a voz de Abbe.
- ...e Jeff Connors est aqui.  procura de Dana. Acho
que seria melhor voc tir-la do meu apartamento. Eles na certa devem ir para l... Certo. Cuidarei disso, Sr Hudson. Se...
Abbe ouviu um rudo e voltou-se. Parados no limiar da
porta, Jeff Connors e Matt Baker a encaravam, chocados.
- Sua filha da me... - disse Matt.
Jeff virou-se para Matt, frentico.
- Tenho de chegar correndo  casa de Hudson. Preciso
de um carro.
Matt Baker olhou pela janela.
- Jamais chegar l a tempo. O trfego est de pra-choque contra pra-choque.
Do heliporto no telhado, ouviram o som do helicptero da
WTN pousar. Os dois homens entreolharam-se.

VINTE E CINCO

Dana conseguiu parar um txi diante do apartamento de Abbe Lasmann, mas o percurso at a casa de Hudson parecia durar
uma eternidade. O trfego nas ruas escorregadias era horrendo. A idia de que se atrasaria e chegaria tarde demais aterrorizava-a.
- Depressa - implorou ao motorista.
Ele lanou-Lhe um olhar pelo espelho retrovisor
- Senhora, no sou um avio.
Dana recostou-se, cheia de ansiedade, pensando no que a
aguardava adiante. A essa altura Matt teria recebido seu recado e chamado a polcia. Quando eu chegar l, a polcia tambm
dever estar. Se ainda no estiver, posso ganhar tempo at chegarem. Abriu a bolsa. Ainda guardava a lata de aerossol de pimenta. Que bom. No pretendia dar moleza 
a Roger e Pamela.
 medida que o txi se aproximava da casa dos Hudsons, Dana
lanava olhares pela janela,  procura de alguma atividade policial. Nada. Quando chegaram e subiram a entrada para carros, ela viu tudo deserto. O medo a sufocava.
Lembrou-se da primeira vez em que tinha ido ali. Como Roger
e Pamela lhe haviam parecido maravilhosos. E no entanto eram
monstros traidores, assassinos. Tinham Kemal. Um dio superpoderoso inundou-a.
- Quer que eu espere? - perguntava-Lhe o motorista do txi.
- No. - Dana pagou, subiu os degraus diante da casa e
tocou a campainha, o corao disparado.
Cesar abriu a porta. Quando a viu, seu rosto iluminou-se.
- Srta. Evans.
E com um mpeto de emoo, Dana percebeu que tinha um
aliado. Estendeu-lhe a mo.
- Cesar
Ele tomou-a em sua manzorra.
- Fico feliz em v-la, Srta. Evans - disse Cesar
- Eu fico feliz em v-lo. - E dizia-o com sinceridade. Tinha certeza que Cesar a ajudaria. A nica questo era saber
quando se aproximar dele. Olhou em volta. - Cesar ..
- O Sr Hudson a espera no escritrio, Srta. Evans.
- Certo.
Dana seguiu Cesar pelo longo corredor, lembrando as coisas incrveis que haviam acontecido desde que entrara pela
primeira vez naquele vestbulo. Chegaram ao escritrio. Sentado  sua mesa, Roger juntava alguns papis.
- Srta. Evans - disse Cesar.
Roger ergueu os olhos. Dana viu Cesar afastar-se. Sentiu-se tentada a cham-lo de volta.
- Bem, Dana. Entre.
Ela entrou, olhou para Roger e foi tomada por uma fria
cegante.
- Onde est Kemal?
- Ah, aquele garoto to querido - disse Roger
- A polcia est vindo para c, Roger. Se voc fizer qualquer coisa a algum de ns...
- Oh, no creio que devamos nos preocupar com a polcia, Dana. - Aproximou-se dela e, antes que soubesse o que
ele fazia, j Lhe arrancara a bolsa e comeava a vasculh-la. Pamela me disse que voc tem um aerossol de pimenta. Tem
andado muito ocupada, no , Dana? - Pegou a lata de aerossol, ergueu-a e borrifou o contedo no rosto de Dana. Ela gritou com a dor ardente. - Oh, ainda no sabe 
o que  a dor,
minha cara, mas lhe garanto que vai descobrir
Lgrimas escorriam pelo rosto de Dana. Ela tentava retirar
o lquido com as mos. Educadamente, Roger esperou que terminasse e depois borrifou-lhe mais uma vez o rosto.
Dana soluava.
- Quero ver Kemal.
- Claro que quer. E Kemal quer ver voc. O garoto est
aterrorizado, Dana. Nunca vi ningum to aterrorizado. Sabe
que vai morrer, e eu Lhe disse que voc tambm ia morrer. Acha
que foi inteligente, no, Dana? A verdade  que voc foi uma
ingnua. Ns a estvamos usando. Sabamos que algum no
governo russo tinha conhecimento do que fazamos e ia nos
denunciar Mas no conseguimos descobrir quem era. Mas voc
fez esse favor para ns, no foi?
A lembrana dos corpos ensangentados de Sasha Shdanoff
e sua amiga passou como um claro na mente de Dana.
- Sasha Shdanoff e o irmo dele, Boris, foram muito inteligentes. Ainda no encontramos Boris, mas logo o encontraremos.
- Roger, Kemal no tem nada a ver com isso. Deixe-o...
- Acho que no, Dana. Comecei a me preocupar quando
voc conheceu a pobre malfadada Joan Sinisi. Ela ouviu por
acaso Taylor falando do plano russo. Ele temia mandar mat-la
porque ela estava ligada a ele. Ento a despediu. Quando ela
entrou com um processo por demisso injusta, ele fez um acordo, com a condio de que ela jamais discutisse o assunto. Roger Hudson exalou um suspiro. - Portanto, 
receio que seja
voc a verdadeira responsvel pelo acidente de Joan Sinisi.
- Roger, Jack Stone sabe...
Roger Hudson balanou a cabea.
- Jack Stone e seus homens tm vigiado cada passo seu.
Podamos ter-nos livrado de voc a qualquer momento, mas
esperamos at conseguir a informao de que precisvamos.
Realmente, no temos mais necessidade de voc.
- Quero ver Kemal.
- Tarde demais. Receio que o pobre Kemal tenha sofrido
um acidente.
Dana lanou-lhe um olhar horrorizado.
- Que foi que vocs...?
- Pamela e eu decidimos que um pequeno incndio era a
melhor maneira de pr fim  lamentvel vidinha de Kemal. Por
isso, o mandamos de volta para a escola. Travessura dele, forar a entrada na escola num sbado. Era simplesmente pequeno o bastante para passar pela janela do poro.
Ela foi tomada de cima a baixo por um dio cegante.
- Seu monstro insensvel. Jamais vai sair impune disso.
- Voc me decepciona, Dana. Recorrendo a clichs? O
que no entende  que j samos impunes disso. - Ele voltou
para a escrivaninha e apertou um boto. Um momento depois,
surgiu Cesar
- Sim, Sr Hudson.
- Quero que cuide da Srta. Evans. E cuide para que ela
ainda esteja viva quando acontecer o acidente.
- Sim, Sr Hudson.
Cesar era um deles. Dana no podia acreditar
- Roger, me escute...
Cesar pegou-a pelo brao e ps-se a retir-la do escritrio.
- Roger...
- Adeus, Dana.
Cesar apertou o punho no brao de Dana, levou-a depressa
pelo corredor, a cozinha, e saram para a lateral da casa, onde
havia uma limusine estacionada.
O helicptero da WTN aproximava-se da propriedade dos
Hudsons.
Jeff disse ao piloto, Norman Bronson:
- Pode descer no gramado e... - Interrompeu-se ao olhar
para baixo e ver Cesar pondo Dana numa limusine. - No!
Espere um minuto - disse.
A limusine comeou a sair pela entrada da garagem, dirigindo-se para a rua.
- Que quer que eu faa?
- Siga-os.
Na limusine, Dana disse.
- Voc no quer fazer isso, Cesar. Eu...
- Cale a boca, Srta. Evans.
- Cesar, me escute. Voc no precisa dessas pessoas. So
assassinos. Voc  um homem decente. No deixe o Sr. Hudson
obrig-lo a fazer coisas que...
- O Sr Hudson no est me forando a fazer nada. Fao
isso pela Sra. Hudson. - Olhou para Dana pelo espelho retrovisor e abriu um largo sorriso. - A Sra. Hudson cuida muito
bem de mim.
Dana examinou-o, estupefata. No posso deixar que isso acontea.
Para onde est me levando?
- Ao Parque Rock Creek. - No precisou acrescentar:
Onde vou mat-la.
Numa caminhonete espaosa, Roger Hudson, Pamela, Jackstonee e a Sra. Daley dirigiam-se para o Aeroporto Nacional de
Washington.
- O avio j est pronto. O piloto tem o plano de vo para
Moscou - disse Jack Stone.
Pamela Hudson comentou: ....
- Deus, detesto clima glacial. Espero que aquela cadela
queime no inferno por me fazer passar por isso.
- E Kemal? - perguntou Roger Hudson.
- O incndio na escola vai ser ateado em vinte minutos.
O garoto est no poro. Profundamente sedado.
Dana ia ficando cada vez mais desesperada. Aproximavam-se
do Parque Rock Creek e o trfego comeava a reduzir
Kemal est aterrorizado, Dana. Nunca vi ningum to aterrorizado. Sabe que vai morrer, e eu lhe disse que voc tambm ia
morrer.
No helicptero que seguia de cima a limusine, Norman Bronson
disse:
- Ele vai fazer a curva, Jeff. Parece que est indo para o
Parque Rock Creek.
- No o perca de vista.
Na FRA, o general Booster entrou enfurecido em seu escritrio.
- Que diabos est acontecendo aqui? - perguntou a um
dos ajudantes.
- Eu lhe disse, general. Enquanto esteve fora, Jack Stone
recrutou alguns dos nossos melhores homens, e eles entraram
numa grande empreitada com Roger Hudson. O alvo  Dana
Evans. Olhe isso. - O ajudante abriu uma tela em seu computador e, um minuto depois, apareceu uma foto de Dana nua,
entrando no chuveiro no Hotel Breidenbacher Hof.
A expresso no rosto do general Booster endureceu-se.
- Meu Deus! - Voltou-se para o ajudante. - Onde est
Jack Stone?
- Partiu. Vai deixar o pas com os Hudsons.
O general Booster retrucou asperamente:
- Ligue-me com o Aeroporto Nacional.
No helicptero, Norman Bronson olhou para baixo e disse:
- Esto indo mesmo para o parque, Jeff. Assim que entrarem debaixo daquelas rvores, vamos perd-los de vista.
Jeff exortou-o:
- Temos de det-los. Pode pousar defronte deles na estrada?
- Claro.
- Faa isso.
Norman Bronson empurrou os controles  frente e o helicptero comeou a descer. Sobrevoou a limusine e ps-se a
baixar delicadamente. Pousou vinte metros  frente da limusine. Eles ouviram os pneus chiando at o carro parar
- Desligue os motores - disse Jeff.
- No podemos fazer isso. Vamos ficar  merc do cara
- Desligue.
Norman Bronson olhou para Jeff.
- Tem certeza que sabe o que est fazendo?
- No.
O piloto suspirou e desligou a ignio. As imensas ps do
helicptero comearam a diminuir a velocidade da rotao at
pararem.
Cesar abrira a porta de trs da limusine.
- Seu amigo est tentando nos causar problema - disse
a Dana. - Curvou-se e, com o punho fechado, desferiu o primeiro golpe, acertando-lhe o queixo. Ela caiu de costas no assento, inconsciente. Cesar levantou-se e partiu 
para cima do
helicptero.
- A vem ele - disse Norman Bronson, nervoso. - Meu
Deus, esse cara  um gigante! '
Cesar aproximava-se do helicptero, o rosto cheio de expectativa.
- Jeff; ele deve ter um revlver. Vai nos matar
Jeff berrou pela janela:
- Voc e seus chefes vo para a priso, idiota.
Cesar comeou a apertar mais o passo.
- Acabou tudo pra vocs. Faria melhor desistindo.
Cesar estava a dez metros do helicptero.
- Vai virar boi de piranha na cadeia.
Cinco metros.
- Vai adorar isso, no, Cesar?
Cesar agora corria. Dois metros.
Jeff apertou com fora o polegar no boto do arranque e as
imensas ps do helicptero puseram-se a girar devagar. Cesar
no prestou ateno, pois tinha os olhos fixos em Jeff, o rosto
cheio de dio. As lminas comearam a girar cada vez mais
rpido. Quando Cesar lanou-se para a porta do helicptero,
compreendeu de repente o que acontecia, embora fosse tarde
demais. Ouviu-se um alto chape, e Jeff fechou os olhos. As partes externa e interna do helicptero ficaram no mesmo instante cobertas de sangue.
- Vou vomitar - disse Norman Bronson. Desligou a ignio.
Jeff deu uma olhada no corpo decapitado no cho, saltou
do helicptero e saiu disparado para a limusine. Abriu a porta.
Dana estava inconsciente.
- Dana... Querida...
Ela abriu lentamente os olhos. Viu Jeff e murmurou:
- Kemal...
A limusine ainda estava a mais de trs quilmetros da Escola
Preparatria Lincoln quando Jeff berrou:
- Olhem. - Diante deles,  distncia, viram a fumaa
comeando a escurecer o cu.
- Eles esto pondo fogo na escola - disse Dana, com um
grito agudo. - Kemal est l. No poro. Oh, meu Deus.
Momentos depois, a limusine alcanou a escola. Do prdio
erguia-se uma densa nuvem de fumaa. Vrios bombeiros trabalhavam para debelar o fogo.
Jeff saltou do carro e dirigiu-se para a escola. Um bombeiro
deteve-o.
- No pode se aproximar mais, senhor.
- Tem algum dentro? - perguntou Jeff.
- No. Acabamos de arrombar a porta da frente.
- Tem um garoto no poro.
Antes que algum pudesse impedi-lo, Jeff correu em direo  porta da frente arrombada e entrou a toda. No corredor
cheio de fumaa, tentou berrar o nome de Kemal, mas s saiu
uma tosse. Ps um leno no nariz e atravessou s pressas o corredor at a escada que levava ao poro. A fumaa era acre e
densa. Jeff desceu tateando pela escada e apoiando-se no corrimo.
- Kemal! - gritou. Nenhuma resposta. - Kemal! Silncio. Jeff vislumbrou uma forma vaga no outro lado do poro. Seguiu para l, tentando no respirar, os pulmes 
ardendo.
Quase tropeou e caiu sobre Kemal. Sacudiu-o. - Kemal!
O garoto estava inconsciente. Com um enorme esforo, Jeff
pegou-o no colo e ps-se a carreg-lo para a escada. Cambaleava, como se embriagado, pela rodopiante nuvem negra, levando Kemal nos braos. Quando chegou  escada, 
meio o carregava e meio o arrastava. Sufocado e cego pela fumaa, ouviu
vozes distantes, perdeu os sentidos.
O general Booster falava ao telefone com Nathan Novero, o
administrador do Aeroporto Nacional de Washington.
- Roger Hudson guarda seu avio a?
- Sim, general. Na verdade, a aeronave se encontra
aqui agora. Acho que acabaram de liberar a pista para eles
decolarem.
- Aborte.
- Como?
- Chame a torre e aborte.
- Sim, senhor - Nathan Novero chamou a torre. Torre, aborte a decolagem do Gulfstream R3487.
O controlador do trfego areo disse:
- Eles j esto taxiando na pista.
- Cancele a desobstruo para decolagem.
- Sim, senhor - O controlador do trfego areo pegou o
microfone. -Torre para Gulfstream R3487. Sua decolagem foi
abortada. Retorne ao terminal.
Roger Hudson entrou na cabine.
- Que diabo  isso?
- Deve ser algum tipo de adiamento - disse o piloto. Teremos de retornar ao...
- No! - interrompeu Pamela Hudson. - Prossiga.
- Com todo o devido respeito, Sra. Hudson, eu perderia
meu brev de piloto se...
Jack Stone aproximou-se do piloto com uma arma apontada para sua cabea.
- Decole. Vamos para a Rssia.
O piloto sorveu um longo hausto de ar
- Sim, senhor.
O avio acelerou e deslizou a grande velocidade pela pista;
vinte segundos depois, estava no ar. O administrador do aeroporto viu, consternado, o Gulfstream elevar-se cada vez mais
cu afora.
- Meu Deus! Ele violou as...
Ao telefone, o general Booster perguntava, insistente.
- Que est acontecendo? Voc os deteve?
- No, senhor. Eles... eles simplesmente acabaram de levantar vo. No temos como faz-los...
E, naquele momento, o cu explodiu. Sob os olhos da equipe de terra horrorizada, partes do Gulfstream comearam a
despencar pelas nuvens em pedaos incandescentes. Parecia
continuar explodindo por toda a eternidade.
Na ponta extrema do campo, Boris Shdanoff olhou atento
por um longo tempo. Por fim, voltou-se e afastou-se.
VIT  SIS
A me de Dana deu uma mordida numa fatia do bolo de casamento.
- Doce demais. Excessivamente doce. Quando eu era mais
jovem e cozinhava, meus bolos derretiam na boca. No  verdade, querida?
"Se derretiam na boca" talvez fosse a ltima frase que passaria pela mente de Dana, mas no era importante.
- Com certeza, me - disse ela, com um sorriso afetuoso.
A cerimnia de casamento foi realizada por um juiz na Prefeitura. Dana convidou a me na ltima hora, aps um telefonema.
- Querida, acabei no me casando com aquele homem
medonho. Voc e Kemal tinham razo sobre ele, por isso voltei
para Las Vegas.
- Que aconteceu, me?
- Descobri que ele j era casado. A esposa tambm no
gostava dele.
- Sinto muito, me.
- Pois , aqui estou eu mais uma vez sozinha.
Solido era a insinuao. Por isso Dana a convidou para o
casamento. Vendo a me conversar com Kemal e at se lembrar de seu nome, ela sorriu. Ainda vamos transform-la numa
av. Sua felicidade parecia imensa demais para absorver. 
estar casada com Jeff era um abenoado milagre, mas havia
mais.
Aps o incndio, Jeff e Kemal haviam ficado um breve perodo no hospital para tratamento de inalao de fumaa. Enquanto estiveram l, uma enfermeira contou a uma 
reprter as
aventuras de Kemal e a matria foi captada pela mdia. O retrato dele apareceu em todos os jornais e sua histria foi contada na televiso. Escreviam um livro sobre 
suas experincias e
falava-se at em uma srie de televiso.
- Mas s se for estrelada por mim - insistiu Kemal, que
se tornou o heri da escola.
Quando se realizou a cerimnia de adoo, metade dos
colegas de escola de Kemal esteve presente para aplaudi-lo.
- Agora sou mesmo adotado, hem?
- Voc  adotado mesmo - disseram Dana e Jeff. - Pertencemos um ao outro.
- Jia. Espere at Ricky Underwood saber disso. Ah-ah!
O terrvel pesadelo do ms anterior foi aos poucos se dissipando. Os trs agora eram uma famlia, e o lar, um porto seguro.
No preciso mais de aventuras, pensou Dana. J tive o suficiente
para durar o resto da vida.
Certa manh, anunciou:
- Acabei de achar um apartamento esplndido para ns
quatro.
- Quer dizer ns trs - corrigiu-a Jeff.
- No - disse Dana, tranqila. - Ns quatro.
Jeff fitava-a.
- Ela quer dizer que vai ter um beb - explicou Kemal.
- Espero que seja um menino. Podemos lanar bolas na cesta.
Mais boas notcias chegariam. O programa de estria do Linha
do Crime, "Histria de Roger Hudson, uma conspirao assassina", recebeu aclamao da crtica e ndices de audincia fenomenais. Matt Baker e Elliot Cromwell no 
se continham de
felicidade.
-  melhor arranjar um lugar para pr o seu Emmy - disse
Elliot Cromwell a Dana.
Houve apenas uma nota consternadora. Rachel Stevens sucumbira ao cncer. A notcia saiu publicada nos jornais, e
Dana e Jeff ficaram sabendo do que tinha acontecido. Mas,
quando a matria apareceu no teleprompter, Dana olhou-a e
engasgou-se.
- No posso ler isso - sussurrou a Richard Melton. E ele
a leu.
Descanse em paz.
Transmitiam o noticirio das onze horas.
- ...e em Spokane, estado de Washington, um guarda foi
acusado pelo assassinato de uma prostituta de dezesseis anos,
e  suspeito da morte de outras dezesseis... Na Siclia, o corpo
de Malcolm Beaumont, setenta anos, herdeiro de uma fortuna em ao, foi encontrado afogado numa piscina. Beaumont
estava em lua-de-mel com a esposa de 25 anos, e acompanhado por dois irmos da noiva. Agora, a meteorologia com
Marvin Greer.
Quando terminou a transmisso, Dana foi at a sala de Matt
Baker
- Tem uma coisa me incomodando, Matt.
- Que ? Me diga que eu a elimino.
- Sabe a matria daquele milionrio de setenta anos que
foi encontrado afogado numa piscina durante a lua-de-mel com
a noiva de 25 anos? No acha que foi terrivelmente conveniente?

NOTA DO AUTOR
Esta  uma obra de fico, mas a cidade subterrnea secreta de
Krasnoyarsk-26  real, uma das treze cidades secretas dedicadas
 produo nuclear. Krasnoyarsk-26 est situada na Sibria
Central, a 3.000 km de Moscou, e desde sua criao, em 1958,
produziu mais de 45 toneladas de armas a base de plutnio.
Embora dois de seus reatores de produo de plutnio tenham
sido desativados em 1992, um permanece ativo, produzindo
atualmente meia tonelada de plutnio por ano, que pode ser
usado na fabricao de bombas atmicas.
Roubos de plutnio tm sido relatados, e o Departamento
de Energia dos EUA est trabalhando com o governo russo no
aumento das medidas de segurana para proteger o material
nuclear
Este livro foi composto na tipologia Goudy
Old Sryle em corpo 11,5/15 e impresso em
papel Offset ?Sg/mz no Sistema Cameron
da Diviso Grfica da Distribuidora Record.
Seja um Leitor Preferencial Record
e receba informaes sobre nossos lanamentos.
Escreva para
RP Record
Caixa Postal 23.052
Rio de Janeiro, RJ - CEP 20922-970
dando seu nome e endereo
e tenha acesso a nossas ofertas especiais.
Vlido somente no Brasil.
Ou visite a nossa home page:
http://www.record.com.br
